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Feb
03
2011

O curioso caso do velho Jaime

Escritor: Chuck

Mês passado topei com o Jaime, tava um bocado diferente o danado, sorrisão na cara, rugas luminosas. Perguntei pra ele como ele atingiu um semblante assim, todo pomposo.

Eis que o velhote se pôs a contar toda a história de seu renascer:

Segundo ele a vida sempre fizera sentido em sua própria bagunça, quando criança nada lhe faltava, se não entendia, inventava. E pronto final.

Passava as tardes a admirar as nuvens e os descascados da mureta da padoca perto de casa, desenhava tudo na cabeça para botar na ponta do lápis logo depois.

E puxa! como era feliz o danado nesses tempos de pintar seus pensamentos, seu quarto era repleto de desenhos dos mais variados, elefantes com cor de jasmins e jasmins com cor  de elefante. Foi mais ou menos nesse período iluminado  e cheio de cor que se sucedeu  uma coisa terrível na vida do pequeno Jaime.

Cresceu! Sem aviso a mocidade o apanhou distraído, num intervalo entre um desenho e outro ela chegou lhe atropelando. Rapaz direito e sensato obedeceu as vontades do pai e do senso comum, largou o lápis de cor e pegou no compasso. Aí as imagens deram lugar a números, fórmulas e contas a pagar no fim do mês.

Destaque na faculdade de arquitetura foi logo se aconchegando nesse ritmo pseudo agitado e começou a fazer fama como profissional, logo estaria formado e com sustento garantido, faria fortuna, constituiria família e teria os sonhos todos realizados e devidamente quitados.

Como não queria ficar a toa e nem mal visto, tratou logo de se aprumar e ir atrás de uma esposa para partilhar com ele de todo esse legado que queria pra si. Foi ai que conheceu  Marilene num baile da faculdade. Menina direita, sem dúvida. Crescida a base de educação rígida e princípios honestos se encantou com o modo diferente dele ver o mundo, tiquinho de criança que ainda havia nele, esquecido por ali.

Passa ano e vem ano, vieram os filhos: dois, um veio a ser doutor e a outra professora. Não podiam ser motivo de mais orgulho pros pais corujões. A essas alturas o jovem Jaime começou a perceber que os ombros lhe estavam mais pesados e a cabeça já não era tão rápida, logo passou a ser conhecido na vizinhança como o velho Jaime.

Foi nesse período que eu o conheci, estava sempre  acabrunhado e com os ombros caídos, de olhar perdido vivia a tagarelar sobre problemas que ele mesmo inventava.

Algumas estações depois em sua vida começou um cochicho país afora, e de fala aqui fala ali a mulherada começou gritar coisas como: liberdade, igualdade e fraternidade, se uniram todas para exigir seus direitos de homem veja só você que absurdo! Com a mulher de seu Jaime não foi diferente, cansada da tagarelice monótona do esposo ela se foi com as amigas feministas queimar sutiãs, deixando com ele só a lembrança de ontem e uma pilha de roupas por passar.

O velho Jaime entrou em desespero! Filhos criados, esposa alforriada das regras sociais, tava num mato sem cachorro nenhum, queria que o mundo desse uma paradinha básica para ele poder respirar fundo. Tagarelou de montão e reclamou até não poder mais, como viu que não surtia efeito essa história de falar com o vento, resolveu fazer as pazes com a mesmice.

E foi num desses dias iguais a todos ,que ele ,(de má vontade diga-se de passagem) resolveu ir passear com um compadre por um parque da região, olhou tudo a sua volta quietinho enquanto andava, chorou calado sua solidão e se pôs a admirar as nuvens.

Durante um tempo aquelas massas brancas e disformes de ar não lhe disseram nada, até que de tanto olhar, elas meio tímidas, lhe contemplaram com um sorriso. Qual não foi a surpresa do velho Jaime ao perceber de novo as formas das coisas, ficou embasbacado o pobre homem.

O velho era puro contentamento, chegou em casa e rabiscou de tudo um muito, onde dava ele se punha a fazer rabiscos, correu até a vendinha da esquina e comprou o melhor conjunto de lápis de cor que encontrou, quebrou o compasso em mil pedacinhos.

Desenhou daqui, desenhou dali, rabiscava em tudo que podia e com os materiais mais diversos, preencheu de folha A4 aos muros da cidade com seus desenhos mirabolantes. Não demorou muito pra ficar famoso pela região, era  um tal de pedir pro velho Jaime fazer retrato, desenhar nas creches e pintar nos carros que logo que a fama se alastrou, foi chamado por um figurão pra fazer uma exposição na cidade grande.

Reuniu os cacarecos e pendurou de vez o título de velho. Agora queria ser conhecido pelo nome, seria só Jaime. Quando o encontrei tava com tudo pronto. De mala e tudo me disse que ia sair pra rever o mundo. Disse também que já tinha passado da hora de parar com a brincadeira de ser gente grande, sorriu de orelha a orelha e me deu um tchauzinho.

Quando perguntei o que ia fazer dali em diante me deu uma resposta simples, mas que resumia o jeito Jaime de (re)ver a vida: descobrir o que queria ser quando crescesse e pronto final.


Written by Chuck in: Agenda,Chuck,Contos |

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