O Ladrão de Harpas – Parte 3
Escritor: Luis Oselieri

Kirdis abriu os olhos e percebeu que não havia sido uma boa idéia tentar enganar Nertik, o centauro. Ao seu redor, os vinte orcs pareciam ansiosos em mostrar ao jovem ladrão que nenhum traidor conseguia escapar vivo. Ele então olhou apavorado para as cordas que prendiam seus braços e pernas, desta vez estava tudo perdido, mas mesmo assim seria melhor acreditar que aquelas criaturas estúpidas poderiam se distrair, facilitando a fuga de Kirdis. Já estava longe da Floresta do Vale Vermelho, e por isso se sentia cada vez mais preocupado ao olhar para as montanhas que cercavam a Terra dos Orcs.
Os cavalos seguiam em uma velocidade espantosa, enquanto o líder dos orcs olhava com atenção para um mapa sujo de fezes. Apesar de estar em uma situação que a maioria dos humanos nunca desejaria passar, o jovem ladrão se segurava para não rir das ações impulsivas dos orcs, e por isso deveria tentar se controlar, para não perder um braço, ou ser comido vivo por aquelas aberrações. A Terra dos Orcs era um local muito visitado por caravanas de mercenários, e Kirdis sabia que outras raças como reptantes, goblins, e anões, gostavam de viajar por aquela região para vender mercadorias roubadas.
Lendas antigas contavam que quando um poderoso exército de elfos tentou atravessar a planície da tribo da Lâmina Sangrenta, todos eles enfrentaram um terrível terremoto provocado pelos roncos do orc gigante Ghoorov. A partir daquele dia em que Ghoorov despertou de seu sono secular, a tribo passou a lhe oferecer sacrifícios de bodes e pequenas crianças em todas as sexta-feiras. O jovem ladrão sentia de que a qualquer momento poderia escutar os passos do gigante, e talvez mais um terremoto não seria tão ruim, e poderia lhe ajudar a escapar mais facilmente do bando.
Duas horas de viagem debaixo do sol forte se passaram, e Kirdis olhou surpreso para um acampamento repleto de barracas, uma fogueira acesa e dezenas de garotos orcs brincando e chutando uma cabeça seca de elfo que estava com a boca costurada. Pelo menos estavam se divertindo, pensou o jovem ladrão, mas ele não queria estar na pele daquele elfo que talvez perdeu a vida de alguma forma estúpida e sem sentido. Quando os meninos perceberam a presença de Kirdis, começaram a gargalhar, enquanto coçavam suas peles sujas de terra. Talvez queriam apenas fazer algum jogo, por isso o ladrão sentiu de que seria melhor sorrir e aguardar por alguma resposta positiva.
O líder dos orcs então jogou Kirdis próximo à uma árvore cercada de carcaças e pedaços de ossos, e partiu com seu grupo em direção ao norte, deixando o acampamento. O jovem ladrão não queria ter de passar por mais problemas, mas aqueles garotos orcs pareciam dispostos a parar com o estranho jogo, para começarem a observá-lo. Um deles terminou de chutar a cabeça seca de elfo, e se aproximou sorrindo, mostrando os grandes dentes pontiagudos e repletos de pedaços de carne podre. Kirdis parecia cada vez mais apavorado, pois se aquele menino estivesse com fome, poderia perder uma ou duas orelhas, talvez o nariz, talvez a língua, mas era quase certo que poderia perder alguma parte do corpo.
- Iorth meeth liing ghob. – o garoto orc disse com empolgação.
O ladrão conhecia muito bem o orquês, graças aos ensinamentos diários de seu pai, Kirren, o clérigo, que sempre lhe dizia: “Se um dia estiver com problemas, não se preocupe, isto é normal, e aprender o orquês é só mais um dos problemas.” Kirdis entendeu que o menino achava que sua carne parecia boa, e por isso resolveu respondê-lo de forma rápida:
- Huung meeth akh nob shoo ghob liing elvarg meeth. “Carne humana não é tão boa quanto carne de elfo.”
No dia seguinte, o jovem abriu os olhos e viu um pequeno grupo de garotos orcs discutindo sobre as regras do jogo de chutar a cabeça seca de elfo. Se sentiu satisfeito por ainda não ter sido atacado por nenhum deles, mas a cada vez em que escutava seus horríveis gritos sem nenhuma importância, desejava estar bem longe daquele acampamento. Dois dos pequenos orcs se aproximaram de Kirdis com os rostos amarelos de raiva, e então o jovem ladrão perguntou a um deles:
- Warg iorth naang? “Qual o seu nome?”
- Bholl. Dii iogh wanab plagh tono? “Bholl. Você quer jogar também?”
- Iogh nog plagh. “Você não pode jogar.” – o outro garoto orc disse, bastante irritado.
- Warg iorth naang? “Qual o seu nome?” – Kirdis perguntou.
- Fuuth. Weep arul triigh ton creenp agh nakid fong thiwa ganel. “Fuuth. Estamos tentando criar um nome para este jogo.”
Kirdis pensou durante algum tempo, e sentiu que havia uma certa rivalidade entre os dois meninos, e então resolveu arriscar mais uma vez seu orquês:
- “Futhbol. Me parece um nome muito bom, o que acham?”
Imediatamente os garotos começaram a saltar sobre a terra coberta de pedras, e pareciam mais animados com o nome que o jovem ladrão havia lhes sugerido. Kirdis nunca havia imaginado que um nome tão simples traria tanta alegria e satisfação aos garotos orcs, por isso resolveu que desta vez tentaria algo diferente.
“Tragam isso para cá! Vou lhes mostrar como é que se joga!”, o ladrão gritou empolgado, apontando para a cabeça de elfo seca, que revelava uma aparência cada vez menos agradável.
“Humano… você nos ajudou com o nome do jogo. Quer algo em troca?”, Bholl perguntou ansioso, enquanto mostrava um saco aberto, repleto de pedaços estranhos de carne e pele ressecados.
Kirdis não poderia deixar aquela oportunidade para trás, então ficou pensando em qual seria a melhor resposta. Talvez se dissesse que queria apenas ir embora para casa, ou voltar para a floresta, seria uma boa opção naquele momento.
“Quero… quer dizer… não quero nada.”
“Como assim?”, Futh perguntou bastante curioso, enquanto coçava a cabeça com os dedos sujos de lama.
“Vamos jogar, vou mostrar como é o Futhbol e depois quero deixar este lugar. Preciso encontrar Nertik.”, o jovem ladrão respondeu, mas sentiu que talvez não havia sido uma boa idéia dizer que iria rever o centauro.
Os pequenos orcs pareciam bastante exaltados ao observarem Kirdis saltando com habilidade ao redor da cabeça de elfo, espalhando poeira por todos os lados. Subitamente, o ladrão soltou um forte chute, fazendo com que a cabeça voasse longe em direção à dois garotos orcs muito magros, caindo sobre a terra.
“Escutem, não é para ficarem parados! Da próxima vez, quando eu chutar, um de vocês tente agarrá-la.”
Kirdis percebeu que muitos deles pareciam estar com fome, pois barulhos fortes de estômagos irritados ecoavam por todo o campo esverdeado. Ele sentia de que se continuasse ali naquele lugar, com aqueles meninos estúpidos, poderia virar comida de orc, por isso esperou que eles ficassem um pouco mais distraídos e olhou com atenção ao seu redor. O ladrão soltou mais um chute e desta vez a cabeça de elfo caiu próximo às barracas do acampamento orc. Os garotos correram empolgados para buscá-la e Kirdis correu para o lado contrário, desesperado para encontrar um lugar para se esconder.
Depois de meia hora se enfiando no meio de arbustos espinhosos e escalando pequenas colinas, o ladrão caiu na planície, exausto e com muita sede. Imediatamente se lembrou de Quebra-Ossos, do tempo em que passou na cidade e de todos os problemas que sofreu, mas ainda queria aquela harpa, não porque gostava de instrumentos musicais. Uma harpa de ouro… deveria valer muito, por isso seria melhor tentar mais uma vez convencer Nertik a sair daquela floresta. Kirdis olhou com atenção para o campo gramado que se estendia para além de sua visão, agora seria o momento certo de procurar por algo que pudesse lhe ajudar a encontrar o caminho de volta.
“Hoje não é seu dia de sorte, não é, garoto?”, um homem muito magro, que aparentava ser algum soldado, perguntou de forma irônica, enquanto apontava uma besta carregada com três flechas.
O jovem, ao perceber que o soldado parecia bastante irritado com sua presença, se esforçou para se manter calmo, e respondeu:
“Tem razão. Tive o azar de encontrar com pequenos orcs nem um pouco agradáveis. Agora vejo que também terei de aguentar um homem que se acha uma autoridade.”
“Escute, garoto! Você invadiu terras que não são autorizadas para camponeses. Se continuar aqui poderá ser preso, entendeu agora?”
Terras impróprias para camponeses… Kirdis já estava cansado de ouvir sempre a mesma história, por isso resolveu que não sairia daquele campo, mesmo que tivesse de ser levado à força.
Depois de duas flechas disparadas, uma passando de raspão em sua orelha esquerda, a outra acertando e arrebentando a alça de sua mochila de couro, o jovem resolveu gritar:
“É assim que fazem com os pobres, não é mesmo, seu covarde? Por que não vem até aqui e me enfrente com estas mãos secas de esqueleto?”
O soldado avermelhou-se de fúria e correu atrás de Kirdis como se nada mais lhe importasse. Quando o jovem pensou que seria fácil escapar do soldado, se deparou com mais três montados à cavalo. Um deles disse:
“Não se mexa ou irá morrer. Invadiu as terras do barão e agora será preso e levado até o seu castelo.”
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Da hora.
-
Está ficando boa essa história.
-
“Duas horas de viagem debaixo do sol forte se passaram, e Kirdis olhou surpreso para um acampamento repleto de barracas, uma fogueira acesa “. Pergunta. Se estava de tarde, porque a fogueira estava acesa?
boa pergunta, haha
Talvez porque os garotos orcs tinham acabado de fazer um churrasquinho de elfo
Ah! Tá.
-
é porque eu fiquei pensando.
Normalmente eles fariam fogueiras a noite, ou até mesmo ao entardecer, mas ele reclama de ficar no sol forte, o que seria bem mais cedo.
-
Mas é… churrasquinho de elfo é uma boa resposta. Embora eu não goste de ver elfos morrerem.
hahaha, eu tb nao gosto de ver elfos morrerem, mas neste caso a morte dele foi mais do que necessária !
As fogueiras podem servir para vários propósitos, e um deles eh : assar uma carne para um bando de garotos orcs esfomeados
e definitivamente, nao eh legal virar comida de orcs,hehehe
E seu conto segue meuito bem: bem narrado, bem descrito, com um ótimo ritmo e um personagem muito bem desenvolvido, que pra mim é o que mais valoriza este conto. Ri demais de seu personagem, adoro ladrões malandros, mas esse em especial me agrada pela determinação em conseguir o que quer e a capacidade de atrair confusão. Parabéns por mais essa sequência espetacular =)
Valeu Asami, Kirdis realmente consegue criar confusoes, hehe
E assim que a parte 3 sair da agenda, jah vou estar preparando a parte 4 pra vcs !! =)
Em breve a parte 4 chegando, enquanto isso, se alguem gostou do conto, comente
Eu gostei.
Legal que vc gostou, Thainá, e em breve a parte 4 no ONE, aguarde, hehe
Muito massa xD
Fiquei com inveja ¬¬ quero escrever assim Luis_Sama xD
Que isso, nao fique com inveja, vc tambem em uma boa escritora, hehe
Valeu !
E para todos que gostaram do conto, Boas Festas !!
Depois de quase 1 ano preso, congelado e mofado na agenda, a parte 3 finalmente foi publicada, hahaha. Meus agradecimentos para Lord Jessé, Asami e lobaempeledeovelha por terem acreditado e comentado