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Apr
19
2011
Conto em Série

Escolhas na Escuridão – Parte II – Capitulo Um

Escritor: Andrey Ximenez

escolhas-na-escuridao

PARTE SEGUNDA

-

CAPITULO UM

DUPLA DINÂMICA

- São nove deles.

- Isso é um problema.

- Sério?

O outro somente confirmou com a cabeça, enquanto coçava o cavanhaque fino e negro. Nove é um grande problema, mesmo que sendo da estirpe mais fraca. Analisando a situação e, contando mentalmente as balas que ainda tinha, constatou que um embate era possível, porém não vantajoso.

- Que tu achas, Batata? – perguntou para o amigo mulato, de bochechas proeminentes.

O homem ao seu lado olhou mais uma vez por cima da pequena construção que um dia havia sido uma parede de tijolos firmes. Os zumbis agora comiam vorazmente as carnes de um terneiro. Alisando a cabeça raspada, dirigindo seus olhos esbugalhados, ele respondeu.

- Sei não, Sorriso. Acho que tem como, mas vai saber. Não temos muitas balas, e quem garante que daqui a pouco a gente não encontre um grupo de forçudinhos.

- Deixa de bobeira Batata! Não há como haver forçudos aqui. Não há nenhum elite por essas bandas.

- A não ser o que estamos procurando – entrecortou o amigo, conferindo as armas presentes na sua cintura.

- Tens razão, mas sabemos que o elite que procuramos não faria outros.

- Isso é o que nós achamos.

- Olha. São só nove merdinhas ali. Nós temos que passar por eles para entrar na porcaria do celeiro para pegar gasolina. – Disse, acenando com a mão o caminho adiante que, antigamente, havia sido de um verde radiante, mas hoje apresentava um tom marrom-doentio.

- Tu só podes ser um sádico.

- Vamos, a gasolina vai valer a pena. – deu uma piscada de incentivo para o amigo. Este somente balançou a cabeça, descrendo o amigo.

- Tudo bem, mas sem balas.

- Sem balas.

Batata então, olhou para a direita, encarando sua arma de estimação, escorada no muro baixo. Ainda pensando no desafio a seguir, fechou a mão envolta do cabo do longo porrete cravejado de pregos. Sorriso por sua vez removia da bainha seus dois facões de caça, afiados e prontos para o combate.

- Beleza? – perguntou o mulato, encarando seu amigo de infância com seriedade.

- Sempre bródi.

E dizendo isso os dois pularam o muro, caminhando em direção às criaturas que nem deram por sua presença.

Seus passos aceleravam-se ruidosamente. As botas de um negro brilhante esmagavam o capim seco e velho. No meio do percurso Sorriso ainda tivera tempo de ajeitar o colete que usava, prendendo o ultimo botão, pois sabia que não necessitaria da Glock presente no bolso interno. Seu amigo por sua vez avançava celeremente, quase alcançando a distância do combate.

Pouco antes de chegar, as criaturas, pálidas e brancas que exalavam um fedor de carniça, viraram suas cabeças em sua direção. Ele em resposta limitou-se a gritar um sonoro “Fiá-das-Puta”, esmagando, em seguida, o crânio do que estava mais próximo.

O sangue salpicara de leve os demais do bando que, sentindo o cheiro de carne fresca no ambiente, avançaram insandecidamente na direção do homem negro vestido de soldado. Um mais perto chegara tocar seus dedos finos e sebosos no ombro da refeição, porém, dois segundos após o ato, a mão não estava mais ali, graças a uma lâmina que descera rapidamente de encontro a ela.

- Acho que não, meu amigo – Disse Sorriso, com a boca arreganhada de maneira debochada, enquanto já enfiava o facão da mão direita na órbita esquerda da criatura.

Batata por sua vez respondera com um pequeno sorriso de gratidão enquanto chutava outro deles mais a frente. Porém já estavam sendo cercados pelos sete que sobraram. Sorriso enquanto desviava a investida de um deles não se dera conta da besta na sua retaguarda. Esta se projetara nas costas do homem alto, prendendo as pernas na cintura dele, trançando os braços em seu pescoço enquanto mordia-lhe o topo da cabeça.

Sorriso então soltou um grito de dor, debatendo-se com a criatura em cima de si.

- Batata! – gritou, em tom de desespero.

O amigo girara sobre os calcanhares. Viu a criatura enterrando os dentes na cabeça de Sorriso. Com as duas mãos aplicara um golpe poderoso na bochecha da criatura, colocando-a instantaneamente no chão.

- Cansei dessa merda! – Exclamou o homem do cavanhaque, lançando-se no meio de três deles, fatiando, cortando e batendo em tudo que se mexia ao redor.

Já o negro cuidava das costas do amigo, chutando e socando os que se aproximavam mais. Rapidamente olhou para conferir o serviço de Sorriso, constatando que somente mais uma das criaturas estava de pé.

O sol morria no horizonte, iluminando os restos de uma casa estancieira e o velho galpão ao fundo. No chão deteriorado manchas de sangue negro salpicado por umas poucas gotas rubras.

- Feito – exclamara Batata olhando as criaturas no chão.

- Aham – respondera o outro, que conferia com os dedos a ferida próxima a nuca. – Maldito! – disse, espetando o facão na criatura já caída.

- Chega. isso não vai levar a lugar algum, tchê.

- Pode não levar, mas que é bom é.

- Pfff, olhe para minha cara, homem. – disse Batata, apontando o próprio rosto que apresentava um corte que partia da testa, passando pela sobrancelha, terminando nas bochechas.

- Bah cara! Tu estás enxergando direito?

- Estou sim. – respondeu, enquanto colocava sobre a ferida um lenço.

- Bem, seu sargento ficaria satisfeito se lhe visse assim. Agora, finalmente, tem uma cicatriz, soldado.

- Vá se ferrar. – disse Batata, apontando-lhe o dedo do meio.

Em seguida dirigiram-se para o galpão. La dentro o ambiente estava escuro, com um ar meio abafado. Sorriso calmamente desabotoara seu colete de seda, que antigamente apresentava uma cor cinza perfeita, mas que hoje já se fazia impossível determinar o tom. De dentro do bolso interno puxara a Glock e uma lanterna, iluminando o caminho mantendo a arma apontada na direção do feixe de luz, assim como seu amigo havia lhe ensinado.

O caminho a frente apresentava um chão empoeirado, com alguns trechos cobertos de palha antiga. Nas laterais podiam-se ver baías arrebentadas onde, antigamente, os cavalos da fazenda deviam ficar protegidos após um dia longo de trabalho.

- Tu disseste que aqui havia um trator, Sorriso. Onde está?

- Provavelmente lá no fim, próximo a porta dos fundos.

E de fato, enquanto caminhavam lentamente pelo espaço cercado de ambos os lados pelas baías, puderam avistar, no limite do feixe de luz, um trator cor mostarda, estacionado ao lado da porta de saída.

- Ali está!

- Nada mal, soldado Vargas – brincou Batata – Até que para um advogadozinho da capital tu estás se saindo bem.

O amigo, seguindo na frente, somente soltou uma gargalhada. Estava quase alcançando o trator quando, de maneira abafada, Batata ouvira um barulho sobre si.

Buscou a lanterna no bolso da calça, sacando-a em seguida. O som persistia poucos metros acima de si. Mirou então a luz para cima, esperando encontrar a causa do som.

Não pode distinguir muito bem, pois tudo ocorrera muito rápido. Um vulto caiu sobre si, emitindo um grito agudo ensurdecedor.

Apavorado, Sorriso voltara-se em direção ao amigo. Na afobação de montar a postura ofensiva a lanterna chocara-se com a pistola, desprendendo das mãos do rapaz e caindo no chão. A sorte é que seu feixe iluminou, ainda que parcamente, o soldado.

Estava deitado no chão, com uma mão segurando o pescoço da criatura, que a debatia-se tentando abocanhar-lhe a face, enquanto as unhas tentavam rasgar seu peito.

O advogado não pudera deixar de notar que se tratava de uma pequena menina, com um vestido que deveria ter sido de um branco puríssimo algum dia. Era estranho ela causar tanto esforço ao homem negro e alto.

- Sorriso, atira caralho! – exclamou o soldado, perdendo aos poucos a disputa de força, enquanto tentava com a mão esquerda alcançar a arma que caíra ao seu lado.

Como que despertando de um transe, o rapaz disparara quatro vezes na garota que, então silenciara os gritos.

- Tu tá legal, Batata? – disse aproximando-se correndo do amigo.

Ele suado, com os olhos esbugalhados, balançara a cabeça positivamente enquanto tocava o corpo da menina para o lado.

- Inferno – disse, aceitando a mão que Sorriso lhe estendia.

Ambos ficaram em pé fitando a garota com o olhar petrificado no teto. Eles já eram amigos a bastante tempo para não precisarem dizer sequer uma palavra nessa situação. Talvez até mesmo um desconhecido pudesse ler em suas faces uma expressão profunda de desgosto e tristeza que ambos estavam sentindo naquele momento.

Permaneceram em silêncio durante algum tempo, até que a voz de Batata partiu de maneira meio rouca.

- Pela força que ela tinha acho que era uma forçuda.

- Achei isso também.

O homem negro então passou o antebraço pela testa, secando o suor abundante que se acumulara ali.

- Ei Sorriso.

- Diga

- Me prometa uma coisa… – pediu, encarando o homem a sua frente de maneira séria.

O amigo sabia exatamente o que Batata iria lhe pedir depois do ataque da menina, e cortou.

- Sim, fique tranqüilo. Eu farei. E espero que tu faças o mesmo por mim se isso acontecer.

Ambos balançaram a cabeça de maneira positiva, seguindo, assim, em direção ao veículo no fundo do galpão.


Written by Andrey Ximenez in: Andrey Ximenez,Contos,Escolhas na Escuridão | Tags: ,

24 Comments»

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Muito bom Andrey.
    Batata vai ficar com uma cicatriz do caralh*!

    Continue assim! Essa história está ficando cada vez melhor!

  • Patch. says:

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    Não se deve jamais apontar a lanterna pra uma Witch…XD

    Essa é sem dúvida uma das minhas histórias favoritas aqui no ONE. Keep working!

  • Vinicius Maboni says:

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    Depois do Fear, garotinhas de branco me aterrorizam cara!
    uahauh
    Muito bom Andrey.

  • Asami says:

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    Andrey, você é o cara :D ! Está ficando cada vez melhor, esse capítulo em especial marcou demais pela ação, pela tensão que passa ao leitor. Adorei *-*

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    Quando veremos mais continuações de Escolhas na Escuridão???

    Estou com saudades da Ster!

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Bom, vou fazer minha então para que esse conto saia da agenda e uma nova parte seja publicada aqui. Gostei bastante da ação e da interação dos personagens durante a luta. Sempre temos que prestar atenção ao PDV em que a cena vai ser escrita. Esse PDV nunca pode mudar. Trabalho com um cara fera em técnicas de escrita comercial e uma das coisas que aprendi é que os famosos advérbios devem sempre ser evitados por segurarem demais a trama.

    Andrey, gostei do seu estilo. Sua história flui muito bem.

    Abrazzo Ragazzo

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      Gostei dessa dica Ricardo, e anotei aqui. Evitar advérbios. Principalmente em cenas com muita ação! =D

      E bem, será que enfim este conto saí da agenda? Espero que sim. Já faz um bom tempo que quero ver a continuação!

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Opa gurizada!
      -
      Malz pela demora em responder.
      -
      EU vou me “defender”, mas se eu estiver enganado me corrija, ok?
      -
      Primeiro admito que não reconheço a sigla PDV.
      -
      Segundo, não sei até onde as táticas de escrita comercial são efetivas e funcionais em literatura. Claro, adverbios em excesso sempre pesam o texto, como outros tipos de classes também. Mas creio que seja meio dificil se descrever um combate, ou uma descrição de ação relativamente longa sem empregar advérbios. à mim não pareceu demasiado. Pondere sobre isso Ragazzo, e se discordar por favor me diga.
      -
      Fora isso, valeu pela critica elaborada, eu já sabia dessa questão, mas é sempre bom se pensar ela sobre outros angulos

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    Tá uma confusão esta série de contos. Digo, no sentido qual é o primeiro, e qual é o seugndo.. etc.. :o

  • antonio carlos says:

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    ai andrey eo antonio, foda esse teu conto muito bom eu escrevi um quando sair tu le é: o legado do super pai
    mais uma coisa onde estao meus jogos kkkkk brincadeira abraço cara

  • Omninerd says:

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    Hehe, contos de zumbi… Gostei, gostei.

  • tim says:

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    Demorei.Mas consegui ler,muito bom.
    Valeu mano!

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