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Mar
01
2011

Farol – Prólogo

Escritora: Sofia Negri

Noah acordou com sono e olhou para o relógio. Podia ouvir alto o bastante a voz de Elisa chamando por ele, mas exigir de si mesmo que se levante rápido às 3:17 da manhã lhe parecia mais ilógico do que qualquer pesadelo que uma criança de 5 anos possa ter. Sem que tivesse percebido, porém, já estava no meio do corredor que ligava os dois quartos do segundo andar da casa, iluminado apenas pela luz de um poste de rua que atravessava as grossas gotas de chuva que cobriam as janelas. Embora estivesse mais acordado agora, sua voz ainda se parecia com a de um morto-vivo quando abriu a porta do quarto de Elisa e perguntou “O que foi, querida?”

“Tem alguma coisa lá fora, papai”, ela sussurrou por trás do cobertor que a cobria por inteiro, menos seus grandes olhos verdes e seu pequeno braço que apontava para a janela. “Você consegue ouvir?”

“É verdade? Lá fora?”, disse com um tom de curiosidade. Ele foi até a janela com cuidado para se desviar dos bichos de pelúcia e bonecas jogados por todo o chão do quarto, puxou a cortina para um lado e olhou para fora. A ilha de pedras onde ficava o farol na noite escura parecia ainda mais longe do que ele se lembrava, e a ponte que a ligava à praia já havia sumido por debaixo do mar agitado. As ondas enormes sumiam no ar antes de atingir a areia da praia, empurradas para longe por um vento incrivelmente forte que uivava ao passar pela janela do quarto. “Ah, que pena! Não tem nada aqui… só vejo um mar bem bravo por causa do vento que quer tirar ele do lugar. O que foi que você viu, então?”

“Eu ouvi um barulho, como se tivesse um fantasma na janela!”

“Mas isso é só o vento brigando com o mar, querida. E também, nenhum fantasma iria chegar aqui perto, sabe por quê? Fantasmas têm medo de faróis. A luz assusta qualquer fantasma”, disse fechando a cortina que impedia que a claridade da luz entrasse no quarto.

“É verdade? O farol assusta fantasmas?”, ela já havia abaixado a coberta e não parecia estar mais com tanto medo.

“É claro que sim! Você não sabia disso?”, ele se sentou na cama. “Agora, por que não tenta dormir de novo?”

“Não quero dormir! E se a luz do farol se apagar e ninguém perceber? O fantasma pode voltar!”

“Mas que ideia, Elisa”, ele riu da imaginação da menina. ”Você sabe que se o farol se apagar eu vou perceber, e você e sua mãe também. Se isso acontecer, eu conserto ele antes do fantasma chegar, combinado? Agora, é melhor você ir dormir.”

“Dorme aqui hoje? Só hoje!”, ela segurou a mão de seu pai antes que ele conseguisse se levantar totalmente.

Ele hesitou um pouco, mas concordou com a cabeça. “Só hoje, então”, mas antes de se deitar, foi até a mesinha de baixo da janela e deu corda na caixa de música que ele havia feito para Elisa um pouco antes dela nascer. A bailarina vestida de branco começou a girar no lugar, embalada pela melodia que começara a tocar. Noah colocou a caixa de volta na mesa e juntou-se a Elisa.

Mais tarde, quando o barulho do ronco de Noah quase conseguia abafar o barulho do vento e da caixinha, Elisa já tinha quase desistido de ficar acordada até a tempestade passar quando a música mudou. Era um pouco mais lenta e mais forte, mas continuava sendo aconchegante. Elisa se virou na cama e olhou para a caixinha. Talvez por causa do sono, demorou para associar que o fato da bailarina não estar mais dançando em seu lugar significava que a música da caixinha também havia parado. Ela se levantou e olhou pela janela atrás da cortina. A música vinha lá de fora, ela tinha certeza disso.

“Elisa? O que foi?”, seu pai perguntou sem mesmo abrir totalmente os olhos.

“Tem alguém tocando o piano do farol. Escuta!”

“Vento”, foi tudo que Elisa conseguiu entender antes que seu pai fechasse os olhos de novo.

“Não é o vento, tenho certeza! Tem alguém tocando o piano do farol!”

Como não houve resposta, Elisa se virou de novo para a janela e ficou olhando para a noite. Sempre que o farol voltava sua forte luz para a janela, obrigava Elisa a fechar seus olhos. “Deve ser por isso que os fantasmas têm medo de faróis, a luz é forte demais”, mas ela não se importava de ficar olhando para o prédio comprido e estreito. Ela gostava do farol, e ainda mais da música que alguém estava tocando no velho piano que tinha lá. Debaixo da ilha de pedras, o mar parecia mais calmo agora, mas ainda cobria a ponte e o vento continuava a soprar como antes.

Elisa voltou para a cama e, suspeitando de que não receberia uma resposta, perguntou para seu pai “Quem será que ganha, o vento ou o mar?”. O barulho que o vento fazia agora não a assustava mais. Tudo que ela conseguia pensar era na linda música que chegava pela janela.


Written by Sofia Negri in: Agenda,Contos,Farol,Sofia Negri |

2 Comments»

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    A imaginação de uma criança é fantástica. Você conseguiu capturá-la e colocá-la em teu conto com maestria.

    Gostei!

  • STW says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Muito bom o texto! Achei bem escrito, uma passagem interessante e acho que você soube lidar bem com a personagem da criança. Por um momento, eu li uma parte em que eu imaginei algo diferente na história, e que me deu um arrepio, haha. Acho que quando isso acontece é porque o texto realmente conseguiu mandar uma mensagem bem clara.

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