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Apr
18
2011

A Linha Direta

Escritor: Goliath Whalietric

Lembro de uma época, não muito distante, em que tinha entrado na faculdade fazia 1 ano , no máximo. O meu maior martírio eram os atrasos. Bom, não posso dizer que me livrei desta faceta tão característica da minha personalidade. Afinal, para quem não sabe, quem se atrasa sistematicamente (não importa porque) nunca, jamais deve admitir que isto é uma falha. Certo, não é também uma honra. Mas sim, apenas mais um reflexo do complexo cristal que nos representa… Um fio na difusa teia da vida de cada um. Usei esta frase uma vez, durante uma aula da faculdade. Durante um tempo, os professores pareciam me evitar… Quem sabe me acharam estranho? Logo eu…

Bom, os atrasos me atormentavam. E os meus colegas sofriam junto. Não eram poucos os cadernos pedidos emprestados para tirar cópias. Até que, um dia, foi anunciada a minha redenção: estava criada a Linha Direta. Se preferirem, Linha Rápida. Meus olhos cintilaram de emoção e uma lágrima escorreu pelo meu rosto. E, por incrível que pareça, já eram quase 2 horas da tarde! Ah, atraso é sempre “por incrível que pareça”. Eu não esperava me atrasar. Logo, é um feito incrível, ainda que sistemático. É uma filosofia nova, como podem perceber.

Esbaforido e suando como um remador de galé, cheguei ao ponto de ônibus. Era um sortudo: a Linha Direta passava ali. Vibrei. O ônibus se aproximava trazendo os enormes dizeres: DIRETO.

Sim, o meu sonho se realizava.

Assim que partimos, entendi porque era a Linha Direta. Não era porque simplesmente o ônibus não parava em alguns pontos, mas sim porque rasgava as entranhas da cidade em velocidades espantosas. Era um bólido, um cometa destroçando o espaço ao seu redor e deixando outros a ver navios com a dita direção defensiva. As velhinhas que sentavam à frente brandiam guarda-chuvas a cada passageiro que era deixado para trás nas paradas que não tinham a dádiva de receber o Direto. Emocionado, gritei no ônibus:
– Aleluia! – levantando do banco com os braços esticados para o teto agradecendo a divina obra de Deus.

Dei-me conta do que fazia e percebi o quanto estava sendo ridículo. Olhei ao redor, temendo ter criado algum culto estranho que adorasse as cordinhas que zumbem no ouvido do motorista ao serem furiosamente puxadas. Eu sei que tem uma campainha. Mas é mais legal pensar que é a cordinha. Surpreso, pude perceber que outros compartilhavam de minha alegria. Por um breve momento, pude ver todos me aplaudindo. Claro, o breve momento se foi da minha mente ensandecida assim que o motorista bruscamente freava, tentando evitar a todo custo um sinal vermelho e uma Brasília azul calcinha, 72. Bem conservada, a danada.

Finalmente, estava salvo dos meus atrasos. Meus deslizes tinham enfim me abandonado. Estava livre da doença do atraso.

Foi então que percebi que o mal se agravara. Eu adorava desafiar as relações dimensionais de tempo. Chegava faltando 1 minuto para as 2 horas da tarde na parada e entrava na sala de aula dizendo:
– O Direto levou 6 minutinhos hoje… E olha que pegamos 4 velhinhos e 12 crianças! – todo orgulhoso…

Foram tempos de velocidade e fúria. Não havia leis que parassem o direto. E, às vezes, nem sinal vermelho. Éramos reis. Nós. Os atrasados.

Contudo, o tempo passa… O tempo voa. E o banco já até faliu. Hoje, tudo mudou. Peguei um Direto somente para perceber que ele para em quase todas paradas. Deve ter sido alguma associação. A ADQNPPODPENPNMPP! – Associação Dos Que Não Podem Pegar O Direto Porque Ele Não Para Na Minha Parada, Porra! – provavelmente reclamou. O Direto respeita sinais e até as faixas de segurança. Há pardais agora. Malditos pássaros. Cheguei quase 20 minutos depois do que eu esperava. Sai do ônibus, sorumbático.

Quando conto isso para minha afilhada, ela apenas gargalha. Não sei se por causa das caretas que eu faço ou do ermitão que eu pareço quando falo assim. É que hoje tudo é tão rápido… Tão rápido como o Direto. O antigo. O verdadeiro símbolo da transiência. A mutabilidade de tudo. E se não saísse da frente, passava por cima!

Poucos são aqueles que se lembram disso ainda. Nas paradas, cumprimentamo-nos assim, de maneira soturna. Olhamos nos relógios e nos despedimos, afinal, olha a hora, quase 2… Pois é eu também tenho que ir… E olhamos para o Direto. Damos meia-volta e, com lágrimas no canto dos olhos, pegamos a lotação.

Mas não perdemos tudo! Não senhor! Mantemos nosso orgulho e nossa luta. Continuamos, todos nós, mais unidos do que nunca. Sempre atrasados! Pena que seja tão difícil chegarmos na hora para gente se encontrar…


Categorias: Agenda,Contos |

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Publicado por Goliath Whalietric

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