O Coma de James Millian
Escritor: Marco Garutti
Deve ser terrível para James Millian ficar dormindo a sua vida inteira, deixando mulher e filhos para trás e sempre esperando o momento de acordar daquele pesadelo. É triste, mas é assim que funciona o estado de coma. Há muitas histórias mirabolantes sobre o que ocorre com a pessoa quando ela está em coma, uns dizem que a pessoa entra em um estado de quase-morte, vira um espírito e é capaz de ficar vagando na Terra enquanto o seu corpo não desperta; outros dizem que as pessoas caem numa espécie de mundo dos sonhos, onde é impossível distinguir o que real e o que é imaginação.
Parece que a espera de James havia chegado ao fim, era a hora do seu despertar.
Então ele abriu os olhos:
– Argh! A luz!
A forte luz do sol penetrava as janelas do hospital abandonado. James não abria os olhos há mais de 13 anos e sua retina estava frágil. A luz fazia seus olhos arderem como o inferno, mas isso só nos primeiros minutos da sua “nova vida”. Ele então levantou da maca, cobriu os olhos com seu braço e foi procurar uma saída do Hospital Santa Gertrudes.
– Olá! Olá! Tem alguém aqui? – Gritava James, na expectativa de uma resposta nos corredores do Hospital. – Já entendi, eu terei que achar a saída sozinho.
O Sr. Millian conseguiu sair do hospital, mas ainda não conseguia entender o porquê dele estar vazio, sem médicos nem pacientes. Será que haviam perdido as esperanças no caso dele?
Milhares de perguntas rondavam a cabeça de James, e muitas coisas haviam mudado em 13 anos, mas ele tinha certeza que uma coisa não havia mudado: a sua esposa e a sua casa. Jennifer vivia dizendo que amava aquele lugar e que nunca iria sair dali, nem morta. James tentou pegar um táxi para chegar em sua casa mais rápido, mas todos o ignoravam. Ele então decidiu caminhar até lá, já que sua casa não era tão longe assim do hospital. Chegando no seu bairro após 20 minutos de caminhada, James percebeu que ali não havia o mesmo movimento que ele estava acostumado antes. Não havia ABSOLUTAMENTE ninguém na rua.
– Jen! Jen! É o James, abra a porta por favor! – Berrava James, batendo na porta sem parar – Querida eu estou morrendo de saudades, abra logo a porta!
Ninguém abriu a porta para James, mas ele havia percebido que a mesma estava destrancada. Ele entrou sem pensar duas vezes, afinal, aquela era a sua casa.
Jennifer pode não ter mudado de casa, mas fez uma completa mudança na casa. Estava tudo completamente diferente do que James guardava em suas lembranças. Mas a maior das mudanças estava na fotografia em cima da estante: Jen estava abraçada à um rapaz que aparentava ter os seus 40 anos, e na frente deles haviam duas crianças; um menino e uma menina.
– Não pode ser… ela me trocou? E já tem até mais um filho? Não, não, não.
James não queria aceitar a verdade. E a incerteza de Jennifer? Ninguém podia prever quando James acordaria, ele poderia nem mesmo acordar. A vida tinha que continuar para ela.
Num ato de desespero, James correu para o quarto aonde ele dormia com Jen. O quarto continuava intacto. O Sr. Millian revirou o guarda-roupas, pois queria saber se ao menos a sua amada havia guardado suas fotos e cartas. Ele então achou a tão procurada caixa com seus pertences.
Escrito atrás de suas fotos, haviam inúmeros “Eu sinto a sua falta, James”; “Deus não podia ter feito isso, não conosco”. Ele ficou confuso, e começou a tirar todas as fotografias da caixa, até achar uma notícia de jornal do ano de 1998 com a sua foto.
Caminhoneiros da rodovia 101 fazem mais uma vítima: James Millian, de 23 anos.
Atropelado brutalmente ao tentar pedir ajuda na rodovia, o jovem rapaz deixa para trás uma esposa e uma filha, que ficaram
em choque com a notícia. Milhares de pessoas estão indignadas com a falta de segurança na rodovia.
– A-a… atropelado?
Os pulmões de James começaram a se apertar. Ele gritava de dor, e já não sentia mais suas pernas. James se deitou no chão e seus ossos começaram a se quebrar. Agora no chão só restava um cadáver cheio de sangue.
A voz de Jen podia ser ouvida de longe:
– Alguém ajude! Doutor?!?
Então o médico e as enfermeiras correram para o quarto.
– Os batimentos cardíacos dele cessaram. Vamos tentar uma reanimação!
1….2….3…. Agora!
1….2….3…. Mais uma vez!
1….2….3.
– Não!! Jaaaaaaaaames! – gritava Jennifer, desesperada.
– Eu sinto muito senhora Millian, mas o seu marido acaba de falecer. – disse um dos médicos.
– Eu esperei por 32 anos… esperei que ele acordasse, e ele me deixa assim? Não pode… não pode ser.. – dizia Jennifer, aos choros.
O doutor então apoiou suas mãos no ombro de Jennifer e disse:
– É triste, mas é assim que funciona o estado de coma. Uns acordam depois de 50 anos, outros nunca mais abrem os olhos. Há muitas histórias mirabolantes sobre o que ocorre com a pessoa quando ela está em coma, uns dizem que a pessoa entra em um estado de quase-morte, vira um espírito e é capaz de ficar vagando na Terra enquanto o seu corpo não desperta; outros dizem que as pessoas caem numa espécie de mundo dos sonhos, onde é impossível distinguir o que real e o que é imaginação. Eu só espero que o seu marido não tenha sido enganado pela sua própria mente, confundindo o mundo real com uma alucinação. Nossa mente as vezes é muito cruel, senhora Millian, ela é muito mais mortal do que os perigos do nosso mundo real, ainda mais quando não temos mais esperanças. A mente é o nosso demônio interior, e o pensamento é o nosso inferno pessoal.
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Gostei, mas, mesmo dando para entender, achei o final um tanto confuso. Além disso, não concordo muito com a última frase, a mente pode ser uma maravilha se for bem usada.
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Mais um coisa: alguém que acaba de sair de um coma de tantos anos jamais conseguiria se levantar e sair andando daquele jeito, mas já que não era real…
Primeiramente, obrigado pelo comentário, Matheus! A frase com a qual você não concordou é a que entrega o final. Se você ler atentamente a parte final do conto, verá que pessoas sem esperanças são um alvo fácil para a mente, e foi justamente o que aconteceu com James: ele perdeu as esperanças. É um pouco confuso sim, mas se você prestar atenção nos detalhes, compreende o texto facilmente.