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Feb
20
2011

Uma Amizade em Cinco Atos

Escritor: Ricardo Ragazzo

Quinto Ato – Libertação

- Morreu hoje na Penitenciária da Capital o detento Olavo Ribeiro de Souza. Ele foi espancado até a morte por diversos outros presos do seu pavilhão. Segundo o testemunho de agentes penitenciários, Olavo estava trancafiado no bloco D da penitenciária, reservado aos detentos jurados de morte por outros presos, mas pediu transferência para retornar ao convívio com os outros detentos, sendo cruelmente assassinado em menos de 12 horas. Olavo havia sido preso há alguns meses condenado pelo crime de…

- Pastor, pastor… – gritou o coroinha após desligar a televisão que dava a notícia. – o senhor não sabe o que aconteceu! – continuou o garoto enquanto corria pela sacristia.

Pastor Wellington colocava sua batina quando ouviu o chamado de seu coroinha. Apesar de não identificar a razão para aquela gritaria, Wellington já sabia do que se tratava. Seu coração, além do próprio Olavo, já o haviam preparado para isso. Agora não havia mais volta, tinha definitivamente perdido o amigo. Rezou, genuflexo, uma oração para Olavo, depois vestiu a batina e seguiu para a missa.

Quarto Ato – O Pastor e o Prisioneiro

O caminho tortuoso e repleto de degraus mal-feitos da fria escadaria do presídio não pareceram impor maiores problemas ao jovem pastor que circulava tranquilamente entre os presos pelos corredores do pavilhão. Era admirado pelos detentos e até venerado pelo fato de ser um dos poucos que entendiam algo sobre a difícil vida na prisão.

O corredor de celas estava infestado de homens perigosos que eram forçados a conviver entre si, em meio a perigosas divergências e disputas que vez ou outra, inevitavelmente, chegavam às últimas conseqüências.

Dessa vez o caminho era mais longo, o pastor seguiria até o bloco D, reservado aos prisioneiros jurados de morte, alguns pelos motivos mais fúteis possíveis. Era lá que encontraria Olavo.

À medida que se aproximava das úmidas e escuras celas, foi percebendo o descaso e o abandono destinado àqueles que eram impedidos de conviver normalmente com os outros detentos. Era engraçado notar como um ambiente repleto de pessoas que se julgavam excluídas e injustiçadas pela sociedade podia oferecer o mesmo tratamento cruel e impiedoso àqueles que descumpriam suas regras. Era, assim como do lado de fora dos muros, o mesmo sistema no qual os poderosos achincalhavam os mais fracos com o intuito de conseguir o que queriam.

Ainda vagava em pensamentos quando chegou ao confessionário, que nada mais era que uma pequena sala com duas cadeiras, onde pastor e preso conversavam reservadamente. Ao entrar, observou Olavo sentado, ansiosamente esperando sua visita. O prisioneiro abriu um largo sorriso dizendo:

- É pastor, veja o senhor, se Maomé não pode ir até a montanha…

- Como vai você, Olavo? Olavo… Como é difícil chamá-lo assim.

- Mas é assim que deve ser, pastor. Todo o resto faz parte de um passado um tanto quanto irônico.

- Pode ser, mas eu estou aqui, agora, e quero ajudá-lo nessa transição. Apesar de tudo, ainda sinto a culpa pesando meus ombros.

- Não sinta! Fez-se a vontade d´Ele e nada mais. Sua culpa não me ajudará em nada aqui dentro.

- Como posso ajudá-lo então, Olavo?

- Tanto eu quanto você sabemos que não há como escapar do julgamento dos homens, mas há como escapar do julgamento de DEUS. Você me perguntou como poderia me ajudar, e a resposta é simples, só há uma coisa que eu quero: Redenção!

Assim que ouviu o pedido, pastor Wellington colocou sua bíblia entre as mãos e envolveu o pescoço com uma estola violeta dando início à confissão.

- Pastor, – começou Olavo – venho à sua frente pedir perdão não só pelo que fiz, mas pelo que pretendo fazer…

Terceiro Ato – O Segredo de Olavo

- Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo… Amém!

- Amém! – responderam os fiéis que lotavam os bancos da igreja.

Pastor Wellington normalmente celebrava missas mais demoradas às sextas-feiras à noite, mas uma indisposição estomacal fez com que ele apressasse o culto naquele dia. Precisava tomar seus remédios e descansar um pouco seu corpo, afinal entre eventos beneficentes e a angariação de fundos para obras na comunidade, há quase três dias não dormia direito. Além do que, essa não era sua vez de celebrar a missa, e sim do Pastor Olavo, mas ele não havia sido encontrado há tempo e os fiéis não poderiam esperar.

Entrando na sacristia foi direto em direção ao banheiro onde ficou por quase dez minutos. Saiu de lá um novo homem, leve e muito mais disposto. Parou no quarto do Pastor Olavo para deixar a estola que havia pegado emprestado para celebração da missa.

Quando ia saindo ouviu uns gemidos estranhos e abafados. Andou em direção ao armário seguindo o barulho que se intercalava com o silêncio total. Abriu a porta e nada viu, quando ia fechá-la o gemido iniciou-se novamente, agora mais forte. Começou a revirar o armário para nada encontrar, até que percebeu uma lateral oca de madeira. Com força conseguiu empurrar a madeira para frente revelando um segundo quarto que nunca vira antes, mas foi o que vira lá dentro que o deixara impressionado. Nunca mais esqueceria a imagem daquele menino de pouco mais de dez anos sendo penetrado pelo amigo pastor.

Segundo Ato – Uma Nova Chance

Pastor Olavo dava os últimos retoques no altar que seria palco da grande missa organizada para o Dia de Finados. As flores abrilhantavam o ambiente e traziam um espírito de paz para aqueles que entravam na igreja matriz da Estrada Para o Reino de DEUS. Os fiéis não eram muitos, mas contribuíam religiosamente com seu dízimo que era revertido para obras na igreja e também na casa do Pastor.

O Dia de Finados era a data na qual a igreja ficava mais abarrotada de devotos, e as crianças correndo pelos corredores da catedral captavam grande parte de sua atenção. Várias foram as vezes na qual interrompeu um pai que chamava a atenção do filho por estar fazendo bagunça na Casa de DEUS. Dizia que crianças lhe faziam bem. Traziam-no paz.

Foi em meio à bagunça dos Finados que chegou à igreja uma figura nova, desconhecida da comunidade. Um homem pequeno e robusto, que trazia consigo apenas uma sacola de supermercado cheia de roupas amassadas. Ao vê-lo, Pastor Olavo abriu um largo sorriso dizendo.

- Wellington? É você mesmo?

- Olá, Pastor! – disse o homem retribuindo o sorriso – Vim cumprir minha promessa.

Primeiro Ato – O Prisioneiro e o Pastor

Mais um domingo de visitas chegava ao fim quando uma briga entre dois presos transformou o pátio em um palco de desespero e aflição. Tudo começara quando um deles alegou que o outro desferira algumas cantadas em sua esposa. A acusação rapidamente transformou-se em conflito e o conflito em briga generalizada.

Em meio à confusão, o preso acusado de se insinuar para a esposa do outro já estava no chão do pátio, vítima de uma facada no abdômen. O agressor fez questão de se mostrar, lavando, assim, a honra de sua esposa na frente de todos. Sua vontade era a de esfaqueá-lo mais vezes, mas a presença de uma pessoa fez com que mudasse de idéia. Pastor Olavo era um homem respeitado pelos detentos o que dava a ele alguns privilégios como, por exemplo, evitar um assassinato a sangue frio.

A briga rendeu trinta dias na solitária para um e trinta dias na enfermaria para outro. Durante esse tempo, o pastor acompanhou a recuperação do detento, ouvindo em várias oportunidades seu desejo de vingança. No décimo quinto dia, ao ouvir o mesmo discurso de sempre, o pastor disse ao detento-paciente:

- Meu filho, não há nada que eu possa fazer por você, se você não aceitar Jesus no coração. A vingança só lhe trará desgraça, enquanto o amor à palavra de Deus só lhe trará alegria. Se quiser se vingar, não há nada que posso fazer para impedir, mas uma coisa eu posso fazer: Posso parar de visitá-lo aqui na prisão. Posso deixar de ser seu amigo.

Antes do incidente no pátio, Wellington riria daquela ameaça, mas conviver com o pastor todos aqueles dias foi uma experiência extremamente agradável que não gostaria de perder. Pensou em todas as decisões erradas que tomara na vida, e para onde seu temperamento explosivo e seu rancor o haviam trazido. Não queria mais ódio. Queria amor. Queria tudo aquilo que Pastor Olavo podia lhe oferecer. Dos olhos escorreram as primeiras lágrimas… Lágrimas de purificação. Cumpriria sua sentença até o fim, e quando saísse da cadeia, iria para perto daquele que o libertara.

Aquela seria sua promessa.


Written by Ricardo Ragazzo in: Agenda,Contos,Ricardo Ragazzo |

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