D.E.I.S. – A Primeira Caçada de Um Novato
Escritor: Andrey Ximenez
Para Vinicius Machado e Jones Viana
Estou com medo. Um tipo de medo como nunca havia sentido em quarenta e sete anos de existência.
A sala é pequena. Rescinde ao ar abafado pela fumaça azul dos cigarros que fumo. No cinzeiro eles se empilham, mais e mais. Anos atrás era mais cuidadoso. Não fumava no meu pequeno escritório, onde se acumulavam antes, ao invés de bitucas, papéis. Papéis de documentos, processos judiciais, não menos sujos do que os malditos cigarros.
Tudo mudou nos últimos três dias. Não sentia mais o conforto de minha casa. As paredes brancas não me passavam mais paz, objetivo de minha esposa ao escolher essa cor. Passavam-me vazio.
Os papéis ainda estavam lá. No chão. Sujos, com marcas de meu sapato, sujos por barro. Na mesa, ao lado do cinzeiro uma Winchester e uma pistola, presente de Paul, meu amigo gringo do exército. Elas ficavam muito bem na parede, davam um ar de potência, de masculinidade ao meu gabinete quando recebia visitas. Não me importo mais com elas mesmo.
Ainda com medo, terminei o cigarro. Caminhando lentamente segui até a porta. A mão ficou sobre a maçaneta durante alguns instantes. Depois, sem muita firmeza, fez com que o mecanismo girasse e permitisse a passagem até a antessala.
O outro lado fora arranjado perfeitamente no pequeno espaço. À direita, próxima à porta, existe um sofá de couro, sintético, negro. No meio uma pequena mesa de centro, com jornais da semana passada. Do outro lado mais um sofá, negro como o outro.
Em cada sofá existia agora homens sentados. Próximos a porta, ao meu lado, estavam meu filho e meu sobrinho, Henrique e Pedro, respectivamente. Eles me olhavam com aquela expressão suada e desgastada. Os olhos ainda que cansados estavam arregalados, sem brilho, como se estivessem mortos. Mas não estavam, pois seguiram meus passos enquanto me dirigi até o centro da sala.
Quem sabe estivessem, afinal.
No outro sofá estava sentado, sozinho, um homem, trajando um sobretudo escuro, talvez marrom, largo o suficiente para esquentar toda a gordura do gringo de cabelos grisalhos e olhos azuis. Ele fumava displicentemente um charuto enquanto tomava uma dose do meu uísque. Antigamente chamaria-o de americano sem vergonha. Nesse dia fiquei calado, preferindo o silêncio.
- Silveira… – disse ele, num tom de quem não sabia se deveria continuar, rompendo o silêncio com sua voz rouca e calejada pela fumaça.
Olhei-o nos olhos durante alguns segundos, após isso olhei para meu filho e para meu sobrinho. Todos me olhavam, mas não diziam nada.
Percebi lágrimas secas se formando nos olhos de meu filho. Estava com vinte anos. Tão novo. Tem os olhos da mãe, bem abertos, diferente dos meus, amendoados e pequenos. Mas o meu verde ele tinha, ainda que, como os meus, estivessem nublados por algum tipo de nuvem negra, de tristeza ou mau agouro. Sempre fora magro, porém as calças jeans e a camisa polo que usava pareciam ser grandes demais para seu corpo.
Meu sobrinho jazia de cabeça baixa, evitando meu olhar direto. Sentia que estava acabado também. Pudera, ele vivia comigo há doze anos já, desde que o irmão de Lucia morrera de overdose. Criei-o como um filho, e como um filho estava ali, ao meu lado, naquele momento tão difícil. Vestia-se como meu filho. Uma calça jeans simples, uma camisa polo branca. Só era mais baixo e forte, com um cavanhaque bem formado mesmo contando dezoito anos.
- Silveira… – a voz de Paul soou novamente no ambiente, trazendo-me para a realidade. – Sente-se, precisamos conversar.
Como se fosse uma ordem sentei-me, ao seu lado, ereto e quieto, esperando suas palavras.
- A polícia já saiu de sua casa – continuou ele, soltando uma cinza sobre o assoalho.
- E o que encontraram meu amigo? – disse com uma voz mais rouca do que previa.
- Nada. – suspirou tragando mais uma vez. – Não havia sinais de luta, não havia pólvora, nem dano à mobília. Não havia digitais nada, nada.
Ficamos nos olhando, meu filho então se perguntou o que eu tinha em mente.
- Mas padrinho, se não havia marcas de armas, nem facas, como… como… – então sua voz falhou e as lágrimas venceram sua resistência, escorrendo sem medo por sua face.
- O que ele quer saber, compadre, é – ergui a voz com firmeza – como fizeram isso com ela… como despedaçaram minha mulher?
Um silêncio se abateu no ambiente, um trovão roncou ao longe sem sequer ser percebido. Paul ficou um minuto calado.
- Tu queres mesmo conversar sobre isso, Silveira? Na frente de seus filhos?
- Eles têm tanto direito de saber quanto eu.
- Quer que eu fale sem floreios então.
- Sim, como tu sempre fizeste durante todos esses anos. Direto ao ponto.
- Pois bem – ele apagou o charuto no cinzeiro – Estive na cena do crime, e já que é para ser direto não irei falar sobre o quanto me doeu e nem quais são minhas impressões pessoais sobre a cena.
- Claro, siga.
Notei que Paul sentiu-se pouco à vontade para falar sobre o assunto. Seu olhar se dirigiu até a janela, como que encarando a chuva e dela tentando tirar alguma sensibilidade para falar sobre o assunto.
- A cabeça de Lúcia foi forçada em 180 graus – começou ele, com a cabeça ainda virada na direção da paisagem – Stevie, meu amigo legista, dissera que fora torcido como um clips, sem oferecer resistência alguma. Os braços dela foram encontrados ao lado da lareira, um dentro dela, meio chamuscado.
Fez uma pausa, meu filho simplesmente parara de chorar, meu sobrinho se mantinha de cabeça baixa.
- Ele ainda disse – continuou – que os braços não foram cortados por nada, nem faca nem machado, nem serra. Simplesmente foram puxados. Os nervos ficaram expostos no ombro. De início imaginei que teria sido algum tipo de maníaco, que arrancara os braços dela usando cordas ou qualquer tipo de coisa. Perguntando ao Stevie sobre isso ele me respondera que pensara algo na mesma linha. Porém ao analisar os braços e pulsos constatara que ali não havia marcas de cordas nem nada. Somente algumas marcas de dedos, próximas ao cotovelo, no antebraço.
- Tu estás querendo me dizer que, simplesmente, alguém foi lá e puxou?
- Sim.
Fiquei fitando sua face durante um bom tempo. Sabia ler-lhe as expressões. Muitos anos haviam se passado e elas não mudaram. Nelas eu lia dor, tristeza, nojo, e certeza, certeza do que falava.
- Que homem comum poderia fazer isso, meu amigo?
- Não acredito que um homem comum pudesse fazer algo assim.
- Entendo. Está querendo dizer que é um caso sobrenatural então?
- Não estou querendo dizer nada, Silveira. Estou só lhe expondo a cena do crime. Mas se quiser me perguntar se acho que algo sobrenatural – aqui ele fez uma pausa, olhando-me com seus olhos de maneira profunda e dura – Digo que sim, que acredito que seja algo sobrenatural, pois homem algum teria força e estômago suficiente para fazer o que fizeram à Lúcia.
- Pois bem, e qual é o procedimento da polícia quanto a isso?
- Arquivam. Existe um departamento que lida somente com isso. Mas dizem que os casos nem sempre chegam em suas mãos.
- Imaginei que me diria algo assim.
- Então o que pretende fazer?
Fiquei calado com aquela pergunta. Depois me voltei em direção ao meu escritório. Na frente da mesa encarei a Winchester. Ouvi passos estalando sobre o chão de madeira empoeirada. Estavam os três ali.
- Pai, o que tu vais fazer?
- O que tu achas meu filho? – voltei-me em sua direção, sorrindo, com a espingarda em mãos. – Vou atrás do filho da puta que arruinou minha vida.
Os três ficaram espantados com minhas palavras.
- Estão comigo?
Em silêncio, enquanto a chuva caía, enquanto os cigarros apagados fediam o ar, os três assentiram.
***
- Senhores, acompanhem-me, por favor.
O homem de jaleco branco e cabelo negro lambido em topete seguia acelerado pelo caminho. Paul e eu caminhávamos em seu encalço ao longo do corredor branco e comprido. Subitamente parou em frente a uma porta. Era cinza e maciça. Encarou-nos brevemente.
- Senhores, aqui está. Devo lhes dizer que a ordem que tenho do departamento de perícia é de crema-la após a sua investigação, por isso aproveitem bem este tempo, ok? – e dizendo isso abriu a porta para nós.
A sala era fria, clara e com muitos aparelhos e ferramentas. Havia três macas, inúmeras mesas com bisturis diferentes e frascos com líquidos. A porta se fechou após um clique, deixando nós dois a sós com ela.
Minha amada, minha vida.
Na maca do meio estava a cabeça, com os cabelos castanhos empapados em sangue seco, voltada para cima, no ângulo que sempre deveria ter estado. O tronco estava nu e branco, como papel. Diferente do tom saudável, macio e cheiroso que sempre emanava de Lúcia.
Paul foi caminhando por ali, observando os olhos abertos de Lúcia. Na face de meu amigo não se via mais dor ou fraqueza. Pelo contrário, parecia que havia se deixado levar pela frieza do ambiente. Pareceu-me, mais do que nunca, um profissional em busca de sua caça.
Nas mesas ao lado estavam as pernas e braços dela.
Demoramo-nos algumas horas lá dentro. Eu somente observei. Ele fez todo o trabalho, mexendo e remexendo nas entranhas da minha esposa.
***
Horas depois estávamos do lado de fora do IML. Paramos na entrada do prédio. O carro estava do outro lado da rua. Ao nos ver ali, meu filho desceu do carro com o guarda-chuva em mãos. Fiz um sinal com a mão, mandando-o voltar para o carro. Ele me olhou sem entender, mas obedeceu.
Ali, na pequena varanda de entrada, puxei um cigarro e comecei a fumar. Paul me seguiu e puxou um de seus charutos, acendendo um fósforo com dificuldade para também começar a fazer fumaça.
A chuva que caía era bonita. Forte, com pingos graúdos que estouravam no chão. Não ventava, então a chuva descia perfeitamente reta sobre o asfalto negro da cidade.
- O estilo favorito de chuva dela, não?
- Sim, é verdade – sorri exalando meu tabaco no ar.
- Uma noite bonita, seria ideal estar em casa ao som dessa chuva.
- Sim, seria bom dormir, na verdade.
- É…
- E então, cortando o papo furado, o que descobriu Sherlock?
- Bem… não sou inglês, mas acho que descobri algo.
- E o que é?
- Bem tem um detalhe bem clichê que não me passou despercebido.
- Qual?
- O que havia nos cabelos de Lucy?
- Sangue velho.
- Correct, my friend. But,have you see more blood in the room?
Fiquei calado. Traguei mais duas vezes o cigarro antes de fazer a pergunta que ele esperava.
- Vampiro?
- Exactly -disse ele enquanto saia na chuva em direção ao carro.
Surpreso e sem saber o que dizer ainda terminei o cigarro, depois o segui.
***
Era de tarde, o sol se punha discretamente ao fundo, escondido nas nuvens cinzentas. O vento trazia o cheiro de terra molhada até meu nariz. As lembranças vinham com força.
O rancho é de Paul. Lembro-me que minhas ultimas férias passamos aqui, Lúcia, Henrique e eu. Fora bom. De dia andávamos pelo pomar colhendo frutas enquanto Henrique conversava com Sebastiana, caseira do gringo, na cozinha. De noite, após todos dormirem, Lúcia aprontava uma sesta com sanduiches, frutas e vinho.
Caminhávamos de mãos dadas pela grama verde, de pés descalços. Era verão, o céu limpo brilhava suas estrelas com força iluminando a face radiante dela. Seus olhos carregavam a mesma luz de quando havíamos nos conhecido vinte e três anos antes.
Após caminharmos um bom caminho, paramos. Ela estendeu uma esteira de palha, dessas que usamos em praias, e lá nos sentamos, observando a lua crescente que sorria para nós.
Ela envelheceu, e eu também. Nós dois não tínhamos mais o corpo de antes, de quando nos vimos pela primeira vez. Dos meus músculos só restava uma sombra, meus cabelos já tinha um brilho grisalho, ainda bem penteados para trás. Os seios dela já não eram tão firmes, suas coxas também não. Porém seus beijos ainda me aqueciam o sangue, fazendo me sentir jovem e com força.
Fizemos amor a noite inteira, a céu aberto.
Os anos, no fim das contas, não importavam tanto.
***
- Onde estão os garotos?
- Praticando tiro com Sancho. Ainda bem que tu ensinaste eles desde cedo. O velhinho comentou que estão se saindo muito bem.
- Que bom, um problema a menos.
- Vai deixa-los se envolverem nisso mesmo?
- Não até o nariz. Mas quero-os comigo, eles merecem estar lá e contribuírem nisso.
Paul ficou parado na porta de entrada observando o campo. Eu, sentado na varanda, apenas polia a Winchester compenetrado.
- Descobriu alguma coisa? – perguntei.
- Sim, fiz um telefonema para um amigo meu. Ele é do departamento que cuida de casos iguais a esse. Nos ofereceu ajuda, disse que poderia levar o caso até seu comandante.
- Agradeço, mas quero resolver isso com minhas próprias mãos.
- Tu não sabes exatamente com que está lidando, Abbie.
- Talvez. Mas é assim que quero.
O gringo então deu um longo suspiro, compreendendo que não poderia me demover deste assunto.
- Pois bem, ele pode nos ajudar com algumas informações então?
- Claro.
- Ligarei para ele, volto logo.
***
Estávamos sentados na biblioteca de Paul. Os garotos estavam próximos à janela, observando nossa conversa. Sobre a mesa inúmeros papéis contendo anotações, números de telefones e mapas riscados. Eu estava sentado na ponta da mesa, observando tudo aquilo de maneira meio confusa enquanto o gringo circulava pela sala falando no celular e tomando mais notas nos papéis.
- Claro, isso fica entre nós. Sim, tomarei cuidado. Tu separas mesmo o material pra mim?… Ah sim, mais uma vez obrigado, tu tens me ajudado muito, não me esquecerei, amigo. Até mais – e desligou o celular.
- Então? – perguntei, apoiando a têmpora sobre a mão esquerda.
- Conseguimos muito, Silveira.
- O que tens ai?
- Veja bem. Ele me explicou o caso de maneira simples e direta. Objetiva pra ser mais claro – Paul continuava caminhando pela sala. – Ao que tudo indica esse ser, chamado comumente de vampiro, é novo no negócio. Vampiros antigos não se dominam por esse tipo de descontrole. Quando matam fazem isso de maneira discreta, o que faz com que o crime em si passe despercebido, como se fosse um assassinato comum.
- Sei. Então é um novato.
- Isso. Então, de acordo com meu amigo, os crimes devem ter continuado, porém de maneira mais sutil. Aqui eu tenho um mapa de mortes que ocorreram logo após do assassinato de sua esposa.
- Se ele está aprendendo a matar, como saberemos distinguir um crime comum desses? – perguntou meu filho com a voz abafada.
- Seres sobrenaturais sempre tem uma assinatura, algo que sempre fazem e que não percebem.
- E qual seria a dele? – dessa vez meu sobrinho intercedeu.
- Na noite seguinte à morte de Lúcia uma senhora foi encontrada morta em seu apartamento. Ela estava com o pescoço quebrado em seu banheiro. A perícia identificou o caso como morte acidental, como se ela houvesse caído após o banho. Isso aconteceu a três quadras de sua casa, Abbie.
- E onde está a assinatura? – inquiriu uma vez mais meu sobrinho, encarando o gringo com seus olhos castanhos.
- O laudo da autópsia diz que o pescoço estava quebrado em ambos os lados, o que, diga-se de passagem, é incomum para uma queda no banheiro. Consta também que havia marcas de dedos no braço da velha.
Ficamos em silêncio esperando Paul continuar.
- Dois dias depois aconteceu com um rapaz, estava voltando da faculdade à noite. Seu corpo foi encontrado perto de uma padaria.
- E como ele estava? – perguntei.
- Não apresentava fraturas nem ferimentos. O laudo diz que sofreu uma parada cardíaca, um mal súbito. Isso decorre pela falta de sangue no corpo. Porém, no braço esquerdo, como nos demais, marcas de dedos. Salientando sempre que, obviamente, todos os crimes aconteceram à noite.
- Isso quer dizer que ele ainda deve estar próximo ao meu baiirro, correto?
- Sim, Silveira. Precisamente.
- E como faremos para acha-lo? – perguntou meu filho.
- Não precisaremos procura-lo. Na verdade eu já o achei.
- Como? – perguntei, surpreendido.
- Levantei um conjunto de dados das câmeras da cidade, alguns relatos de brigadianos e moradores dali. Após cruzar informações descobri que um jovem que mora ao lado do edifício Palace deixou de sair de dia e só sai à noite, voltando sempre próximo às cinco horas da manhã.
- Como descobriu isso? – perguntamos meu sobrinho e eu ao mesmo tempo.
- Parece que o apartamento de um casal de idosos da com as janelas da sala para o quintal do rapaz. – O gringo então sorriu, dando uma piscada em seguida – Qual é o hobby favorito de idosos?
- Cuidar da vida dos outros – meu filho respondeu de pronto, lançando-me um olhar que fingi não ver.
- Então o que estamos esperando? – perguntei animado.
- Precisamos de um plano de emboscada.
- Por que emboscada? – começou meu filho exaltado – Nós somos quatro, e ele apenas um. Vamos entrar na casa desse filho da puta atirando e já era.
Olhei para Paul com um olhar que busca uma resposta. Ela veio de imediato.
- Belo plano, kiddo. Funcionará muito bem se seu objetivo for que ele nos faça em picadinhos, depois ponha a carne que sobrar no sanduíche e jante tomando um suquinho com nosso sangue. Não, nós podemos fazer melhor.
- E então, o que faremos? – disse Pedro.
- Direi no caminho, agora vamos.
Levantei-me animado, como há muito tempo não me sentia.
- Vamos lá Paul, vamos acabar com esse maldito.
- Meu amigo, os dias dele estão contados.
- Mais uma coisa. Henrique, não diga mais palavrões na minha frente.
- Mas pai…
- Sem essa.
***
Era noite. Não havia estrelas nem lua no céu.
A chuva caía pesada e firme em Porto Alegre, criando poças límpidas e lamacentas sobre o asfalto. Era tarde, aproximadamente umas quatro da manhã. Henrique nem ligava para o fato de estar encharcado no chão da rua. Estava vestido com trapos cinzentos e sujos, fedendo a cachaça. Seus olhos, aparentemente ébrios, focavam uma pequena casa de esquina que era rodeada por uma grade verde não muito alta. Sentia frio, mas não se importava. Suas mãos suavam nervosas, porém sem medo. O desfecho ocorreria em breve, para o bem ou para o mal.
Dali, deitado, podia ver o carro de seu pai estacionado na outra rua que costeava a casa do maldito. Pedro deveria estar tão nervoso quanto ele, concluía ansioso.
- Mãe… tomara que tudo de certo.
***
Pela rua passos ecoavam ao som da chuva, solitários.
Eduardo vinha pensando na noitada que tivera. Nunca fora tão fácil. Não sabia como a ideia de ir num puteiro nunca havia lhe passado pela cabeça. Era tão simples. Pagar por duas mulheres e suga-las a noite inteira, de pouquinho em pouquinho. Nenhuma morte, nenhum problema.
Talvez a vida de ser noturno e das trevas não fosse tão ruim. Riu alto pensando nisso.
- Ser das trevas – soltou mais uma gargalhada – Nada mal, nada mal.
Ao longe avistava sua casa. Perto dela um mendigo estava deitado. Estava com um pouco de fome ainda, mas atacar um mendigo era o cúmulo da miséria. Olhando para o céu e chapinhando na água constatou que poderia ter voltado mais tarde. Com toda essa chuva o sol provavelmente demoraria a lhe tostar o rabo. Mesmo assim, preferiu a cautela ao azar.
Na frente do portão sacou as chaves, escolhendo no pequeno molho uma delas. Com um som metálico característico de filmes de terror abriu o portão entrando em seguida.
Iria entrar pela porta lateral, como sempre. Nunca usava a da frente. Ao chegar na frente dela, quando encostou a chave na fechadura, ouviu uma voz, vinda do portão.
- Boa noite.
Sobressaltado olhou em direção ao portão. Na frente dele, do lado de dentro havia um homem parado, vestia um capote no estilo dos mafiosos de Don Corleone.
- Boa noite – respondeu Eduardo, com um sorriso lutando para vazar de seus lábios. – O que deseja dentro de meu pátio, amigo?
- Ele – outra voz surgiu, dessa vez vindo de suas costas, perto do muro que fazia divisa com o prédio ao lado – Veio me ajudar a vingar minha esposa, vampiro.
Dessa vez lutou contra seu instinto para não demonstrar surpresa. Vencendo, apenas virou metade de seu corpo para encarar os dois.
- Vampiro… Vingar esposa… – Um sorriso finalmente desenhou-se em seu rosto – Pelo visto a pedrinha já chegou neste bairro, que lastimável.
No entanto ambos pareceram não perceber a piada. O homem, que vestia-se igual ao primeiro, começou a desabotoar o casaco. Seu companheiro o seguiu. Ambos ao terminarem seguravam espingardas. Se estivesse vivo Eduardo apostaria que sua testa estaria suando.
De longe ele não era o que Alberto Silveira esperava. Imaginava o assassino de sua mulher como um homem maduro, de uns trinta e poucos anos, com traços rudes e anêmicos. O que via na sua frente era um rapaz de uns dezenove, no máximo vinte anos. Trajava roupas comuns, com um casaco de couro simples. A pele corada não denotava aquilo que sempre ouvira falar em lendas. Era um garoto, simplesmente um garoto.
Garoto esse que estripara sua mulher. Um garoto que não teria o seu perdão.
- Entendo. – disse Eduardo – Antes de a festa começar, posso fazer uma pergunta?
- Diga – respondeu de maneira seca Silveira.
- Quem era sua esposa?
- A mulher que tu arrancaste os braços e pernas.
- Ah… sim. Lembro-me dela – o sorriso se alargou bastante – gritou bastante quando arranquei seus braços. Depois ficou bem quietinha…
Parecia que iria falar mais alguma coisa, porém ambas as espingardas explodiram no mesmo tempo. Um tiro pegou seu ombro de raspão, mas com incrível habilidade se esquivou do de Silveira, girando velozmente uma pirueta, muito alta, em direção a Paul.
O tempo parecia ter parado, Silveira ficou estarrecido ao vê-lo tão alto do chão, rodopiando com as pernas na chuva, atingindo em seguida com os pés a arma do gringo. Esta disparou uma vez mais, porém dessa vez contra o chão.
- Paul! – gritou em seguida, sentindo raiva, pois sabia que não poderia atirar com o amigo engajado com o vampiro.
Frente a frente com o inimigo Eduardo sorriu. De perto pode ver os olhos azuis dele, surpreendidos pela sua habilidade, mas nem por isso com medo. Fez questão então de usar um pouco de seu sangue, de maneira a fortalecer seus músculos.
- Com medo, amigo? – disse com uma voz carinhosa enquanto com apenas uma das mãos esmagava o cano da espingarda.
Paul era durão, mas intimamente sabia que estava ferrado. Ainda assim, naquela distância tão curta, escolheu uma cabeçada bem colocada em direção ao nariz do vampiro. Com efeito, um som oco de ossos se partindo trespassou o ar. Uma pequena nevoa de sangue misturou-se à agua que caia, trazendo ao nariz do gringo um cheiro de grama molhada e ferro.
Uma risada e Eduardo fechou sua mão sobre o pescoço do inimigo, arremessando em seguida como se fosse um boneco contra o muro. Paul voou rapidamente contra seu destino, estalando com força contra ele, caindo em seguida, e lá ficando, sem se mover.
- Não! – gritou Silveira, disparando duas vezes contra o alvo. M ais uma vez, somente uma bala o atingira, dessa vez na perna direita. A outra passou a poucos dedos de seu rosto.
Eduardo então se virou com fúria, a boca alargada diabolicamente em direção ao homem com a arma. Os dentes caninos estavam muito maiores que o habitual, como num pesadelo infantil.
Saltou com força, fazendo com que debaixo de seus pés se desprendesse um grande bloco de grama. Voou na direção de Silveira recebendo mais uma bala que atravessou seu braço. Ainda assim atingiu-o com força pregando-o no chão.
Silveira gemeu com dor. Podia ter certeza que seus ossos de meia-idade não resistiram à queda. Pelo menos umas três costelas tinham ido para o espaço.
Eduardo então, sobre o corpo caído do inimigo, aproximou seu rosto do dele. Os olhos apertados e verdes estavam nublados pela dor e pela chuva. Aproximou-se tanto que seu nariz encostou-se ao dele.
- Abra os olhos maldito. Encara-me.
Ainda sentindo dor, Silveira abriu os olhos. Pode então ver a cara do assassino de sua mulher bem perto da sua, com seus olhos negros e vazios, tão diferentes dos dela.
- Olha bem meus olhos, vadio. Olha neles e leia o que está escrito, a sua morte.
Silveira então soltou um riso debochado, quase que delirante ao ouvir aquelas palavras. Aturdido Eduardo não entendeu e franziu a testa.
- Nos seus olhos pode estar escrito minha morte. – Começou Silveira – Mas na minha mão está escrito Águia do Deserto, amigo.
E dizendo isso Eduardo ouviu três estampidos retumbando a queima-roupa no seu abdômen. Podia sentir as balas lhe furando o corpo e os órgãos que um dia lhe foram tão vitais. Sabia que aquilo não o mataria, mas não estava acostumado a regenerar tantos ferimentos de uma só vez. Com um grito ergueu-se. Do estômago vazava o sangue que havia ingerido durante a noite. Utilizando-se do pouco de força que o sangue havia emprestado aos músculos saltou por cima do portão. Sabia que era melhor recuar. Poderia voltar e acabar com esse bastardo depois.
Do outro lado da rua teve uma surpresa. Quando estava se preparando para correr uma luz forte se projetou contra seus olhos. Farol de carro, muito alto.
Ofuscado, só vira um vulto esticando o braço pra fora da janela atirando inúmeras vezes contra si. Sentiu mais duas balas lhe furando o tronco.
- Merda! – gritou abalado, tentando correr para o outro lado, resvalando na lama e caindo em seguida.
Com as mãos na agua suja e espessa, tentou erguer o corpo o mais rápido que pode. Mas ao olhar para cima viu um homem na sua frente. Na verdade um mendigo. Mas normalmente mendigos não deveriam portar Winchesters. Principalmente apontadas para a sua cara.
- Isso é pela minha mãe, filho da puta.
***
No escuro Silveira se dera conta que respirava. Logo constatou que estava vivo e resolvera abrir os olhos. Uma claridade branca lhe ofuscou os olhos.
Estava num quarto de hospital.
Havia aparelhos lhe monitorando os batimentos, dando uma olhada rápida sob o lençol vira seu tronco todo enfaixado. Testou os pés e sentiu-os se mover, com felicidade.
Depois disso olhou para o lado, ali havia mais uma cama. Nela Paul estava sentado lendo calmamente um jornal.
- Morning, my friend. How you feel?
- Fine. And you?
- Can be better, I guess.
Ambos ficaram em silêncio se olhando. Então o gringo deu um leve sorriso.
- Em paz agora?
- Acho que sim. Ele morreu?
- Sim, seu filho estourou os miolos dele contra o asfalto.
- Fico feliz.
- Todos nós. Mas e então – disse o gringo – O que pretende fazer agora?
- Não sei. Terei que pensar sobre isso. Se me permitir gostaria de passar uma temporada no seu rancho até decidir.
- Sem problemas, farei o mesmo.
Uma leve batida na porta. Ela se abre e uma enfermeira entra meio corpo.
- Senhores, vocês tem uma visita.
Ambos se olharam, achando que se tratava de Henrique. Porém um homem pálido e esguio, vestido em roupas coloridas e chamativas, nada condizentes com o ambiente, entrou no quarto. Parou entre as duas camas enquanto, ao analisar os dois acamados, passava a mão sobre a vasta cabeleira crespa.
- Senhores Silveira e Willians, suponho?
- Correto – respondeu Paul.
- Eu sou um representante do D.E.I.S., Departamento Especial de Investigação Sobrenatural. Fiquei sabendo da história.
Ambos continuaram calados.
- Estou aqui por um motivo simples. Gostaria de convida-los a fazer parte da nossa equipe.
- Por que faríamos isso. – respondeu Silveira – caso não tenha visto não temos mais idade para isso.
- Podem não ter idade – ofereceu um sorriso debochado o homem – Mas tem fibra e ódio a essas criaturas, é isso que importa.
- Ainda não me sinto convencido – continuou Paul.
- Bem, se isso não é argumento suficiente, vale lembrar que o assassino de sua mulher ainda não morreu Sr. Silveira.
- Como não?!
- Veja bem, todos os vampiros iniciantes sofrem de um descontrole quando “nascem”. E como tu deves imaginar eles não nascem de repolhos. Alguém os cria, alguém passa adiante a maldição. Não deseja se vingar de quem colocou o assassino de sua mulher na rua? Não deseja evitar que esse tipo de coisa volte a acontecer?
O silêncio imperou no quarto. Notando isso o homem caminhou entre as camas e, tirando do bolso um cartão seguiu.
- Aqui está o endereço do D.E.I.S. – olhou os dois nos olhos – Vocês devem descansar agora. Se mudarem de ideia depois já sabem onde me procurar.
E dizendo isso caminhou até a porta, abrindo-a com um movimento leve e preguiçoso. Pouco antes de fechá-la ouviu uma voz.
- Ei! Uma coisa – chamou Silveira.
O homem desconhecido somente colocou a cabeça no pequeno vão da porta.
- Sim?
- Seu nome?
O estranho então sorriu.
- Pode perguntar por Francisco, eles te levarão até mim.
E assim foi embora, como se nem tivesse passado por ali.
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Muito, muito bom, tem de melhorar as descrições dos dialogos, tem alguns um tanto corridos, e o Paul fala o Gauches perfeito, mas de resto esta muito, muito bom mesmo meu querido! É um grande orgulho vendo você escrever sobre no projeto, porém tem outro algo que me fugiu, onde os fatos ocorrem????
Rio grande do sul tche
-
Guns, o texto ta imcompleto, e agora?
Envia um e-mail, com o título do conto
Enviei o e-mail tche
Bacana vc escreve super bem viu xD
Valeu srta.!
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