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Feb
17
2011

Uma longa história

Escritor: Fábio Uliana

Esta história começa há muito tempo, numa época em que os homens não se preocupavam com o futuro, pois o futuro somente a Deus pertencia.

Ela começa no nascimento de um homem. O meu.

Fazia um rigoroso inverno naquele ano, hora incerta para uma mulher dar a luz, mas a escolhida para que eu viesse ao mundo. Infelizmente, quando eu nele cheguei, minha mãe partiu. Eu nunca consegui me perdoar por isso.

Estava vivo, mas meu pai parecia não perceber isso. Ele também me culpava pela morte de minha mãe; mesmo sem nunca ter dito uma só palavra, mesmo sem nunca ter me acusado, eu sabia que no seu âmago ele me culpava.

Além de mim, meu pai teve mais três filhos e uma filha, minha Maria, minha irmã, minha mãe.

Maria era apenas alguns anos mais velha, mas era quem cuidava de mim, de meus irmãos e também de meu pai. Ela, ainda muito nova, já assumira a responsabilidade de tomar conta de todos nós. Dela eram todos os afazeres que antes caberiam a minha verdadeira mãe. Fazer a comida, limpar a casa, tecer e cerzir nossas roupas, cuidar de nossas ovelhas e ainda amar a todos nós. Mais ainda, por mim ela nutria uma atenção toda especial, como uma verdadeira mãe deve ter para com seu filho.

Os anos foram passando, todos naquela casa cresciam, tudo mudava muito rápido, inclusive Maria. Ela já começava a ter ares de moça, de mulher. Sua ternura por mim era a única coisa nela que nunca se alterou. Ela tentava me ensinar a escrever e ler, e eu já começava a ajudar meu pai nos serviços da fazenda, plantio, colheita. Entretanto, o que eu mais gostava era quando íamos vender os produtos na feira. Era a parte mais interessante de nossa vida.

Na feira havia sempre muita gente passando, de um lado para o outro, comprando, vendendo. Pura alegria. Muito diferente da rotina da fazenda.
Meu pai permitia que Maria me levasse para passear pela feira no final do dia. Eu adorava. Maria tinha um jeito único de me mostrar as coisas. Ela falava, apontava, ria, brincava. Ela me levava por toda a feira, me mostrava todas as bancas, as famílias de outros feudos, de outros reinos.

Outros anos se passaram, e eu notava que Maria começava a ter uma aparência triste, a perder seu sorriso. Não sabia o que estava acontecendo, e quando eu perguntava, ela me olhava com um olhar terno e dizia que não era nada, que logo iria passar.

Comecei a reparar mais, e pude perceber que ela mudava seu semblante quando estava perto de meu pai. Quando eu voltava do trabalho, ficávamos brincando e cantando, rindo, felizes, mas era só sentir a presença de meu pai em casa que Maria mudava. Seu sorriso desaparecia, seus olhos ficavam temerosos, a felicidade abandonava sua alma.

Certa noite, depois de deitar, não consegui dormir. Fiquei olhando o céu, lembrando das histórias que Maria me contava, sobre os grandes heróis, que, ao morrer, viravam estrelas.

Deitado em minha cama, perdido em histórias e fantasias, ouvi meu pai chamando por Maria.

Curioso, fui até a porta, e a imagem que vi nunca mais saiu de minha memória.

A visão de Maria, deitada sobre a mesa na qual comiamos. As gotas de suor de meu pai que se misturavam às lágrimas dela. Sua expressão, toda a dor estampada em seu rosto.

Por fim, quando meu pai dava urros, inexplicáveis para mim naquele tempo, o olhar dela cruzou com o meu. Nesse momento tomei consciência da origem de toda aquela infelicidade e do sofrimento que a acompanhavam, que a machucavam, que estavam matando-a.

Fiquei ali, parado. Maria juntou os trapos que havia sido seu vestido, e foi para seu quarto. Não pude me mover, até que meu irmão me tirou daquele transe, já era hora de sair para o trabalho.

Ao chegar à mesa, Maria já estava de pé, o desjejum posto, e ela estava a cuidar das ovelhas.

Fui trabalhar, mas não conseguia tirar a imagem do rosto, da dor, do sofrimento de minha irmã da mente. Não pude ficar ali sem saber o que estava acontecendo com minha Maria. Por que ela não pedia a meu pai para parar? Por que não o pedia para não fazê-la sofrer?

Num momento de distração de meu pai, fugi da lida, e fui correndo para casa. Corri o mais rápido que pude. Ao chegar em casa fiquei aterrorizado com o que vi. Maria estava lá, pendurada no teto da casa, seu rosto estava azul. Azul como os tecidos que ela tecia para minhas roupas.Azul que ela dizia que era somente meu.

Seu rosto estava deformado, mas seus olhos já não mais mostravam sofrimento, mostravam alívio, mostravam liberdade.

Eu não consegui segurar um sorriso que teimava em aparecer em meu rosto, eu sabia que ela tinha ido ao encontro de minha mãe, sabia que ela agora estaria mais feliz.

Num dado momento eu percebi que não estávamos mais sós. Olhei para trás e notei que era meu pai chegando a minha procura.

Ele olhava para mim, com fúria. De longe, já esbravejava, perguntando quem havia me dado permissão para que saísse do serviço, e que eu haveria de sentir o peso de sua ira.

Apesar de toda raiva e gritaria, ao entrar em casa e se deparar com a imagem de Maria, presa ao teto, a fisionomia de meu pai mudou. Foi como se o peso da responsabilidade tivesse lhe caiu como um fardo pesado sobre os ombros. E daquele dia em diante meu pai nunca mais foi o mesmo.

Sepultamos Maria ao lado de minha mãe.

Eu fiz a cruz de seu túmulo. Consegui entalhar na cruz, com muito custo, as suas iniciais e uma estrela. No centro da estrela, bem pequenas escrevi minhas iniciais, para que eu estivesse sempre perto dela.

As estações foram passando e meu pai não se interessava mais pelo trabalho. Passava todo o tempo sentado em uma cadeira na varanda olhando para o túmulo de Maria. João, meu irmão mais velho, passou a tomar conta de todos nós.

Trabalhávamos como animais, de sol a sol. Nos sentíamos obrigados ao nosso pai uma vida digna como ele sempre havia nos dado.

Algum tempo depois João conheceu uma moça, e não muito tempo depois se casaram e ela foi morar conosco.

Ela era boa no início, tentando agradar, mas com o tempo começou a se mostrar uma bruxa, como aquelas das histórias de Maria. Comigo ela não tinha o menor carinho, não era como meu irmão havia me prometido, não era como Maria. Ninguém nunca poderia ser.

Passou-se mais um tempo e eu já estava crescido o suficiente para tentar a vida fora de casa, longe daquela megera. Pedi a bênção a meu irmão, que era então a autoridade em casa. Ele me abençoou, e disse que sempre estaria de portas abertas se eu precisasse de um lugar para voltar.

Me despedi de meu pai, de meus irmãos, e de Maria. Pedi também sua bênção, que ela me protegesse e que iluminasse meu caminho.

Nunca soube se o que João havia dito era verdade. Daquele dia em diante não voltei a ver meus irmãos. Nunca mais voltei àquele lugar.
Andei por muitos feudos, por muitas cidades, até que encontrei pouso em um vilarejo, próximo ao litoral do Mediterrâneo. Lá consegui trabalho como aprendiz de ferreiro.

Fazia pequenos serviços no início. Pontas de flechas, pequenas facas, ferraduras.

Eu aprendia rápido, foi o que disse o ferreiro, repetindo as palavras ditas um dia por Maria. Logo eu já fazia grandes serviços e merecendo a confiança do mestre.

Passaram-se alguns meses e eu comecei a sentir que aquele não era meu lugar, que eu não fazia parte dali. Novamente pedi para tomar meu rumo, e com a bênção do mestre eu recomecei minha jornada, sem rumo certo, sem destino.

Atravessei o Mediterrâneo, penetrei pelas encostas da África, passei por vários locais exóticos, por pessoas que eu considerava lendárias.

Vi xeiques e odaliscas, areias sem fim, a morte espreitando atrás do vento cortante do deserto. Depois de muito tempo se passar, pude novamente vez um olhar de afeto dirigido a mim.

Em uma noite de luar eu a vi pela primeira vez. Ela era linda. Sua beleza fazia corar de vergonha a lua.

Seus olhos eram de uma beleza ímpar, de um negro tão profundo que pareciam pedaços da noite, mas de uma ternura tão grande que eu nem conseguiria medir, somente sentir.

Aquele olhar me fazia bem, me fazia novamente feliz, me fazia novamente criança. Naquele olhar ela me tomou para seu. Eternamente.
Ela veio em minha direção. Eu não conseguia acreditar em tal dádiva.

Seu caminhar era forte, demonstrava determinação e estranhei ao vê-la se dirigir em minha direção, se aproximando, me abraçando, me beijando. E eu retribuindo. Tudo numa intensa magia.

Forte demais para ser racional. Suave demais para ser instintivo. Era apenas mágico.

Eu não conseguia organizar sequer um único pensamento. Somente conseguia me entregar ao prazer que aqueles lábios me proporcionavam, à magia daquele momento.

Inesperadamente o beijo cessou.

Ela então me tomou pela mão, e me guiou até uma casa. Estranhei, pois, já não ouvia mais o burburinho das ruas, já não via mais pessoas, estávamos completamente a sós.

Nunca, até então, havia provado tanto prazer. Nunca havia imaginado tamanha felicidade. Naquele momento, senti como se já não tivéssemos mais corpos, como se o mundo houvesse se desfeito em luz, e que nós fossemos apenas almas, nos unindo eternamente em uma única essência.


Written by Fábio Uliana in: Agenda,Contos,Fábio Uliana |

1 Comment»

  • Asami says:

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    Gostei demais de sua forma de escrever, realmente é execelente, mas pra mim faltou algo. É como se o final tivesse ficado um pouco… vago, como se a ideia do conto em si não tivese casado, sido concluída. Você tem uma excelente técnica, Fábio, é leve e fui bem. Tanto que acho que sua longa história poderia ser ainda maior e eu não me cansaria de ler. Fora a conclusão que para mim ficou um pouco em falta, achei seu conto legal :D

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