Bob
Escritor: André Monsev

Não havia como descrever Triângulo: ao contrário do significado que seu nome indicava, ele não possuía três lados. Acima disso, ele não era uma imagem em que poderia ser descrita como um desenho de duas dimensões: ele era um cubo. Um cubo em uma prateleira empoeirada. Mas, Triângulo era um nome complicado para todos aqueles que tivessem alguma característica peculiar na fala; língua presa, fanho, e afins. “Triângulo”, comprido e complexo demais para se nomear alguém assim. Por isso, ele era conhecido como Bob, simplesmente Bob.
Bob era um cubo mágico, trancafiado em uma sala cheia de outros cubos mágicos. Lá, haviam todos os tipos de cubo mágico que a criativa mente humana já fora capaz de inventar: incluindo cubos mágicos que não eram cubos. Eles todos eram organizados em prateleiras de um grande armário, com a distância milimétricamente calculada entre uma e a outra, em uma relação vertical. Típico de todos aqueles amantes da ciência: os cálculos tinham de ser perfeitos, e a arquitetura do armário não poderia ser diferente. Esse era o exato problema de Bob, e era também o motivo dele estar sempre sozinho, na prateleira mais alta, atrás de livros de auto-ajuda que o dono do armário ganhara em uma livraria como uma jogada de marketing para ajudar a desencalhar aquele estoque praticamente imutável. Por algum motivo estranho, livros de auto-ajuda não vendiam. Cá entre nós, não que isso fosse um problema. Mas o problema é que Bob sabia o que isso significava: estar na prateleira mais de cima, empoeirada, com livros de auto-ajuda, em um armário pertencente a um amante da matemática e ciências exatas, em que perguntas são respondidas precisamente com respostas baseadas em cálculos e fórmulas, só podia ser resumido em uma palavra: solidão.
Bob sabia disso, conhecia a solidão, nunca foi aceito. Sempre passado adiante. Sua única sorte, dessa vez, foi ter sido esquecido. Mas, ser esquecido, para o Cubo Mágico, não significava exatamente sorte: ele era tão insignificante para aquele que era seu dono, que nem lembrava mais que o tinha lá. Bob sentia isso em seu coração. Se tivesse garganta, passaria todos os dias de sua vida com ela trancada, como uma criança que acabou de levar um castigo injusto de seus pais. Ele não era feliz, e ele não tinha com quem desabafar isso. Os livros de auto-ajuda eram demasiadamente otimistas, o que os tornava ao mesmo tempo irrealistas. Palavras boas e pensamentos de que tudo dará certo no final são sempre muito importantes para fazer com que nos sintamos mais felizes, e Bob sabia disso. Mas quem passar esse tipo de mensagem, tem de pelo menos ser alguém persuasivo, e os livros de auto-ajuda não eram. Na parte superior de suas capas, estavam escritos, como se estivesse estampado na testa de uma pessoa “Um dos maiores Best-sellers do mundo!”, e para Bob isso era o suficiente para ignorar qualquer conselho e mensagem positiva que viesse dali: ele sabia que o mundo é um lugar repleto de pessoas não contentes, desanimadas, sem ânimo e sem vibração. Pessoas desiludidas, que tiveram sonhos e que não conseguiram completar nada do que almejavam, e se tantas pessoas compravam um livro de auto-ajuda, é porque elas não conseguiam nem ajudar a si mesmas, é porque dentro delas, não havia mais esperança, e isso deveria ser re-colocado de alguma forma. Em suma, Bob sentia que auto-ajuda significava algo ruim, e não dá para se sentir bem com uma coisa dessas. Se uma pessoa precisa beber álcool para se sentir bem, ela está ciente que é uma alcoólatra, e isso não a faz se sentir bem. O Cubo Mágico tinha consciência de que isso funcionava da mesma forma para uma pessoa que lia auto-ajuda para se sentir melhor.
Mas, por que Bob era tão angustiado? Por ser abandonado, responderíam. Mas, por que, então, ele era abandonado? A resposta era simples: ele não conseguia trazer à ninguém a sensação de prazer, a sensação de “missão cumprida”. Ele não conseguia fazer com que as pessoas se sentissem bem. Ele era um Cubo Mágico impossível e, se descrito de uma forma mais preconceituosa, Bob era um Cubo “defeituoso”. A partir daí, surgiu seu nome: Triângulo. Dado por outros cubos mágicos – que eram “certos”. A desculpa de Bob, era que Triângulo era um nome muito difícil de ser pronunciado, como foi explicado no início dessa história. Era apenas uma artimanha para tentar se livrar dessa taxação. Isso incomodava muito Bob, e o fazia cada vez mais triste.
Ainda sim, nada o feria mais do que a sua incapacidade de desempenhar seu único papel: tornar as pessoas felizes por alguns segundos. Por quê ele não conseguia? Ele não tinha culpa, ele era de fato um erro, foi mal construído. E ele tinha ciência disso, mas ao mesmo tempo não era o suficiente para deixá-lo em paz, não era o bastante para viver com a consciência leve. Ele sabia que era um erro, e não gostava de ser um erro. Ele queria mudar o imutável. Ele queria ser certo, e isso o deixava não somente triste, mas também com ódio e inveja de todos aqueles outros, tão certos, tão bonitos, tão bem feitos. Bob observava, escondido na penumbra da última prateleira empoeirada, dentre os livros de auto-ajuda, todos àqueles que eram pegos por pessoas e montados, despertando um sorriso de contentamento. Bob nunca havia visto, em primeira pessoa, aquela expressão. Geralmente, ele era jogado pro lado, em um acesso de fúria, e posteriormente xingado, “essa porcaria desse cubo estragado!”.
Certa noite, num ato de desespero, Bob conseguiu descer algumas prateleiras, e se enfiar entre todos os cubos mágicos que residiam naquela prateleira. Ficou quieto ali, esperando o amanhecer e fazendo um enorme esforço mental para não dar ouvidos à todas aquelas críticas vindas dos cubos mágicos certinhos. Eles não gostavam de Bob, pois ele não era igual a todo mundo: ele era defeituoso. Ele não podia ser completado, merecia ser, na melhor das hipóteses, usado como peso de papel. Não, não, merecia ser queimado, e sumir da face da Terra. Mas, naquela noite que Bob desceu, seu objetivo não era fazer amizades: ele só queria fazer alguém feliz, por alguns poucos segundos, de qualquer maneira. Ficou lá, quietinho, destemido. E então, amanheceu, e o dono do armário trouxe uma colega, que ficou impressionada com sua coleção de cubos mágicos. Ela perguntou se podia testar algum, e o colecionador respondeu, orgulhoso, “mas é claro que pode, por favor!”. Aleatóriamente, a moça colocou a mão em meio aos cubos mágicos que estavam em fileiras, um do lado do outro, na prateleira, e eis que ela pegou Bob. O Cubo Mágico ficou muito contente naquele momento: poderia se esforçar ao máximo e vai que, por algum milagre, por alguma vontade divina, por algum mistério da natureza, conseguiria fazer a moça feliz, e acabar com sua angústia que até então era eterna. A dor em seu coração seria curada, sua auto-estima seria reestabelecida, sua consciência seria limpa. O fim de seus problemas. Ele poderia viver escondido, poderia ser queimado, poderia qualquer coisa, desde que fizesse aquela pessoa, aquela única pessoa, que pelo acaso pegou logo ele, uma pessoa contente consigo mesma por dez míseros segundos. Contente por completar um cubo.
Bob foi se esforçando, foi sendo girado, os quadrados se encaixando. Bob sentia a adrenalina, como uma pessoa que checa os primeiros números do bilhete da loteria e que estão certos. Quando, de repente, a maior decepção da vida de Bob: ele não conseguira, novamente. É claro que não, ele é um cubo errado. Por algum mistério, mesmo que não fosse nem a primeira, nem a segunda e nem a terceira vez que Bob não conseguia, ele havia se sentido mais triste que as outras vezes. Todas as sensações ruins pareciam ter triplicado, ter ficado ainda piores. E, o que já estava pior, piorou ainda mais. “Acho que estou meio desconcentrada hoje, não consigo de jeito nenhum!”, exclamou a moça. O dono do armário chegou perto e disse “deixe-me ver”, pegando Bob, dado pela moça. “Ah, é que você foi escolher logo o cubo estragado. Eu dei o maior azar em comprar esse aqui”, comentou o colecionador, esclarecendo o motivo de ela não ter conseguido. “Tente algum outro, eu tenho mesmo que me livrar dessa porcaria, e sempre esqueço”. Bob se sentiu destruído. Foi a maior decepção da vida do Cubo. Ele teria de aceitar: seu nome era Triângulo, e ele era errado, não prestava para nada mesmo.
Na manhã seguinte, Bob foi acordado sacudindo. Seu dono, que o tanto desprezava, o carregava. Bob achou estranha a atitude e, sempre tão esperançoso, achou que talvez o colecionador tivesse notado que ele tinha algum propósito. E ele tinha, mas isso não animava mais Bob quando descobriu o que era: ser jogado no lixo. O homem jogou Bob ali, sem nenhuma demonstração de carinho e, muito menos, qualquer sentimento de despedida. Era como jogar uma casca de banana fora. Bob nunca havia se sentido tão mal, e lá, Bob ficou. Mas não por muito tempo.
Algumas horas depois, um garoto esquisito, magricelo, de óculos e cabelo de pinico, vinha na direção da lata de lixo, andando de bicicleta. Ele se desgovernou ao passar por um buraco na calçada, o que o fez bater em alta velocidade no lixo, e cair, derrubando também o lixo e Bob. O garoto, depois do susto do acidente, viu Bob ali. “Nossa, um cubo mágico praticamente novinho em folha!”. O menino pegou Bob e o guardou em sua mochila, animado. Ao chegar em casa, a primeira coisa que fez foi abrir a mochila e analisar melhor o cubo mágico que tanto ansiava. Começou a tentar montá-lo. Bob se esforçou ao máximo, mas perdeu as esperanças logo em seguida pois notou que, mais uma vez, iria falhar. Depois de algumas horas seguidas, o garoto parou de tentar montar Bob. O Cubo Mágico ficou triste, ele de fato era estragado e nunca faria ninguém se sentir satisfeito. Mas, dessa vez, a expressão na face de quem o tentava montar foi diferente: o garoto sorriu e disse, cuspindo um pouco de saliva involuntariamente devido a tanta empolgação, “QUE LEGAL! Um cubo mágico IMPOSSÍVEL!”. Bob ficou tentando procurar alguma entonação de ironia na fala, mas não achou: o menino estava realmente muito satisfeito.
Bob foi, com todo cuidado, guardado num dos lugares mais preciosos do quarto. Mas agora poderia acontecer qualquer coisa, pois o Cubo Mágico estava, pela primeira vez na sua vida, feliz: ele havia feito uma pessoa contente. Não por alguém ter conseguido montar um cubo mágico mas, mais difícil do que isso: achar um que fosse impossível de montar.
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Excelente narrativa. Parabéns!
Gostei. Foi bem original e divertido. (E é, livros de auto-ajuda são “evil”) ^^
Nossa, essa história ficou realmente muito boa.
A metáfora do cubo ficou excelente, eu só estava na expectativa pra ver qual seria o fim de Bob. ^^
que lindo!?
?
Ficou muito bom!Fazer alguém feliz me deixa muito feliz.
Obrigado pelos comentários, pessoal!
Que bom que gostaram do conto!
. Fico bem contente!
Laralarala larara larara ohahahahahaaaaaaaa… rsrsrs…
–
Muito legal este conto. Lembrou-me Toy Story.
Não entendi o “laralarala”, ou não captei de qual música seria
, heuheuhe.
Valeu!
Pois é, eu gosto muito da Pixar como um todo. Com exceção de Vida de Inseto e Carros, que acho 2 filmes bem chatinhos (principalmente o Vida de Inseto), eu gosto demais das outras obras deles. Principalmente Up, Wall-e, Toy Story, Ratattouile e Os Incríveis.
Apesar da ideia de fazer esse conto ter surgido de uma outra situação – uma outra ideia de conto que tinha tido, mas que não conseguia dar procedimento nem mesmo ritmo – não posso negar que, nem que fosse inconscientemente, tive forte inspiração vindo da Pixar, hehehe.
Bem, em síntese, a forma como você explora o lado psicológico e emocional de um ser inanimado e consegue transferir todos esses sentimentos aos leitores é linda e faz com que o conto se torne por si só tão doce e meigo quanto possível. A estória ficou muito bela, parabéns *.*
Legal que achou bonito!!!
Valeu pelo comentário.
Obrigadão
Olha só, conto muito bom.
Detectei varias apologias, talvez minhas interpretações foram grandes demais sei lá.
Adoro textos assim, Parabens!
Opa.
Que bom que você gostou do conto!
Quanto às interpretações, acho que meio que não existe interpretação grande, média, pequena, ambiciosa, errada, certa, enfim
. Se o texto é interpretado de formas diferentes pelas pessoas, fico mais feliz ainda! Quero dizer, isso é bem legal no sentido de que não ficou “técnico” demais e significou, através da interpretação de cada um, alguma coisa
.
Fique à vontade para expor suas interpretações, a propósito!
Abraço!
Essa história está realmente legal, parabéns !!
Cara embora o autor enrole e encha um pouco de linguiça demais, o conto é bem bom, só acho que não precisa explicar dez vezes a mesma coisa. Assim a ideia foi muito boa, bem trabalhada, mas como disse não precisava encher tanta linguiça he he he he
=
=
SPOILER NÃO LEIA ESTA PARTE SE NÃO LEU O CONTO: Tipo ficar repetindo que ele precisava fazer alguem feliz e que ele era um cubo impossível fez com que o final fosse previsível
Eu acabei advinhando o final porque é uma historia simbólica que se pode aplicar em varios outros aspectos e exemlos.Mas é bem legal.
É isso aí.
Ás vezes pensamos que uma pessoa é ruim,não serve para um papo,mas isso acontece porque não analisamos direito o ser dessa pessoa.A mesma coisa acontece na estória do “Cubo Bob”
ele é rejeitado pois não satisfaz o garoto,é jogado fora mas encontra alguém que o leva para casa e o guarda.
Assim somos nós humanos ás vezes alguém não gosta de nós,mas saiba que ela apenas não sabe a pessoa boa que tu é.
Parabéns ao autor por esse conto maravilhoso!
Opa!
Tempos que não passo e deixo comentário.
Valeu pelos elogios e também pelas críticas, é claro! A partir dos elogios que se ganha fôlego para continuar criando e compartilhando, e a partir das críticas que se sabe onde se deve melhorar!
Fico muito feliz que tenham gostado e comentado. E agora vi que foi publicado! Muito legal! Ótima imagem também! Hahah
Valeu a todos! Abraço!
Mais uma vez tenho o prazer de comentar eu leio e não me canso que texto lindo!
Alguns recorrem a galáxias distantes, explosões, sangue, vísceras, amores impossíveis, sexo desnecessário, fauna de criaturas fantásticas, etc.
Mas você só precisou de um cubo mágico. Parabéns, pois seu conto é maravilhoso, diz algo sobre a condição humana e, sobretudo sincero e gostoso de ler.
P.S. por alguns instantes eu achei que o cubo iria se jogar da estante para espatifar-se no chão, ainda bem que ele não o fez.
Muito obrigado tim e Sup3r pelos elogios! Fico muito contente quando pessoas que apreciaram o conto colocam suas impressões!
Isso dá muita força para continuar escrevendo e tentar, cada vez mais, evoluir e melhorar!
Abraços!
A simplicidade foi o astro desse conto.
Nossa, um dos melhores contos que já li por aqui. Narrativa bem construida, historia original! Nossa, está realmente de parabens!