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Feb
20
2011

Seis de Fevereiro

Escritor: Ricardo Ragazzo

06/02/2008

A movimentação na ponte era intensa em razão dos curiosos que se aglomeravam atrás do perímetro imposto pelos bombeiros e policiais. Era engraçado ver como as pessoas morriam de medo da própria morte, mas quando ela visitava um desconhecido, algo parecia transformar aquele medo em uma mórbida curiosidade, atraindo multidões como um gigantesco imã. E, naquele 06 de fevereiro, a estrela maior era Dalva.

A mulher, que não aparentava mais de 25 anos e era dona de uma beleza inquestionável, estava lá, segurando-se em um dos postes que ficavam na lateral da ponte e serviam para fazer a iluminação noturna e nos períodos de pouca visibilidade, aparentemente sem motivo algum que justificasse aquelas ameaças de “se jogar lá embaixo” que ela proferia em meio a gritos desesperados. Dalva estava visivelmente transtornada e as táticas dos bombeiros para acalmá-la pareciam ter o efeito inverso. Reforçava a ameaça toda vez que percebia alguém se aproximando mais do que devia – ou que ela desejava – e no momento em que notou um bombeiro vindo determinado em sua direção, abriu as palmas das mãos e lançou-se ao ar, submetendo-se aos inevitáveis efeitos da gravidade.

06/02/2002

A mulher suava na cadeira da sala de espera enquanto aguardava o resultado do exame. Os pingos sucessivos foram suficientes para criar uma pequena poça salgada no chão do consultório, evidenciando um nítido nervosismo. Foram quase 90 minutos de suplício e tormento até ouvir seu nome sendo chamado pela recepcionista:

- Dalva Maria da Conceição.

A consulta foi rápida e a mulher, parecendo um tanto atordoada, seguiu para casa segurando uma pasta na mão. O caminho era longo – dois ônibus para percorrer pouco mais de 20 km durante mais de duas horas – e permitiu que a mulher refletisse um pouco mais sobre tudo aquilo que estava lhe acontecendo, enquanto lia e relia o diagnóstico da pasta.

Abriu a porta de casa e deu de cara com o namorado deitado maltrapilho no sofá assistindo televisão e tomando sua cerveja.

- Marcus, precisamos conversar. – disse ela.

- Não me venha com essa história de trampo de novo, Dalva! Já te disse que tenho meus “esquema” por aí. – respondeu o rapaz.

- Seus esquemas? Que esquemas são esses se você vive do dinheiro que eu ganho? Quando você vai assumir responsabilidades nessa casa? Eu saio pra trabalhar de madrugada e volto quase meia-noite da faculdade enquanto você passa o dia inteiro vendo televisão! Por que você deveria…

O homem parecia acostumado com aquele tipo de crise de nervos e fazia uma cara de quem prestava pouca atenção ao que lhe era falado. Maldita hora em que resolvera morar com aquela morena. Amava-a, mas não a suportava mais. Foi quando ouviu algo que causou calafrios por todo seu corpo, e fez, pela primeira vez, prestar real atenção no que Dalva lhe dizia:

-… Quero ver como você vai fazer para cuidar do seu filho vivendo de esquema!! – completou enquanto jogava em seu colo a pasta com o exame de gravidez.

Nove meses depois…

- Ai, Dalva, esse meu netinho é tão lindo! È uma coisinha tão preciosa!

- Pára, mamãe! Assim você vai arrancar as bochechinhas dele.

O cartório em que estavam era pequeno e tinha poucas cadeiras disponíveis para as pessoas que aguardavam ali. Graças à idade da mãe e ao bebê que segurava no colo, as duas conseguiram ocupar duas delas. Já estavam lá há pouco mais de 30 minutos quando Dalva ouviu seu número sendo chamado. Levantou-se e caminhou até o balcão.

- Vim registrar meu filho.

- Qual o nome dele?

- Evandro Roberto da Conceição.

- E o da mãe?

- Dalva Maria da Conceição.

- Do pai? – o homem levantou a cabeça quando sua pergunta não foi respondida de prontidão. Olhou para a mulher e refez a pergunta. Ela retornou a atenção movendo levemente a cabeça de maneira negativa. Bastou para que o cartorário entendesse, afinal de contas, aquilo era comum por aquelas bandas. Mais uma mãe solteira no mundo, e a lacuna reservada ao nome do pai preenchida por apenas uma palavra: desconhecido.

06/02/2006

Assim que Dalva olhou nos olhos do médico, e viu a forma como havia sido evitada, seu coração soube que havia algo de muito grave com seu filho. Na verdade, era claro que havia alguma coisa errada, pois o garoto que tinha pouco mais de três anos de idade, não conseguia se levantar e caminhar sozinho. As pernas pareciam não ter forças suficientes para suportar seu peso, muito menos seu deslocamento.

O médico tomou fôlego e começou a relatar à mãe aflita que seu filho era portador de uma deficiência conhecida como Distrofia Muscular de Duchenne, ou DMD, responsável por uma fraqueza muscular progressiva que, eventualmente, impede o portador de se movimentar. Informou que essa fraqueza também causa danos ao sistema cardio-respiratório que costumavam ser a causa do falecimento do paciente. Informou também que a expectativa média de vida de um portador de DMD era de 19 anos, porém, em Evandro as condições eram muito mais severas. A doença tinha se desenvolvido nele de maneira incomum, adiantando etapas e já causando a perda de movimentos logo aos três anos e meio de idade. Então, o médico fechou os olhos ao ouvir a temida, mas já esperada, pergunta da mãe de Evandro, e quase dominado por lágrimas de compaixão e solidariedade, respondeu com uma forte dor no peito: “Não mais que seis meses”.

06/02/2007

Dalva fitava o filho deitado, lindo como sempre, quieto como nunca. Mesmo com todas as limitações impostas pela doença, Evandro sempre fora um pestinha. Os olhos não conseguiam desviar da figura do filho, vestindo um pequenino terno especialmente encomendado para ele, e a mente trazia à tona a lembrança do médico informando a ela “não mais que seis meses”. Sorriu ao perceber que a disposição e vontade de viver do filho fizeram com que aquela projeção estivesse errada. Evandro dera a ela seis meses de bônus, passados em sua grande maioria internado em um quarto de hospital, mas conseguira passar com o filho o dobro do tempo “oferecido”.

Evandro morrera exatamente um ano depois de dado o diagnóstico. Num seis de fevereiro. Talvez essa data significasse alguma coisa, mas não conseguia enxergar exatamente o que. Talvez ela significasse uma data para sua partida também. Talvez… Talvez… Sua viagem foi interrompida por mais uma abraço de pêsames, e Dalva aproveitou a consciência recobrada para levantar da cadeira e ficar mais próxima do filho naqueles últimos minutos.

06/02/2008

Capitão Douglas era um homem experiente e tornara-se bombeiro após perder a família em um grande incêndio ocorrido no prédio em que morava há exatamente 5 anos atrás. Após a tragédia ficara perdido no mundo por algum tempo, só se reencontrando ao apaixonar-se pela profissão que hoje exercia. Dedicaria sua vida a salvar o próximo. Esse se tornara seu lema.

A partir de então viveu e respirou trabalho. Não tirava férias e passava todo seu tempo ocioso treinando novas técnicas de salvamento e buscando informações que o tornassem um bombeiro mais capaz. Essa dedicação inquestionável talvez tenha sido a razão para que ele fosse o primeiro a notar os dedos da mão de Dalva se abrindo. Estava amarrado a uma corda pela cintura, mas o equipamento ainda não estava cem por cento seguro quando o bombeiro pulou da ponte na direção da mulher que se soltava. Assim que os corpos trombaram no ar, o bombeiro agarrou o pulso da mulher fazendo um esforço sobre-humano para não soltá-la enquanto era puxado para cima pelos companheiros. Quando atingiram a segurança do asfalto, Dalva estava desfalecida e Douglas era ovacionado por todos como grande herói.

07/02/2008

Quando Dalva abriu os olhos levou poucos segundos até perceber que estava em um hospital. A cama tinha um colchão duro que causava um enorme desconforto em suas costas. Ainda procurava uma posição menos desconfortável quando uma enfermeira entrou no quarto anunciando uma visita. A mãe se aproximou com um enorme sorriso no rosto, felicidade por ver a filha viva depois de tudo que havia acontecido. Deixaria as preocupações e as conversas mais sérias para depois, até porque a filha tinha outra visita. Alguém muito importante. Levantou-se da beira da cama e pediu para que a pessoa entrasse.

Quando Douglas apareceu no quarto segurando aquele buquê de flores nas mãos, o coração de Dalva disparou de uma maneira que só havia ocorrido com ela uma vez: no dia em que havia pegado o filho nos braços pela primeira vez. Dalva ainda não sabia, mas Douglas, seu salvador, também havia perdido as pessoas mais importantes da sua vida em um seis de fevereiro. Os dois trocaram olhares e sorrisos que sugeriam o renascimento de uma esperança há muito perdida. E foi naquele sete de fevereiro que ambos foram presenteados com o maior de todos os presentes: Um recomeço.


Categorias: Agenda,Contos |

3 Comments»

  • Asami says:

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    Grande Ragazzo! Mais uma vez com uma obra-prima aqui no ONE. Muito tocante esse conto, desesperador e a um só tempo envolvente. Com um enredo que aprisiona o leitor e uma técnica de escrita maravilhosa, sem falar na conclusão incrível que brinca com os sentimentos do leitor misturando a tristeza sentida ao acompanhar a tragetória dessa personagem maravilhosa e lutadora que é a Dalva com a felicidade do recomeço. Meus sinceros parabéns, fcou realmente maravilhoso :D

    • Ricardo Ragazzo says:

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      Obrigado, Asami! São comentários assim que nos motivam. Fico muito feliz que tenha curtido. Há outros contos que postei aqui como o “Amizade em Cinco Atos” e “Xeque-Mate” dos quais gosto bastante. Tem algum conto seu que você possa me recomendar?

      Abrazzo Ragazzo

  • Juliana says:

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    Boa Noite Ricardo…

    Estou procurando por Amélia ou Améria Ragazzo e Haroldo Ragazzo. Encontrei seu nome na internet e gostaría de saber se os conhece ou se há algum grau de parentesco. Eles eram de São Paulo, bairro Ponte Rasa. Foram muito amigos da minha família e perdemos o contato há algusn anos.
    Se souber alguma informação, por favor me contate!

    Obrigada!

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