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Mar
05
2011

Que horas são? (O horror da vida real)

Escritor: Ramon Bacelar

-Atrasado meu DEEEUUUSSS!!!

Acordo afogado na luminosidade solar inundando meu quarto de pensão, vôo escada abaixo e alcanço o passeio:

- Que horas são?

O idoso olha para mim de braço estendido: no pulso um velho Rolex sem ponteiros me avisa que é hora de correr!

Disparo pela calçada e me aproximo do primeiro táxi da fila:

-Que horas são?

-Hummm…-O taxista olha atentamente para o relógio mordendo os lábios- Hora de pegar minha cliente!! Muito obrigado pela lembrança!!!

Vuuuuummmm …

Preciso correr, correr, chegar… Eu preciso, preciso e resisto; entro em uma relojoaria cercada de sucata e ponteiros estáticos…Não resisto:

-Que horas são?

O relojoeiro sorridente aponta para a torre da praça principal: no topo, um zelador polindo os ponteiros me dá língua fazendo buúúúú como um garotinho encapetado, só me resta….

Contorno o jardim com a rapidez e elegância de uma avestruz embriagada, e visualizo ao lado da igreja uma aglomeração cercando um palhaço:

-Que horas são?

Direciono meu pedido a quem quer que me escute, mas o palhaço me fulmina com os olhos : sinto-me como um bisbilhoteiro atravancando o espetáculo, um quebra-molas inútil, deslocado e desconexo empacando o trânsito e os pedestres.

-Que horas sããããooo???- Curioso, o palhaço me pergunta retirando do peito um relógio gigante: as mesmas de ontem AHAHAHAHAHAH!!!!!

A platéia explode em sonoras gargalhadas, enquanto me retraio como uma bexiga murcha de pescoço caído e sorriso chocho.

-Desculpe…Não quis ofender. – O palhaço, de cabeça baixa, suspende a manga olhando para o pulso: Agora são… Um pouquinho pra mais logo!!! UHUHUHUHUHAHAAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!!!

-Socorroooo!!!

Preciso seguir, prosseguir…Chegar a tempo para, para …eu paro:

A batina entrelaça minha visão em sua monotonia bicolor… Apazigua meu espírito:

-Padre… Pelo amor de Deus, que horas são?

Vazio: o Silêncio do Silêncio.

-Para se encontrar com o Senhor…Toda hora é hora meu filho.

Eu tremo, ofego, transpiro, suspiro:

-Nãããooo!!!

Eu corro, corro, persisto, não pergunto, não desisto, resisto e finalmente desembesto escada à cima, mas um degrau em falso me impulsiona para a porta (blaaaammm) e me arremessa aos pés do meu chefe…Suspendo o pescoço:

-B-bom… Bom dia c-chefe, que horas são?

-Hora… da demissão, chegou CEDO DEMAIS!!!!

Ouço a última ordem (não entendo!) no mesmo instante que seus dedos direcionam minha visão aos velozes ponteiros do relógio de parede… Andando para trás!!!!

MIF


Written by Ramon Bacelar in: Agenda,Contos,Ramon Bacelar |

7 Comments»

  • Asami says:

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    O tempo realmente é algo inteligível e incontrolável. Achei muito legal a mensagem da crônica, ficou muito leve, mas ao mesmo tempo bem enfática. Fluiu muito bem e devo dizer que achei o desespero do personagem no mínimo engraçado. Gostei :D

  • Ramon Bacelar says:

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    Pelo feedback aqui e em outros sítios acho que o humor light-tragicômico acabou funcionando (:

  • Phillip Wrangler says:

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    Cara incrível, a agonia e desespero do personagem parece tangível a mim, me lembrou antigos sonhos psicodélicos meus =) Muito bom!!!

  • Franz Lima says:

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    Bom conto, Ramon. O desespero da personagem, correndo alucinadamente e sem receber a informação mínima necessária a quem está atrasado, mostra uma realidade triste da sociedade presa aos ponteiros do relógio.
    Valeu!

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    bom! leve e simpático ^^

  • Vinicius Maboni says:

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    Gostei do estilo, boa cronica. O tempo realmente é algo interessante de se tratar… parabens

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