Psicopata Interior
Escritor: Matheus A. Francisco
Eu estava cheio de São Paulo e toda aquela confusão, por isso me mudei para uma cidade pequena no interior do estado, seria ótimo para o meu ofício de roteirista. Naquele tempo estava engajado num projeto para uma emissora de TV em ascensão, era uma série policial com espiões brasileiros. Isso pode ser estranho, mas o primeiro episódio que foi ao ar tinha feito muito sucesso.
Já que estava ganhando bem eu comprei uma casa grande num bairro nobre. Quando entrei na minha nova moradia me lembro de ter pensado. Um salário gordo, emprego ótimo, casa bacana, carrão na garagem e paz numa cidade tranquila. Estou no céu!
Eu aprendi uma coisa: às vezes a cidade é caótica, mas as pessoas são tranquilas. Às vezes a cidade é tranquila e as pessoas são caóticas. Na primeira semana tudo correu bem, escrevi muita coisa boa, curti meu tempo livre. Uma maravilha, mas depois o vizinho que tinha ido viajar chegou e tudo foi pro saco.
Na primeira noite ouvi acordes de guitarra das duas às cinco da manhã, mas resolvi relevar. Durante a tarde do dia seguinte o cara ficou martelando alguma coisa por cinco horas consecutivas! Durante a noite o rádio dele, que devia ser enorme, ficou tocando músicas sertanejas insuportáveis, alias, qualquer música sertaneja é insuportável. Eu pensei que durante a madrugada ele ia ficar quieto, não devia ter muita energia para fazer tanto barulho, ele já era um homem idoso.
Porém não houve descanso, os acordes de guitarra ecoaram novamente. Durante a manha do dia seguinte ele decidiu consertar a caminhonete, de modo que ficava acelerando ela toda hora. Eu me revoltei e fui falar com ele.
- Oi, tudo bem? – tentei uma abordagem cortês.
- Tudo ótimo! – respondeu bruscamente.
- O senhor precisa de ajuda? – insisti.
- Não! – disse ele. – Me viro sozinho – acrescentou.
Eu estava começando a perder o controle.
- Eu fiz uma cirurgia de ouvido, o senhor poderia ser mais silencioso? – pedi.
- Não, não poderia! Arrume tampões de ouvido se o som o incomoda – disse ele gritando.
Eu até poderia comprar tampões de ouvido, mas não ia deixá-lo falar assim comigo.
- Veja bem, seu velho! Você pode fazer o barulho que quiser, mas assim que escurecer eu quero paz, caso contrário eu ligo para a polícia.
- Ligue pra quem quiser! – berrou ele, ainda concentrado no motor da caminhonete. – E não se esqueça de ir pro raio que o parta!
Eu o ofendi com um palavrão e voltei para casa estourando de raiva. Não pude escrever uma linha, meu chefe já havia me ligado duas vezes para perguntar se eu ia entregar o roteiro no prazo. Quando escureceu o idiota passou um tempo quieto, mas logo em seguida ligou o rádio no máximo e fui exposto a mais uma sessão de música sertaneja.
Não pensei duas vezes antes de pegar o telefone e ligar para a polícia. Assim que acabei de falar com o policial tudo caiu no silêncio e as luzes na casa do vizinho se apagaram. A viatura demorou dez minutos. Eu saí na rua e expliquei para o guarda o meu problema.
Nós fomos até a casa do desgraçado e tocamos a campainha. Depois de uns minutos ele apareceu com cara de sono e usando um pijama, disse para o policial que dormia há um tempo e que com certeza não estava fazendo barulho. Ainda teve a ousadia de olhar para mim e dizer:
- O barulho não poderia ter vindo da casa que fica do outro lado?
Só não o espanquei ali por que o policial estava perto. Por fim voltei para a casa e o policial advertiu meu vizinho para que não viesse a fazer barulho. Só que, cinco minutos depois da viatura partir, o sertanejo começou novamente. Corri para o telefone, mas assim que toquei nele a música parou.
Fiquei meio confuso e me perguntei como ele poderia saber. Procurei algum fio ou qualquer coisa estranha em casa, mas não encontrei nada. Achei que não era uma boa ideia ligar de novo, a polícia não acreditou em mim antes e não iria acreditar depois.
Raivoso, eu saí de carro a procura de tampões de ouvido, mas me esqueci de que não estava mais em São Paulo e não havia nada aberto na cidade, nem gatos passavam nas ruas. Voltei para a casa no meio da madrugada e para a minha sorte não havia nenhum som, além dos produzidos pelos insetos.
No outro dia, assim que ele começou a fazer barulho, eu fui falar com os outros vizinhos para perguntar se eles não se incomodavam. Eu não tinha percebido, mas apenas duas das casas da minha rua eram ocupadas, uma senhora meio surda morava numa extremidade, e um homem gordo e velho na outra. Nenhum dos dois quis falar comigo.
Quando eu estava na calçada, pronto para ir até a casa do desgraçado barulhento, um garoto de bicicleta parou ao meu lado na rua.
- Oi – disse ele, – se eu fosse você não se metia com a figura.
Ingênuo, perguntei:
- Que figura?
- Esse velho filho da p… Esse velho barulhento – disse ele com um pouco de raiva.
- Esse cara não me dá paz desde que cheguei aqui – disse a ele.
O garoto olhou para os dois lados e verificou se não tinha mais ninguém na rua, então se voltou para mim e disse, sussurrando:
- Ele é do mal.
Olhei-o com curiosidade.
- Sempre que agente ia ligar para a polícia o desgraçado ficava quietinho. Ainda não entendo como ele adivinhava. Por isso meu pai e eu nos mudamos daqui, compramos uma casa no outro lado do bairro. Era impossível dormir.
Nessa mesma noite, enquanto ouvia acordes de guitarra, enlouqueci. Eram em torno de três da manhã quando peguei uma chave inglesa e um objeto que servia para abrir portas, muito comum na minha série policial.
Eu caminhei até o portão da casa dele e o abri com o objeto que portava, andei silenciosamente até a porta da cozinha, entrei e subi pela escada até o segundo andar, que era de onde vinha o som da guitarra. O que eu vi me revoltou, o rádio estava ligado no máximo e o sujeito jazia dormindo tranquilamente em sua cama, usando tampões de ouvido.
Pensei em desligar o rádio e ir embora, mas estava com muita raiva e perdi a razão. Golpeei a cabeça dele inúmeras vezes com a chave inglesa, ri alto, competindo com o som do rádio que ainda tocava.
Após isso eu retirei o cadáver da cama, o enterrei no jardim que ficava no fundo do terreno e coloquei os lençóis e o travesseiro manchado de sangue na máquina de lavar. Por último tratei de sumir com todos os vestígios e impressões digitais. Tudo isso com o rádio ainda ligado.
Só depois que tranquei o portão novamente e voltei para a casa é que me dei conta do que tinha feito, então peguei todas as minhas coisas importantes, coloquei-a no porta-malas do carro e voltei para o meu apartamento em São Paulo.
Uns cinco minutos depois que cheguei liguei para minha corretora, falei para por minha casa a venda e contratar um caminhão para tirar meus móveis de lá. Eu não fiquei sabendo como aquele idiota que morava na casa ao lado sabia o momento exato em que eu ia ligar para a polícia, mas não é mais importante.
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hahahaha, eu ri. bem, final muito brusco, mas divertido. eu gostei do tema e do ‘vilão’. VELHO FDP, HEIM? MERECEU!
HAUahuaa
Obrigado, Samila. Já ouvi reclamações desse final, mas era para ser assim mesmo. Foi o jeito que encontrei para fazer um final impactante. XD
A história é envolvente, mas o final foge um pouco da realidade.
Em nenhum momento anterior, o protagonista deu pinta de que tinha tendências homicidas. Sequer consegui sentir o transtorno dele, o progressivo enlouquecer com a música do vizinho e por aí vai. Se tivesse sentido, até que a morte no final teria crédito. Pelo menos, para mim.
De qualquer jeito, é só uma opinião. Continue escrevendo e praticando.
Valeu!
E se o personagem principal tentasse filmar o vizinho para ter provas?
Olha,adorei o conto. Não vejo necessidade de mostrar anteriormente tendencia homicida no protagonista, afinal uma ação movida a furia poderia muito bem leva-lo a matar o velho. Limpar digitais e enterrar o corpo seria algo comum a se fazer após isso, para qualquer um com QI bom, hehehe>
Enfim, gostei bastante.
Que velho FDP,mereceu totalmente a morte que teve.
Hum,quem manda ficar de sacanagem com os vizinhos?
Amei a história.
Beijos de Chocolate.
Eu gostei do conto justamente por ter tratado de um tema muito estranho de se comentar, a “psicopatia”
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Eu moro numa cidade pequena, gosto muito dela, tudo tranquilo e tudo beleza e graças a Deus tenho bons vizinhos, mas se eu tivesse um vizinho como esse ai do conto, nem sei o que dizer hehehehe…
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Aguentar barulhada alta é foda e haja ouvido pra aguentar um vizinho desse tipo ai como o do conto. Bom, as caracteristicas psicológicas do personagem que teve um dia de furia ou surto, bom, o cara vivia numa cidade grande, era roteirista, tinha que conviver com o estresse diarios e barulhada de carros, preocupação de sair de casa e não voltar vivo e sons altos. De fato é bem estressante viver em uma cidade grande dependendo do lugar.
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Ai o cara vem pra uma cidade pequena pra encontrar um pouquinho de paz, silêncio e calma, dai surge um filho da mãe de um vizinho velho e maluco que gosta de perturbar os outros com som alto, e o pior, o desgraçado ainda dormia com tampões no ouvido e os outros que se ferrava.
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Ai se o cara for mesmo desiquilibrado e tiver algum tipo de doença mental não diagnosticada e for do tipo panela de pressão, que vai deixando as coisas se acumularem até explodir, ai com certeza o cara vai fazer merda como o que ocorreu no conto.
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E no caso do psicopata, alguns chegam a ser tão calculistas e tão espertos que chegam a enganar as pessoas ao seu redor, muitas das vezes aquela pessoa que a gente pensa que é boa e que nunca faria tal coisa, muitas vezes essa pessoa já fez muita merda na vida, o conto pra mim esta bom, valeu a pena ter lido.