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Apr
12
2011

Boy Scout – Parte 1

Escritora: Ana Bourg

“…Sonhador, sentirei o frescor em meus pés. Deixarei o vento banhar minha cabeça nua. Não falarei mais, não pensarei mais: Mas amor infinito me tomará a alma…” Sensation (trecho), Arthur Rimbaud, 1870.

O som do despertador destruiu a realidade diáfana dos sonhos de Claude. Ele murmurou um palavrão. Estava sonhando com uma garota linda e nua, dançando sobre seu leito. Ela era morena e tinha seios redondos e empinados que dava vontade de mordê-los. Frustrado com o fim repentino do sonho revirou-se sob os cobertores, então jogou-os para o lado e se levantou, concentrado em disfarçar a ereção. Não queria passar pelo corredor da casa correndo o risco de ter esse tipo de constrangimento. Embora não devesse ser motivo de vergonha, uma coisa assim normalmente ocorreria como um incidente ligeiramente chato e logo ignorado por alguém que o encontrasse no caminho entre o quarto e o banheiro, na casa de Claude seria um terrível desastre.

Suas duas irmãs mais novas eram absolutamente histéricas e nada havia de mais divertido para elas do que fazer o primogênito passar vergonha. A mãe ficaria indignada – era incapaz de admitir que o filho era quase um adulto – se a situação já não fosse desagradável, ela faria parecer pior. Quanto ao pai, de certo entenderia como uma afronta à residência purificada.

“Era culpa da igreja.” O garoto pensava consigo mesmo. Sua família frequentava um grupo religioso que condenava a sexualidade de forma muito intrusiva, de tal forma que Claude e as irmãs eram proibidos de fazer amigos fora da congregação, sair com pessoas de fora para além do estritamente necessário e até mesmo ficar a sós com indivíduos do sexo oposto. Por isso, aos 17 anos anos, Claude jamais beijara uma garota. Morria de medo de ser descoberto e arcar com a fúria dos parentes. Sem falar que era um rapaz muito tímido, coisa que sua criação só devia ter acentuado. Era bem aborrecido e não era só pela necessidade de desenvolver sua libido: Claude desejava contato humano, abraços e carinhos de uma criatura bonita e atraente. Sentia uma vontade absurda de amar.

-§-

Claude desceu as escadas já arrumado, vestindo o uniforme verde-oliva dos escoteiros. Acontece que as diversas nominações dos Boy Scouts of America eram, em sua maioria, administradas por grupos religiosos que consideravam o escotismo um formador de caráter saudável e nacionalista, bom para os jovens americanos. Claro que esse era o caso do grupo frequentado por Claude. Não que houvesse muita escolha: das atividades que lhe foram oferecidas pela congregação cristã ao completar oito anos, pareceu-lhe a menos ruim. Agora possuía várias medalhas e até gostava de passar os finais de semana e vários dias das férias longe de casa, ao ar-livre. Apesar do militarismo juvenil, como escoteiro possuía relativa liberdade e contato com o meio-ambiente.

Pouco entusiasmado no momento em particular, Claude engoliu uma fatia de pão com um pedaço de bacon. Ignorou a mãe, reclamando que ele não rezara antes de comer. Despediu-se do pai e cruzou a rua larga cercada dos dois lados por casas espaçosas e muito parecidas. Esperar o ônibus dos escoteiros logo pela manhã, quando não havia vivalma pela rua, era gratificante. Bocejou. Estava tentando lembrar da garota do sonho, tentando identificá-la como alguma colega da escola.
O ônibus, verde como o uniforme, chegou pouco tempo depois e Claude embarcou, acompanhado de dois escoteiros mais jovens e ligeiramente atrasados. Havia garotos de várias idades, mas a média era cerca de treze anos, quando a maioria acabava deixando o escotismo para fazer qualquer outra coisa mais digna a um adolescente desejoso de interação social e popularidade.

Claude falou “oi” aleatoriamente e sentou em um banco vazio. Não participou da cantoria, preferindo passar todo o tempo da viagem até o rancho localizado em uma reserva florestal próxima a uma região de montanhas com a testa colada no vidro frio da janela. Desejava o vento. Uma rajada libertadora que injetasse ânimo e o carregasse para bem longe de tudo.

-§-

Os escoteiros se organizaram em blocos enfileirados, cantaram o hino nacional, saudaram a bandeira e fizeram uma breve oração. Claude sentia-se algo como um zumbi. Fazia tudo corretamente, repetia as palavras bem decoradas, mas de modo automático. Sua mente estava toda projetada em um lugar além, adverso à realidade. Quando caminhava para a Casa dos Veteranos, pôs a mão sobre a testa, sentindo-se febril.

“Então… qual a religião do Claude hoje?” Uma voz zombeteira perguntou, fazendo alguns garotos rirem. Marcus era um loiro grandão com aquele ar truculento de nazista em filme de guerra. E era chato. Pegava no pé de Claude desde que ele confessara ser agnóstico aos colegas.

“Acho que era hindu.” disse um garoto magro e sardento, chamado Jim. Mais risos. Em geral, o grupo era composto por cristãos de diferentes sectos, exceto Jim, que era judeu. E até que todos respeitavam o relativo ceticismo de Claude, menos Marcus, pois era bastante ligado à própria fé e não se conformaria até que todos seus conhecidos fossem fiéis fervorosos.

“Continuo agnóstico.” Claude respondeu, desinteressado. Essa conversa se repetia com demasiada frequência, o que ia se tornando cada vez mais cansativo. Tanto quanto insistiam que Jim era judeu por questões étnicas, apesar dele seguir a fé apenas para não chatear seus pais. Sabia bem que o colega evitava o assunto pois achava odioso discutir religião, mas era intimamente um cético, sendo essa uma das razões para que fosse um dos escoteiros por quem Claude mais tinha consideração e amizade.

Marcus falou que, ao negar a fé, Claude estava abdicando também de toda a moralidade.

“Não neguei nada, só acho que é um tema maior que nosso entendimento. É diferente de moral, manutenção da ordem, etc…” O rapaz respondeu, com um suspiro entediado.

“Mas a Bíblia…” Marcus começou, então foi interrompido por Kyle, um rapaz bonito de cabelos escuros, que se escondia por trás de óculos de grossos aros negros.

“É antiquada e metafórica.” Foi o que Kyle disse. “Do pouco que se aproveita, pode corresponder a valores universais independentes de religião.” E piscou para Claude, dando a discussão por encerrada. Conhecia aquele rapaz havia anos, mas raramente conversavam.

Marcus resmungou alguma coisa ininteligível, parecia meio ofendido. Alguns rapazes ficaram do seu lado, outros apoiaram Kyle e a maioria achava que não era um bom assunto para conversas casuais.

“Deixa para lá.” Claude falou e foi terminar o trabalho de nós que deveria fazer afastado da grande mesa localizada bem no centro da cabana. A Casa dos Veteranos era um tipo de galpão espaçoso, com uma enorme mesa rústica feita por escoteiros do passado, várias caixas de madeira e armários repletos de equipamentos. Na parede havia fotos de chefes e de turmas antigas, uma grande bandeira norte americana e o velho quadro de avisos. Era um lugar simples, porém agradável. Era particularmente legal espalhar sacos de dormir no chão e passar a madrugada contando histórias de terror e piadas sujas. Embora Claude andasse um tanto deprimido já fazia alguns dias, reconhecia que entre os escoteiros podia ser um garoto normal, em vez de um jovem solitário e, ao mesmo tempo, sufocado pelos pais.

“Eles te enchem o saco, né?”

Kyle havia sentado ao lado de Claude e pegou parte dos pedaços de corda que deveriam juntar. Fez um splice sem o menor esforço.

“Só um pouco. Mais porque eu fui burro e falei que eu…” Sentia-se constrangido em falar sobre si mesmo com alguém pouco íntimo. Para início de conversa, só revelara suas opiniões ao ter sido pressionado, apesar de reconhecer que sentia um certo alívio cada vez que punha os pensamentos para fora.

“Nem liga.” Agora Kyle e Claude trabalhavam juntos, transformando os pedaços de corda em uma resistente corrente para escaladas. “Sua família sabe?”

“Ah…” Claude jamais ousara contestar a fé diante de seus pais. Seria motivo suficiente para o renegarem e nunca mais falarem com o filho. O terrível era que isso até soava tentador, então achou melhor responder algo vago. “Seria melhor estar na faculdade e longe de casa.”

“Sei como é. Meu pai me mataria se me conhecesse de verdade.” Kyle respondeu, meio como se estivesse falando consigo mesmo. Antes que Claude ficasse curioso a respeito do significado da frase, o chefe dos escoteiros entrou na Casa, para distribuir as atividades do dia, usualmente ligadas a instruir os garotos mais jovens.

-§-

Ensinar lances de basquete para os garotos menores distraiu a mente inquieta de Claude. Achava muito bom correr pela quadra sob o sol cada vez mais alto no céu. Mesmo que os meninos fossem um pouco pentelhos, era também legal sentir-se um professor. Kyle havia resolvido passar o dia com Claude. Talvez tivesse notado o ar abatido do colega e o modo como evitara gente com quem tinha um relacionamento mais estreito, como o Jim. Além disso, todos sabiam que Kyle era um rapaz muito bondoso e prestativo, que fazia amizades com facilidade.

Agora ele passou rápido por Claude, roubando a bola de basquete de suas mãos, o desafiando a mostrar suas habilidades de jogador. Não fazia ideia do que esperar pois era apenas um pouco menor que Kyle, embora possuísse uma constituição física mais robusta que o colega. Os menores seguraram a respiração, ansiosos para ver o duelo.

“Ah, seu…” Claude correu em direção ao colega, mas Kyle arremessou a bola por cima do rapaz e fez uma bela cesta. Um garotinho tentou lançar a bola de volta ao rapaz moreno, mas Claude entrou na frente, tão rápido quanto o adversário. Basquete era um jogo tanto físico quanto era estratégico. Antes que fosse encurralado, Claude passou a bola para um dos agitados torcedores. O garoto, muito sacana, em vez de devolver assim que a esquiva foi feita, jogou a bola no ar, para que a disputassem. Ainda assim, Claude foi mais ágil e conseguiu recuperar o projétil, acertando um lance de bandeja.

“Empate.” Os rapazes disseram, juntos. Claude rolou a bola sobre o dedo, chamando o outro escoteiro para a decisão. Kyle saltou e roubou a esfera alaranjada. O outro se pôs quase em cima de Kyle, fechando as saídas para que ele fosse obrigado a arremessar a bola.

Aquela cesta foi genial. Os escoteirinhos vibraram e correram para pegar a bola. Kyle e Claude, porém, não se moveram.

Estavam parados frente a frente, as faces afogueadas, por algum motivo incapazes de fazer algo que não fosse sustentar o olhar um do outro. O que era aquela pulsão estranha se agarrando feito um anzol ao baixo-ventre de Claude? Havia um formigamento peculiar causado pelas respirações próximas e meio ofegantes por causa do jogo e a impressão de estar vendo cada detalhe da pigmentação avelã dos olhos de Kyle. Ele estava sem os óculos, devia tê-los tirado para jogar mas só agora Claude dera-se conta disso. Também não havia notado o quão bonito ele era e isso causava-lhe um quase incomodo, porque era incomum pensar nisso. Percebeu um leve estremecimento nas feições indecifráveis do colega, talvez por conta da aura de calor em torno de ambos. Poucas vezes o rapaz esteve tão perto assim de alguém. Antes que algo fosse dito, ou sequer compreendido, foram separados pelos meninos, pedindo para que escolhessem os times.


Written by Ana Bourg in: Agenda,Ana Bourg,Boy Scout,Contos | Tags: ,

3 Comments»

  • Ana Bourg says:

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    Agora que vi que entrou na agenda. :3

    Eu realmente pensei muito a respeito antes de por essa história aqui e tomei a decisão depois de ver que o pessoal é realmente sem preconceitos e respeita gostos e opiniões diferentes.

    Bom, espero as pedradas!

    • Samila says:

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      *-*
      Podem ser pedaços de chocolate semi derretido no lugar de pedras?
      Sabes que eu adoro esse romance, e aguardo ansiosa por sua continuação!

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