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Apr
27
2011

Cheio de vida

Escritor: Del Santos

Acordei.
Cheio de vida, parecia que acabara de ser parido.
Inflei os pulmões e levantei.
Nada de “primeiro o pé direito”, coloquei os dois com firmeza. Sentia-me seguro.
Não ligo para superstições.
Fui para o banho. Água fria para estimular a circulação.
Nem dei bola para a cama desfeita… Deveria.
Desci as escadas em direção a cozinha.
Estava com uma fome enorme. Devorei a geladeira.
Do lado de fora o Ralf começou a chorar.
_Quer sua ração garoto? Espere um momento!
Saí na varanda para alimentá-lo.
_Você está estranho, hein! Nada de uivos, ouviu?!
Coloquei ração na tigela.
Olhei para o relógio
_Tenho que ir!
Voltei, peguei as chaves do carro e sai.
Por um momento tive a sensação de estar esquecendo algo muito, muito importante.

Parto rumo ao trabalho, e lá…
_Nossa! O primeiro a chegar. Realmente sou um exemplo de funcionário.
Sentei em meu gabinete.
A papelada era enorme.
_Não tem problema, estou disposto.
Sempre fui centrado em meu trabalho, fiquei ali por horas.
Nem notei o tempo passar.
Passou o almoço.
Deu duas.
Três.
Quatro.
Fim do expediente.
_Serviço feito! Fim de semana livre.  Entrego as planilhas na segunda.
Era hora de voltar para casa.
_Onde está todo mundo?
Olhei em volta e me orgulhei.
_O primeiro a chegar e o último a sair. Sem dúvidas, sou um exemplo!
Peguei minhas coisas e fui.

Seis da tarde.
Mal chegava em casa e já me surpreendia ao avistar uma movimentação. Minha mãe e meus irmãos na sala.
_O que está acontecendo?
Peguei meu celular e vi a data no visor: sexta13 – maio.
_ Não acredito. Foi o que esqueci. Meu próprio aniversário. Legal, festa surpresa!
Estiquei o pescoço pela janela e mais lá dentro pude ver meu patrão e uns quatro ou cinco colegas de trabalho. Inclusive Ralf, que começou a uivar novamente.
Estavam todos reunidos no meio da sala formando um círculo.
_Estão combinando! Vou entrar como se não soubesse de nada. Sou bom nisso. Lá vou eu… Que comece a festa!
Dei um sonoro “boa noite!”. Ninguém respondeu. Só o Ralph que me veio com seus uivos cada vez mais irritantes.
Então, todos desfizeram o círculo e uma dor dilacerante atacou meu peito.

Naquela manhã tive a sensação de ter tomado banho.
Tive a sensação de ter me alimentado.
Impressão de ter pegado o carro.
De ter ido ao trabalho,
E ter trabalhado.
E não havia ninguém lá,
Porque não houve expediente, todos foram liberados.
Pois…
Naquela manhã…
…nem dei bola para a cama desfeita… Deveria.
Se o tivesse feito, teria avistado meu corpo. Sem vida. Em cima da cama.
Fruto da confiança excessiva, da ausência de superstições numa irônica sexta 13. Pisei com os dois pés no chão frio, meu corpo retorceu, o coração contraiu.
Choque térmico.
Eis o verdadeiro motivo da impressão de esquecer algo muito importante: esqueci de mim mesmo.
Agora eu estava no meio da sala, dentro de um caixão.
Bem que o Ralf tentou me avisar, com seu sexto sentido apurado.
E o estranho é que me sentia tão cheio de vida.


Categorias: Agenda,Contos |

3 Comments»

  • Thaina Gomes says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Uau! O final me pegou direitinho, ficou muito bem montado, gostei.

  • Morgan_@21 says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    CARACAS velho! Me surpreendeu, parecia filme! Deveria estar na capa do ONE!

  • Marina Andrada says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Será que isso acontece mesmo? Eu hein…quero ir direto para o céu, e não ficar perambulando por aqui ashuashuashu Muito bom! Bj

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Publicado por Del Santos

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