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Feb
03
2011

Sombra Densa – Parte II

Escritor: Matheus A. Francisco

- Essas luvas são ridículas, Gorlim! – disse a garota ruiva ao lado dele.

- Elas evitam que algo ruim aconteça, algo presente em minhas mãos – informou Gorlim.

- Não entendi.

- Agora não é um bom momento para falarmos sobre isso – Gorlim se aproximou do caixão a passou a mão sobre a madeira.

Vários magos se encontravam ao lado do caixão de Jaru. Gorlim não imaginava que aquele velho rabugento tivesse amigos, porém o velório municipal de Fláviam estava cheio.

- Eu vou pegar o desgraçado que lhe fez isso, Jaru. Faço esse juramento diante de teu túmulo.

Cinco dias atrás

Jaru penetrara pela sombria Floresta das Águas Cálidas. Um lugar comum, mas considerado perigoso pelo povo ignorante que viva nos seus arredores. O lugar era escuro e a vegetação incomum, insetos produziam seus costumeiros sons irritantes, o rio borbulhava pela elevada temperatura em que se encontrava e a lua se insinuava pelos pequenos espaços que havia na folhagem presente na copa das árvores.

O mago já se tornara um ancião há muito tempo, estava na hora de resolver alguns assuntos antes que a velhice o fizesse incapaz. Jaru era um homem poderoso e valoroso, mas nem um pouco ético. Seu poder provém em grande parte da essência dos demônios que ele caçara e aprisionara no decorrer da vida.

Naquela floresta estava à casa secreta do mago, onde muitos seres malignos permaneciam encarcerados. Quando Jaru morresse eles seriam libertados, e isso não podia acontecer. Estava na hora de matá-los, mesmo que tal feito custasse quase todo o seu poder.

Um macaco verde pulava assustado pelos galhos das grandes árvores, morcegos voavam esganiçados com a sua presença, coiotes fugiam de seu caminho. O mago chegou ao local onde costumava estar à escotilha que daria acesso a sua masmorra subterrânea.

Com um golpe de cajado o solo tornou-se branco e brilhante, dessa forma encontrou rapidamente o que procurava. E escotilha fez um som agudo ao ser aberta e um cheio putrefato dominou o local. Jaru era especialista em mágica radioativa e luminosa, de modo que luz era como ele mesmo.

A ponta do cajado se incendiou e ele desceu pela escada. Tudo era feito de pedras e metal, o cheiro piorava a cada passo, sons incompreensíveis reverberavam pelo ar. O fogo do cajado, que iluminava seu caminho, lançava sombras fantasmagóricas nas paredes. Pouco antes de chegar às prisões ele ouviu vozes e lamentos de dor, quando chegou pode avistar o corredor extenso que seguia ininterrupto até onde a vista podia alcançar e permitiria que ele se locomovesse entre as celas.

Jaru se preparou para a confusão, os demônios de todos os tipos e tamanhos iriam passar seus membros pelo intervalo de uma barra e outras, iriam gritar e pronunciar maldições. Mas apenas houve o silêncio, o cheiro era forte, no entanto as celas estavam vazias e abertas.

O mago ficou confuso por um tempo. Como eles poderiam ter saído? E por que ele pôde ouvir sons de vozes inumanas enquanto descia as escadas se tudo estava vazio?

Jaru voltou rapidamente para as escadas e ouviu as vozes novamente. Voltou para as celas e tudo caiu no silêncio. Aquilo começou a irritar e a assustar o experiente caçador de demônios e feiticeiro. Ele seguiu por alguns quilômetros até chegar ao fim do corredor onde havia uma porta vermelha que dava para uma sala circular cheia de manuscritos e pergaminhos velhos, alguns produzidos por ele mesmo, outros roubados, outros achados, outros comprados… Lá havia muitos segredos que deveriam permanecer em mãos confiáveis.

Quando abriu a porta sentiu o ar pesado em seus pulmões. Não há circulação ali, nem uma brisa ou sopro de ar fresco. No centro jazia uma mesa grande de madeira azulada, as paredes eram forradas pelas prateleiras com os documentos, no teto havia uma rachadura e num canto um armário, cuja porta estava trancada.

Jaru se sentou no chão, inconsolado. Não conseguia entender o que havia ocorrido com os Demônios. Eles estariam soltos, matando e desolando centenas de aldeias e cidades circunvizinhas, além disso, Jaru perderá grande parte seu poder já que suas fontes estarão dispersas.

Ele ouviu um rangido, como madeira raspando em alguma coisa. A porta que dava para o corredor estava fechada, a porta do armário se encontrava entreaberta, a mesa continuava no mesmo lugar, as prateleiras, que eram de madeira, também não haviam se movido.

Jaru se tornara surdo dum ouvido devido a uma maldição lançada por inimigo dele, um mago pretensioso e desprovido se expressão facial. Com um único ouvido não é possível identificar a origem dos sons, por isso as pessoas nascem com dois, e sabendo disso Jaru tinha ciência de que o barulho que ouviu poderia vir de qualquer lugar. Ele abriu a porta e olhou pelo corredor, estava vazio. Ouviu o som de algo gelatinoso se contorcendo.

O mago julgou que algum demônio devia ter sido deixado para trás. Continuou na soleira da porta, fitando o corredor com o cajado em punho. O barulho de madeira raspando se fez ouvir novamente, mais forte. Jaru apertou o punho em volta do cajado.

As costas dele começaram ficar frias. O barulho gelatinoso. As costas mais frias. Jaru se virou, olhando para a sala circular, suas costas voltaram ao normal. Inspecionou o ambiente.

- Humn… Esta porta estava fechada – disse ele para si mesmo, sentindo o tremor da própria voz. A porta do armário estava aberta até a metade.

Jaru acabou se perguntando por que estava com tanto medo, nunca antes fraquejara perante uma situação de risco. Ele é inteligente, sabia que tinha algo errado acontecendo.

- Quem está aí! – gritou.

Não houve resposta. A cabeça dele se tornou gelada, por isso passou a mão por ela, esfregando os cabelos brancos e ralos.

- De onde vem essa corrente de ar?

O mago olhou para cima, mas não viu nada e o frio sumiu. O Sem-Forma irou-se e gritou com sua voz mole e arrastada, olhou para o mago amedrontado e se aproximou. Quando Jaru se virou em sua direção o Sem-Forma não mais fugiu, avançou enquanto contemplava o horror nos olhos de seu alimento.

Três dias depois um velho sem cérebro foi encontrado boiando no braço norte do rio oriundo da Floresta das Águas Cálidas, o corpo já estava num estado avanço de composição por causa da alta temperatura da água.

X – X – X

A garota ruiva aproximou-se de Gorlim e colocou sua mão clara e belíssima no ombro do garoto melancólico.

- Jamais pense em vingança! – advertiu ela.

- Tarde demais – respondeu Gorlim e cerrou os punhos enluvados.

- Você nem sabe quem o matou!

- Mas vou descobrir.

A garota soltou um longo suspiro.

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