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Mar
15
2011

O encontro dos Pacinos

Escritora: Nina Rocha

Havia uns sete, provavelmente oitos homens ao redor da mesa. O lugar era discreto, e apesar das mulheres presentes, eram eles quem mais chamavam atenção. Mudavam o jeito de se vestir e o sotaque, mas eram todos muito parecidos, talvez fossem até irmãos. Na ponta da mesa, todos que chegavam, em um ato de respeito, beijavam a mão daquele que ora ou outra, comentava com um dos colegas de bar sobre o quão perigoso é ser um homem honesto.

- Mas cara, não tenho esse problema. Eu sou Tony Montana. Se você fode comigo, você ta fodendo com o melhor. Se quiser, posso te dar umas dicas de negocio, que cara, os Estados Unidos, a Sicília e o mundo vão ser pequenos pra você.

- Tony, fico muito honrado com a sua proposta, mas estou tentando manter a família Corleone completamente legal. Eu prometi a minha esposa Kay alguns anos atrás.

- Ei Michael, não dê ouvido a ele. Sou advogado, e acredite: você não vai querer sujar as suas mãos. O Tony é louco, megalomaníaco. E a vaidade dele… Ah! Vaidade é definitivamente o meu pecado favorito.

- É… Já me alertaram da fama do Montana, mas ele me traz uns bons charutos cubanos. É como meu pai dizia, mantenha seus amigos perto, e os seus inimigos mais ainda… Mas quem é você?

- Você conhece Rolling Stones? Please allow me to introduce myself…

- Não, não é bem da minha época…

- Então no caso, sou John Milton. A mão na saia da Monalisa. Eu sou uma surpresa Michael, eles não me vêem chegando.

- Com licença, você é o Don? – Diz um homem mais simples do que os outros, roupa branca, cigarro na boca, nervoso.

Michael acena com um sorriso e confirma com a cabeça.

- Pode me chamar de Michael.

- Don, eu sou o Sonny e preciso muito de um favor seu. É meio constrangedor pedir isto, mas… Eu já tentei o SUS, assaltos a banco…

- Assaltos?

- É, eu roubei um banco porque lá tinha dinheiro… Eu não sei a quem mais recorrer.

- Não envolve matar ninguém, certo? Porque eu estou farto destes negócios.

- Não, não. Eu preciso de dinheiro Don… Quer dizer, Michael. Eu preciso de muito dinheiro. Meu amigo Leon precisa de ajuda. Bem, não conte pra ninguém, mas ele é meu amante, e… Queremos que ele troque de sexo. Olha só como ele é.

Michael se surpreende a pegar a foto.

- Como ele se chama mesmo?

- Leon.

- Tem certeza que é Leon?

- Sim, absoluta. Algum problema?

- Não, ele só me lembra alguém que conheci. Meu irmão Fredo… Fredo partiu meu coração… – E por alguns instantes, Michael para, elevando a mão ao rosto, eventualmente passando-o no cabelo. – Fredo partiu meu coração. Espero que o Leon não parta o seu. Passe no meu escritório na semana, Sony, certo?

Sony, grato, abraça o Don e, como de costume, vai beijar-lhe a bochecha, quando é surpreendido por uma negação com a cabeça, indicando-lhe a mão.

- Melhor não arriscar.

E entre uma e outra taça de vinho, outros homens, também parecidos com os outros, cochicham entre si.

- Ah, as pessoas são mesmo complicadas. Quando precisei de uma mulher, tive que a inventar, elas devem estar em extinção, por isso os caras querem mudar.

- Ah, cale-se! Quem é você, Viktor Taransky? Você não sabe nada de mulheres! Você é um produtor de cinema falido que não conseguiu nem mesmo ficar com a sua própria esposa! Mas eu também não entendo esses caras… Olhe este lugar… Mulheres! O que você pode dizer delas? Quem as inventou? Deus deve ser mesmo um gênio!

- Estou farto do seu mau humor, Frank. Posso até ser um produtor falido, mas fui o único que quis fazer um filme sobre você. Mas quer saber? Eu desisto. Você não vale o meu esforço. Eu estou indo, e diga ao seu amiguinho Robin que ele também está demitido. Não gostei mesmo da atuação dele com o George Clooney em Batman.

- Vá brincar com o seu computador, Taransky! Vá com Deus, e não volte mais!

- HAHAHA, Frank, deixe-me te dar umas informações sobre Deus: Deus gosta de assistir. Ele é um pregador de peças, pense nisso. Ele dá aos homens o instinto. Ele dá aos homens esse presente extraordinário, e então, por pura diversão, ele estabelece as regras ao contrário: olhe, mas não toque. Toque, mas não prove. Prove, mas não engula. HAHA E enquanto você está indo de passo em passo, o que ele faz? Ele está rindo de você! Deus é um sádico, e isso vale a pena? NUNCA!

- Ah, Milton, você e seu discurso satânico, você pode até ter razão, mas isto cansa, sabia? Agora, se vocês me dão licença, tem uma porção delas loucas para dançar um tango argentino e apreciar uma boa comida, e é exatamente o que eu irei fazer. Mas… QUE MERDA! Quem coloca essas mesas no caminho da pista? Quero falar com o gerente dessa pocilga, além do bife ser péssimo, ainda tenho que esbarrar com essas malditas cadeiras de segunda mão!

- Pois bem, o gerente sou eu.

- Eu? EU QUEM? Eu não sei onde você está e nem sei QUEM VOCÊ É!!! Não sei se você percebeu, MAS EU NÃO ENXERGO!!!

- Acalme-se, Coronel Frank Slade… Sou o gerente e dono do El Paraiso, Carlito Brigante, e honestamente, estou tentando me manter fora de confusão.

- Acalme-se??? Não se consegue mais um lugar para tomar um vinho tinto e dançar com uma bela mulher mais sossegadamente. Isso é um ultraje! Bons tempos eram o do Babylon Club em Miami, mas o merdinha do Tony tinha que estragar tudo de novo…
- Ei, Frank, estou aqui e escutei isso! E El Paraíso pra mim era um furgão fodido que eu trabalhei quando cheguei de Cuba lavando uns pratos… Também não gosto daqui. Brigante, faça-me um favor e dê-me esse lugar e em menos de três meses você estará milionário!

- Montana, acho que não. Sei que você entende de clubes e restaurantes, mas o seu negócio não acabou muito bem, lembra? E favores… Favores vão te matar mais rápido do que uma bala.

- Foda-se, eu sou Tony Montana, foda-se você e seus negócios de merda! O mundo é meu!

Quarenta minutos e toda a história de como Montana dominou Miami depois, todos estavam já estavam exaustos de tanta gabação e das correntes de ouro que ele continuava a mostrar quando surgiu um novo assunto em um dos cantos da mesa.

- Mas Michael, você era um homem tão resguardado, serviu na guerra como eu, como foi se envolver na Máfia?

- Ah, Frank, é complicado. São os negócios da família, e não havia mais em quem confiar. Meu pai estava doente, o Sonny foi baleado… Tive que matar Sollozo com minhas próprias mãos, e depois, foi ficando cada vez mais difícil sair do negócio…

- Mas qual é exatamente o tipo de negócio, Michael? As drogas hoje dão um bom lucro… Tem prostituição?

- Não, não. Nada disso. Dia desses fiz negócio com um tal de Walter Abrams, apostas de jogos, coisas assim. Ele me soou meio ambicioso, daqueles que fazem tudo por dinheiro, e até me senti meio culpado por estar investindo nesses jogos de azar…

- Ah, Michael, vamos lá… Não se sinta culpado. A culpa é um saco de tijolos, tudo que você tem que fazer é tirá-lo das costas!

- Falar é fácil, John Milton! Ninguém com a mente sã nega que o século XX foi todo seu. Sejamos francos, o que é meu império perto do seu? Ok, os Corleone dominaram Nova York, Little Italy… A bolsa de valores, a China, a Europa… Isto tudo é seu!

- Sim, é verdade. Mas é o que eu te digo… Liberdade, baby. Liberdade, nunca precisar dizer que sente muito ou que se arrepende.

- Mas para você é fácil. Eu prometi a Kay…

- Ah, claro que você prometeu a Kay, Michael! Mas e daí?

- Eu a amo!

- Ah, foda-se o amor. O amor é superestimado. Quimicamente, não é diferente do que comer uma barra de chocolate.

- Você não entende John…

- Não enche John. É quem ele é, é o que ele é. Certo ou errado, você não pode mudar isso.

- Ah, claro, Carlito. E o que você entende disso? NADA! Você passou o que? Os últimos dez anos na cadeia?

- Sim, claro, passei os últimos dez anos na cadeia, porque eu te liguei e pedi que você me mandasse um advogado decente…

- Olha, eu tentei… O Kevin Lomax iria te representar, mas não é culpa minha que o babaca estorou os próprios miolos!

Os focos de conflito na mesa começavam a ficar mais evidentes. Alguns já iam partindo, o timbre da discussão ficava mais alto, e o nível, cada vez mais baixo. Perto do clube já fechar e todos que restaram partirem, chega um último homem, que aparentava ter interesses diferentes dos demais.

- Boa Noite, sou o detetive Will Dormer, estou procurando o Tony Montana…

– EI, você não é aquele policial que matou o próprio parceiro no Alasca? Eu não gosto de policiais, muito menos de policiais corruptos… Diga olá para o meu amiguinho!!!

- Ah, Michael, até quando o Tony vai achar que metralhadoras são brinquedos?

- Eu não sei… Mas é melhor pedirmos a conta e partirmos o mais rápido possível, porque ouvi dizer que quem vai assumir o caso é o Vicent Hanna… E o Robert De Niro me alertou que eu não quero mexer com ele… Vamos Milton, eu tenho uma casa na Sicília , te contrato como meu consigliere e posso te proteger… Mas você não, Tony… Você fica aqui ou sei lá, foge pra Colômbia… Mas comigo você não vai!

- CORLEONE, VOCÊ ME PAGA! VOCÊ FODE COMIGO, VOCÊ FODE COM O MELHOR!!!!!!!!!

– Montana, vou te fazer uma oferta que você não pode recusar… Fica caladinho, ou você volta pra Cuba! Ou melhor: eu vou te mandar pra Líbia ou pro Egito, dizem que a coisa lá ta mais feia do que na terra do Fidel…

- Não, não! EU FICO MICHAEL! Fidel tudo bem, mas o Oriente Médio já é demais até pra mim!


Written by Nina Rocha in: Agenda,Contos,Nina Rocha |

1 Comment»

  • NINA ROCHA says:

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    ESSE SITE ESTÁ UTILIZANDO INDEVIDAMENTE O NOME DA ESCRITORA NINA ROCHA!NINA ROCHA é o nome utilizado profissionalmente pOr uma escritora paranse

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