Xeque-Mate
Escritor: Ricardo Ragazzo
Adamastor tinha muito orgulho em ser o único jogador de xadrez invicto daquela pequena praça escondida entre os arranha-céus da cidade grande. Sua fama de invencível correu por cidades vizinhas e pessoas percorriam as mais diversas distâncias só para tentar vencê-lo em uma partida de xadrez.
Certo dia, um senhor de idade, capengando com sua bengala gasta pelos anos de uso, sentou-se à frente do tabuleiro desafiando-o para um jogo. Adamastor não deu muita bola no início, mas o intrépido velhinho captou sua atenção ao oferecer a ele uma quantia exorbitante em dinheiro caso fosse vencido. Era um valor suficiente para solucionar todos os problemas financeiros de Adamastor e permitir que o homem se dedicasse exclusivamente àquilo que mais gostava de fazer: jogar xadrez.
Adamastor aceitou, então, o desafio.
A partida foi iniciada pelo desafiante que rapidamente moveu sua peça. Adamastor espantou-se com a determinação demonstrada pelo adversário e achou melhor analisar com calma o tabuleiro. Assim que terminou sua jogada, o senhor rapidamente moveu outra peça, com um desdém reservado apenas aos grandes jogadores ou presente naqueles que não tem ideia do que estão fazendo. Adamastor assustou-se à princípio, para depois ficar de frente com duas possibilidades: Ou aquele senhor era uma velha raposa do xadrez - o que exigiria muita cautela - ou não passava de um fanfarrão perdulário, com muito dinheiro e pouca sanidade.
Foi quando de sua testa brotou a primeira gota de suor.
As próximas jogadas seguiram o mesmo padrão de desdém por parte do velho e preocupação por parte do invicto campeão. O velho percebeu como sua atitude leviana afetara o confiança de Adamastor, e imaginou que talvez fosse hora de quebrar sua concentração:
- Você é muito lerdo. Talvez por isso que vença suas partidas. Os adversários desistem antes... ou morrem. - ele disse antes de deixar brotar um sorriso irônico.
- Xadrez é um jogo de paciência e calma. O senhor deve saber disso. – respondeu Adamastor enquanto analisava sua próxima jogada.
- Verdade. Principalmente para aqueles que não sabem o que fazem. Porém, essa partida tem muito mais coisa em jogo que uma simples invencibilidade, não é Campeão?
- O senhor está me atrapalhando. Peço para que converse somente durante sua jogada. Por favor. – concluiu Adamastor enquanto mexia com a mão uma de suas peças.
- Mesmo quando eu perceber que está prestes a fazer uma besteira e entregar-me o jogo? Sinceramente, esperava mais de você.
O homem rapidamente retornou a peça que segurava ao local da qual a havia tirado e voltou a analisar o tabuleiro. No rosto do idoso um sorriso manipulador que mexia com os nervos de Adamastor. Com calma pode notar que o velho estava certo, caso tivesse mexido aquela peça perderia o bispo em até duas jogadas. Começou a pensar na razão para o velho tê-lo avisado, afinal de contas o jogo valia um milhão. Com aquilo na cabeça, pegou a o cavalo e o moveu no tabuleiro. Assim que largou a peça, viu o adversário comê-la com a rainha. Não acreditou no que vira. Aquela jogada era óbvia. Como não reparara naquilo?
- O que aconteceu? Como não percebi isso? Não, não, não, não, não. Essa jogada tem que voltar. Isso nunca havia me acontecido antes, nem na época de iniciante. Eu não aceito isso. Você me desconcentrou, velho! Falou comigo durante minha jogada! Foi isso!
Diante daquela negativa em aceitar a peça perdida, o velho olhou para o homem desesperado e levantando o indicador da mão esquerda disse apenas uma palavra: “Primeiro”. Nada mais. Adamastor ainda tentava se recuperar do baque quando ouviu o oponente proferir outras palavras:
- Não perca a paciência, meu caro, você certamente ainda irá precisar muito dela. Principalmente agora que, não importa o que faça, perderá seu bispo em no máximo duas rodadas.
A afirmação levantou até o último fio de cabelo de Adamastor. Sempre fora ele que mexera com os nervos dos adversários, mas desta vez não conseguia impor seu estilo. Era como se aquele homem tivesse algum tipo de poder sobre ele ou talvez fosse só o lance da aposta envolvida mesmo. Não sabia direito o que era, apenas que estava em sérios apuros. Só então observou que o velho havia dito a verdade, não importa o que fizesse, perderia seu bispo em até duas rodadas. Então, surtou:
- SEU VELHO DE MERDA! VOCÊ PENSA QUE EU NÃO PERCEBO O QUE ESTÁ TENTANDO FAZER? VOCÊ ACHA QUE PODE CHEGAR AQUI NO MEU TERRITÓRIO E AGIR COMO BEM ENTENDER? ALIÁS, COMO VOU SABER QUE VOCÊ TEM MESMO O DINHEIRO? O QUE ME IMPEDE DE VIRAR ESSA MERDA DE TABULEIRO E TIRAR ESTA BOSTA DE SORRISO DO MEIO DA SUA CARA?
O velho, então, puxou uma maleta prateada colocada ao lado do seu pé e a postou em cima da mesa. Usou os dedos para acertar os dígitos que formavam o código de proteção, virou-a de frente para Adamastor e disse “Isto”. Dentro da mala estavam milhares de notas de cem dólares que se amassavam na disputa por um espaço. Adamastor sentiu as pernas bambearem, nunca vira tanto dinheiro junto na vida. Bastaria vencer o velho em uma partida de xadrez e o dinheiro seria dele. Quando fitou novamente o oponente, viu-o levantar a mão apenas com o indicador e o dedo do meio para cima. Da sua boca saiu a palavra “segundo”.
- Primeiro... Segundo... O que você quer dizer com isso?
- Nada. Ainda. Que tal recomeçarmos o jogo? Não me agrada a idéia de ficar aqui nessa praça com essa maleta.
O jogo recomeçou da mesma forma que havia sido interrompido, o velho dando as cartas e Adamastor parecendo apenas mais um de seus peões.
- Olha velho, peço desculpas pelo meu destempero anterior, afinal de contas a culpa não é sua, ou talvez seja por trazer aqui todo esse dinheiro e mexer dessa forma com a minha cabeça. Nós dois sabemos muito bem que eu poderia imobilizá-lo com facilidade e sair daqui com o dinheiro sem que ninguém a nossa volta notasse, então, que tal se você me desse uma parte só do dinheiro e a gente consideraria isso um empate, hein? Assim todos sairiam ganhando. Eu manteria minha invencibilidade e ficaria com parte do dinheiro e você evitaria uma surra e o "confisco" de toda a grana. O que você acha?
- Eu acho que você acabou de atingir o terceiro estágio. Pensei que levaria mais tempo.
- Que papo de estágio é esse, velho? Você é louco, sabia? Quer que eu encha sua cara de bolacha e fuja com toda a grana? É isso que você quer?
- Ora, Adamastor, eu posso ser velho, mas não sou idiota. Não apareceria com uma maleta cheia de dinheiro aqui se não soubesse da sua fama de honesto. Você não é capaz de fazer mal a uma flor, acha que irei acreditar que me espancaria somente por dinheiro? O seu problema não é o dinheiro. O que lhe tira do sério é o fato de não ter a mínima idéia de como me vencer no xadrez. Xadrez é sua vida, e eu estou tirando isso de você.
Assim que o velho terminou a frase, Adamastor mexeu uma peça do tabuleiro. O jogo recomeçara. Não queria mais o dinheiro, desejava apenas provar que aquele homem estava completamente enganado. Podia vencer qualquer um, a qualquer momento, e o dia em que não acreditasse mais nisso seria o dia em que morreria por dentro. Mas as coisas continuaram iguais e pouco tempo depois suas peças se amontoavam do lado de fora do tabuleiro. Abaixou a cabeça e viu um pingo atingir uma das poucas peças que sobravam do seu lado, passou a mão na testa, mas ela estava seca, e só então sentiu os olhos molhados por uma dor interna que nunca havia experimentado. Uma vontade de desistir de tudo, de todos (então se lembrou que não havia ninguém), da vida. Prosseguir parecia muito difícil, cansativo demais. Começou a chorar.
- Nunca vi uma passagem do terceiro para o quarto estágio tão rápida como essa. – afirmou a velha raposa.
- Que papo de estágio é esse? Exijo que me explique o que está acontecendo!
O velho balançou a cabeça como se dissesse "Como desejar, meu caro". Depois, falou:
- Você tem câncer, meu caro Adamastor, é isso que está acontecendo. – disse o velho secamente.
Adamastor franziu a testa como se tivesse ouvido a maior baboseira dos últimos tempos.
- Como assim câncer? Você é completamente louco, velho! Melhor encerrarmos essa conversa por aqui.
Nesse momento, o adversário à sua frente se levantou, indo em sua direção. Ao se aproximar o suficiente, esticou a mão encostando-a na cabeça de Adamastor que ficou inerte. Em sua mente veio uma imagem límpida e cristalina de seu organismo. Coração, pulmões, rins, fígado, tudo estava contaminado. Não precisava ser médico para saber o que aquilo significava: O seu fim.
O velho tinha razão. Estava condenado.
- Quem é você? O que... o que quer comigo?
- Eu vim te buscar, Adamastor. Assim como faço com todos aqueles para os quais expirou o prazo de validade.
- Que estágios são esses que você tanto falou?
- Meu caro, desde que fui criada junto com a primeira célula bilhões de anos atrás, nenhum outro ser vivo respondeu tão mal à minha presença quanto os humanos. Sua racionalidade teve o efeito contrário do esperado. Hoje, vocês têm medo do fim. Só não entendo o porquê. Quem gostaria de passar a vida inteira assistindo ao mesmo filme sem sinal. A vida seria tediosa e sem graça, não fosse por mim. Eu torno tudo mais saboroso, mais especial. Mas, as pessoas não entendem isso. Quando alguns de vocês têm a oportunidade de serem avisados da minha chegada, aparece em todos, assim como surgiu em você, cinco reações básicas, que eu chamo de estágios conscientes: A primeira reação é a Negação. A pessoa, ao se deparar com algo fora de seu controle, costuma não reconhecer sua veracidade. Depois, vem a Ira. Sim, um dos pecados capitais está presente nos momentos finais. O fim da negação, e a conseqüente assimilação do inevitável, causam nas pessoas uma raiva interna que precisa sempre ser exteriorizada. Aí aparece meu favorito: A Barganha. Como se houvesse algo que qualquer humano pudesse me oferecer que fosse mais valioso que sua alma. Enfim, é patético. O quarto estágio é o que você está agora, a depressão. Nessa hora, os recursos acabaram e percebe-se que não há mais saída. É quando o baque vem forte, inexoravelmente forte.
- Mas como eu posso vivenciar todas essas reações se eu não tinha a menor idéia da minha doença?
- Verdade, e é exatamente isso que lhe torna especial. Poucos são aqueles tão apaixonados por algo que, ao perceberem que a perda daquilo é inevitável, passam pelos mesmos estágios que passariam caso soubessem adiantadamente a notícia da minha visita. No seu caso, sua paixão pelo xadrez é comovente, então qual melhor forma de se despedir desse mundo do que jogando uma partida de xadrez?
- Sendo massacrado em uma partida de xadrez, você quer dizer, né?
- Ahaha...Adamastor, Adamastor... é exatamente essa sua compulsão pela vitória, essa necessidade de saber que é o melhor, que fez você atravessar quatro estágios durante o jogo. Assim que percebeu que nunca venceria o jogo, e realizou que havia no mundo alguém melhor que você nisso, suas reações foram sintomáticas: Negação, Ira, Barganha e Depressão. Talvez com a notícia de sua doença essa partida tenha caído muito em sua escala de importância e prioridades, mas falarei algo do mesmo jeito: Não havia como você me vencer nesse jogo, ou qualquer um, ou qualquer um em qualquer jogo. Eu sou imbatível, afinal eu sou vocês todos em um só. Antes de irmos, você tem alguma pergunta?
- Sim. Qual o quinto estágio?
- Aceitação, meu querido Adamastor. Aceitação. E nós dois sabemos o que um enxadrista faz diante do inevitável, correto? Estou pronta quando você estiver pronto.
Adamastor, então, sorriu, curiosamente, de alegria. Sentiu uma tranqüilidade diante da morte que nunca poderia imaginar. Seu último ato seria algo que nunca fizera durante toda sua vida, e estava em paz com isso. Só então, com o indicador da mão direita, empurrou para baixo o seu Rei, e assim que a peça chocou-se com o tabuleiro, sua cabeça encontrou o chão gramado do parque.
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Muito bem escrito e eu acharia genial…
… se não soubesse que foi baseado até demais num filme antigo chamado O Sétimo Selo.
Olá, Lucas. Obrigado pelos elogios, afinal de contas, eu nem sabia que esse filme existia. Vou procurar assisti-lo agora.
A ideia de usar os cinco estágios veio de um filme que sequer lembro o nome. Uma comédia romântica com a Angelina Jolie (ela inclusive está loura nesse filme), no qual ela é uma reporter que vai fazer uma reportagem sobre um mendigo vidente e acaba ouvindo dele que morrerá em uma semana.
Bom, é isso aí! Espero que você leia outros contos meus!
Abrazzo Ragazzo
Ricardo, o lance dos 5 estágios do luto é uma parada de psicologia. Passa-se por esses estados diante de qualquer perda ou mudança significativa, não é só do filme que tu disse não.
O Sétimo Selo é um filme MUITO FODA com uma situação quase idêntica a do seu conto: um cara prestes a morrer desafia a morte para uma partida de xadrez. Achei muita coincidência.
Só que o filme se passa na era medieval e não tem a parada da grana. E, além disso, se ele ganhar a partida, ele continua vivo.
Eu sei disso, Lucas. Apenas não conhecia a fundo a história dos estágios. Apenas disse que minha inspiração em escrever o conto veio daí. Há outros filmes que falam sobre isso também.
Com relação ao Sétimo Selo, vou buscar na locadora. Nunca ouvi sequer falar desse filme, muito menos quem são os atores e qual o enredo. (Na verdade, fiquei sabendo agora).
Exatamente por isso fiquei muito feliz com o seu elogio, pois a ideia (mesmo já tendo sido explorada) surgiu em mim naturalmente.
Escrevi um conto uns dois anos atrás chamado: Seja Bem-vindo, Sr. Nogueira. Esse conto sim, foi muito baseado em um conto do meu ídolo Stephen King entitulado: Ex-fumantes LTDA. Muito bom!
Tenho alguns contos também no meu blog http://www.palavraporquilo.blogspot.com se quiser dar uma pincelada depois. Aqui também tem outros.
Abrazzo Ragazzo