A Queda
Escritor: Chico Anes
Eram seis da manhã quando Anastácio despencou do vigésimo andar da construção. Explodiu no asfalto, espalhando seus pedaços pela avenida, para o horror de quem madrugava na Paulista. Creio que ele ainda esteja lá, em exibição, até a perícia concluir o trabalho — você sabe o quanto esses procedimentos demoram. E com esse calor dos infernos, é bem provável que o sangue, entranhado nos poros da rua, já tenha secado, e que vejamos a mancha de Anastácio por um bom tempo.
Se é por isso que estou bebendo tão cedo? Pode apostar, meu velho! Desculpe-me, não lhe ofereci… É uísque do bom. Não? Vai voltar para o trabalho daqui a pouco? Você é quem sabe. Contudo, não é só pela morte de Anastácio — e, na nossa profissão, temos o péssimo hábito de nos acostumarmos com a morte — que estou tentando me embriagar. Acredite, estou enchendo a cara principalmente porque a queda daquele homem aconteceu também aqui dentro, da minha cabeça a meus pés.
Quem é Anastácio? Aí está uma pergunta de resposta fácil: Anastácio é ninguém! Nasceu miserável, tentou migrar da pobreza, morreu indigente; um ninguém nesta vastidão de cimento e rostos lisos.
Sim, eu conhecia o sujeito. Bem… Se é que temos igual entendimento da palavra conhecer. Como assim? Veja, moro há anos no mesmo prédio, desço e subo quinze andares todo dia; encontro com os vizinhos que certamente têm rotina semelhante. No elevador, trocamos bom dia, boa noite — nossos horários ainda não permitiram um boa tarde — , viramos os olhos para o painel de andares e nos escondemos atrás da contagem regressiva dos números, ou fingimos ler mensagens no celular; todo dia! Todo santo dia! Posso dizer que os conheço? Acho que conhecia mais a Anastácio. Esse sim eu reconheceria na rua. Meus vizinhos? Se cruzasse com qualquer um deles fora daquele elevador — e olha que isso bem já pode ter acontecido! — seria incapaz de distingui-los entre outros vultos. Tira-me a clausura inevitável do elevador e tira-me junto os vizinhos. Chego mesmo a dizer que se um deles viesse à minha clínica para uma correção facial, eu lhe encurtaria o nariz, alongaria os lábios, esconderia as orelhas e continuaria com meus bons dias e boas noites, mas fora do elevador, ainda seria um vizinho sem face.
Anastácio era meu concidadão. Viemos da mesma cidadezinha. Lá não tinha elevadores, a rotina era pouca. Havia as manhãs, as noites, e também as tardes, por conseguinte as boas tardes. Quase nada para se fazer; só nos sobrava conhecer as pessoas. Viemos para a capital na mesma época: eu, para estudar; ele, para se sujeitar. Desde então eu o vi apenas duas vezes, uma delas enquanto ainda era estudante. Depois que me formei, troquei o passado pelo futuro. Afastei-me da antiga cidadezinha, de seu povo e das boas tardes. Abri esta clínica e mudei-me para a zona sul — e posso lhe garantir, meu velho: nesta cidade o sul e norte, ao contrário dos pólos da natureza, se repelem. Vi-o de novo cerca de três meses atrás, quando veio aqui me pedir ajuda. Disse que a pressão não ia bem; era acometido por tonturas súbitas e violentas. Contou que já havia visitado hospitais públicos, postos de saúde, tomado chás de capim ou sei lá o quê – coisas que costumavam curar nossos avós –, mas nada resolvia. Foi quando se lembrou de mim. Como todo ninguém, Anastácio conhecia um alguém: um doutor, seja deputado, advogado ou médico; alguém importante, um nome que, às vezes, se usa em conversas de botequins ou reuniões de família, e de quem se empresta a importância: O doutor fulano-de-tal? Eu o conheço sim… moramos na mesma cidade, lá em São Paulo. Estive com o doutor há pouco tempo. Era um cabra de inteligência! Se precisar de alguma coisa do doutor é só me falar que dou o recado…
Tem certeza que não quer beber? Ora, meu velho, um Blue Label foi criado exatamente para desprezar horários. Bom, eu vou tomar outra dose. Melhor, vou tomar a garrafa inteira!
Não. Você está errado. Não estou exagerando por alguém que mal conheço. É que ainda não terminei. Daqui a pouco vai me dar razão.
Engraçado. Lembrei-me de que, naquela ocasião, Anastácio estava sentado bem aí onde você está agora. Olhou para a Marginal, para o rio Pinheiros lá embaixo, e disse uma coisa das mais absurdas que já ouvi. Bem, ao menos pareceu absurda na época; hoje nem tanto. Comentou que a vista daqui do meu escritório, num dos pontos mais caros de São Paulo, fazia com que se recordasse da sua casa e de nossa cidadezinha no interior, que era como se as coisas apenas tivessem aumentado de tamanho e que, no final das contas, era sempre o mesmo córrego sujo, ladeado por construções que despejavam nele a mesma merda e urina de sempre. Fiquei furioso com a comparação. Quis lhe dizer o quanto custava a vista para esse córrego, mas desisti; achei que meu silêncio e os braços cruzados lhe fariam entender a distância entre o meu presente e o nosso passado. E o coitado nem falou por mal. Enfim, expliquei-lhe que, apesar de eu ser médico, minha especialidade não era curar as pessoas por dentro para fazê-las sorrir por fora, mas exatamente o contrário. Como cirurgião plástico, eu consertava as pessoas por fora para deixá-las se divertirem por dentro — a única coisa que meu bisturi corta no interior das pessoas é o ego, meu velho. Dei a ele uns comprimidos e o dispensei.
Já ouvi! Já ouvi! Deixa tocar! Deve ser Cláudia pedindo mais dinheiro. Sim, ela e as crianças estão bem. Desde que nos separamos, ela parece que remoçou. Nem meus bisturis fariam melhor. Cláudia ainda põe a culpa de sua infelicidade em mim, mas nunca entendeu que todo o luxo que desfrutávamos vinha de minhas ausências. Deixa tocar! Ou deve ser da polícia. Ligaram-me há pouco. Encontraram meu nome e telefone no bolso de Anastácio. Certamente estranharam um auxiliar de pedreiro ter consigo o cartão de um médico rico e famoso. Disse a eles que não me lembrava de ninguém com esse nome, e que não fazia a mínima idéia de como meus dados foram parar no bolso do defunto. Por que menti? Não queria me incomodar. Podia prever a sequência de acontecimentos: a identificação do corpo, a falta de dinheiro para o translado e sepultamento, a notícia à mãe lá no interior… Concluí que não haveria mal nenhum em Anastácio ser enterrado como indigente, e que a mãe dele, de tão velha, provavelmente morreria antes de dar pela falta prolongada do filho – esse tipo de gente fica anos sem ter dinheiro para visitar a família. Diga-se de passagem, num enterro em São Paulo, pode até se conseguir algumas lágrimas de estranhos, desde que pagas, evidentemente. Como sei? Veja, estive no sepultamento do marido de uma cliente — não pude deixar de ir; é uma cliente tão vaidosa quanto rica e, agora, sem marido, ainda mais vaidosa e mais rica. Lá conheci uma mulher que vende lágrimas. A carpideira trocava a facilidade do choro por moedas. Ganhava a vida assim. Estamos na verdadeira cidade capitalista da América do Sul, meu velho! Vende-se lágrimas para um morto! Se soubesse disso antes, teria contratado a mulher para chorar por mim no enterro de mamãe, já que estava fora, palestrando num congresso importante demais para minha carreira… Mas estou divagando. Deve ser o uísque!
Dizia que menti para o policial. Deixei Anastácio mais tempo que o necessário sob o sol, esparramado no asfalto. Mas foi quando desliguei o telefone que me dei conta. É, meu velho. Me dei conta de que elevadores, salas caríssimas com vista para a Marginal, madames com rostos tortos, Blue Labels, tudo isso estava me deixando indolente, medíocre, e pior, completamente seco.
Vou lhe dizer uma coisa, sendo bastante justo: se Anastácio está morto, eu o empurrei daquele prédio!
Não, não estou bêbado! Anastácio esteve aqui ontem à noite. Anunciou-se à secretária como um amigo e concidadão. Reclamou que as tonturas aumentaram de frequência. Reclamou dos hospitais do governo que só faziam por esconder a doença debaixo de analgésicos; e ele nem dor sentia! Reclamou da falta de dinheiro; para comer, viver, se curar. Não o recebi. Tinha um compromisso… Não queria transformar aquelas visitas em episódios constantes.
Anastácio foi embora. Deve ter rodopiado a noite toda. Sua vertigem o fez seguramente planejar voltar aqui hoje, depois do expediente; talvez pensasse que seria um prazer para mim revê-lo e ajudar velhos concidadãos. Subiu para o trabalho pela manhã, tonteou, oscilou e desabou para a morte.
Deixei Anastácio ir-se, assim como Cláudia e as crianças, minha mãe, minha antiga cidade, meu passado. Perdi-me nas horas letárgicas do trânsito, no ócio dos restaurantes, nos infinitos programas de meia hora. Deixei parte de mim esborrachar-se com Anastácio, espatifar-se em milhares de pedaços impossíveis de se juntar sem expor as emendas. Agora meu velho, essas emendas, além de expostas, estão doendo.
Mas se nem Anastácio, tomado de miséria e tontura, não deixou esta cidade, tampouco eu deixarei. Tenho minha vista para esse corregozinho e meu cartão de crédito ouro, que me compra os seja bem-vindo, senhor, os o que deseja, senhor?, e os bom dias e boas noites fora do elevador. É, amigo, São Paulo entra em nossas veias como uma droga. Aliás, foi por isso que o chamei tão cedo, e não para ficar ouvindo os ecos de minha queda. Veio direto do hospital? Trouxe? Eu sei que é cedo, mas preciso disso. Daqui a pouco, vou mexer no rosto de uma cliente, tentar tapar as cavas, cobrir as linhas de seus pecados. Sorte dela que posso fazer isso com meus instrumentos. Mas, vamos lá! Passe para cá minhas pílulas mágicas. Não se preocupe, três delas com uma dose de uísque e estarei pronto. Já lhe disse que, como Anastácio, também estou caindo. A diferença é que meu concidadão despencou verticalmente e de uma só vez. Eu, de minha parte, caio aos poucos, na horizontal, e morro espalhado pelas melhores ruas desta cidade.
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Fantástico, estou virando fã desse tipo de texto, traz certa familiaridade com o personagem. Me faz sentir importante na estória, e você fez isso muito bem.
Eu ri em certas partes do texto, mas no final fiquei triste com a situação do doutor. Gostei muito, parabéns.
Valeu Thainá! Também sou fã desse tipo de texto. Torna possível garimpagens interiores bem interessantes.
Muito incrível, Chico. Seus textos são Ótimos!
Mas acho que São Paulo, por ser Brasil, não infectaria tanto uma pessoa desse jeito…
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Parabéns.
Obrigado Matheus!
Engraçado você ter usado a palavra infectar… Quando pensei no conto usei essa mesma palavra para construir a trama: Homem infectando a cidade, cidade infectando homem.
Valeu.
Chico Anes, gostei muito de seu texto, tem um viés critico-social muito forte, e em nenhum momento se perde em divagações…tudo sai da boca do personagem com um tom muito interessante de realidade, sem eloquência barata. Eu brigo muito comigo mesmo para executar o que você fez neste texto.
Com relação a temática lembrou-me muito Chuck Palahniuk, um autor que gosto muito, que dentre outras obras escreveu Clube da Luta.
Bem, de qualquer forma, parabéns!