Fred
Escritora: Samila

O Fred é o meu melhor amigo, daqueles que você sabe que nunca terá igual.
Antes de conhecê-lo, eu tinha muito medo dele, especialmente de noite. O barulho que ele fazia bem quando eu estava prestes a dormir era algo semelhante a um fungado muito assustador, e o fato dele se esconder sempre que eu usava uma lanterna para olhar debaixo da cama não era algo que normalmente poderia ser descrito como a ação de alguém confiável. Isso para não citar o fato que ele tinha dentes enormes e afiados, braços muito compridos, quatro olhos e ainda fedia a roupa suja.
Meu irmão mais velho dizia que ele gostava de comer crianças pequenas, do meu tamanho. Que tinha sido ele que tinha devorado o Antonio, lá da rua debaixo, e por isso os pais dele haviam se mudado… Eu não acreditava, o Pedro sempre foi um grande mentiroso, afinal… Mas sabe como é, né? Por via das dúvidas…
Passei bom tempo com medo, chegando ao extremo de quase morrer de sede, apenas para não ter que pisar no chão durante a noite, no escuro. Meus pais não acreditavam em mim, diziam que não tinha nada lá debaixo, que era só a minha imaginação, e por isso se recusavam a me deixar dormir com a luz do quarto acesa. Eu era um ‘menino grandinho’, e por isso deveria dormir no escuro, não importava o fato de eu ter sido obrigado a fazer xixi na cama três vezes, impossibilitado de ir ao banheiro.
A coisa só começou a mudar quando eu quebrei a perna. Foi de noite, e eu estava realmente com muita sede, certo de não conseguiria dormir sem ir à cozinha para tomar um copo com água. Determinado, olhei à minha volta e estudei cuidadosamente o meu quarto, tendo enfim a ideia genial! Sai da cama para cima do criado mudo, então pulei na estante de livros e brinquedos. Minha ideia era alcançar a escrivaninha e assim a cadeira, que por ser de rodinhas, poderia com um impulso me levar em segurança até a porta. Meu plano era perfeito, mas deu errado no momento em que a estante simplesmente virou em cima de mim.
A perna engessada justo durante as férias não poderia ser pior, ou poderia, já que eu teria que ficar um bom tempo de cama e o meu quarto ficava no segundo andar, longe do sofá e da televisão…
No segundo dia minhas histórias em quadrinho já tinham acabado e eu já estava morrendo de tédio. Meu irmão deveria estar jogando futebol na rua, meu pai trabalhando e minha mãe limpando a casa. Eu estava sozinho, inválido e abandonado. Ninguém estava disposto a me fazer companhia, excerto… Foi aí que eu finalmente me dispus a prestar um pouco mais de atenção no monstro… Como ainda era de dia, eu não estava com medo… Quer dizer, estava, mas bem pouquinho!
Fazendo um certo malabarismo, eu consegui olhar para debaixo da cama sem mexer muito a perna quebrada, e vi o Fred lá. Com a luz era mais fácil entender como ele era de fato. Aqueles dentes enormes eram feitos de grandes e afiados pedaços de giz de cera perdido, seus braços gigantescos que me faziam ter pesadelos com a possibilidade de algum dia subirem pela cama a me agarrarem, eram na verdade aquele moletom azul que a vovó havia me dado no natal e eu pensava que jamais veria novamente na vida. Seus quatro olhos eram feitos das rodas de um carrinho meu que eu havia desmontado há algum tempo. Seu corpo era todo feito de meias de diferentes cores e bonecos dos Cavaleiros do Zodíaco e dos Power Rangers. Não pude deixar de pensar no quão legal deveria ser ter um corpo como o dele.
Ele parecia estar dormindo agarrado àquele meu tênis que eu sabia que estava debaixo da cama, mas morria de medo de procurar. Ele parecia bem tranqüilo, algo me dizia que no fundo ele estava tão infeliz quanto eu. É tão triste ficar o dia todinho no quarto, sem ninguém para conversar ou brincar com você… Onde será que estava a mãe dele? E o que ele comia? Será que ele tinha um irmão chato igual ao Pedro? Passei o resto do dia pensando naquelas coisas, e assim que a noite veio, eu me apressei em puxar conversa com ele.
Ele era bem tímido, estranhou minha tentativa de aproximação à princípio, mas logo se abriu comigo (especialmente depois que eu lhe ofereci meu copo de leite e as cascas do sanduíche que a mamãe havia trazido para mim). Ele me contou que costumava comer poeira e pedaços de brinquedos quebrados que eu não queria mais, mas que não era nada gostoso. Ah, ele também costumava caçar os duendes que apareciam pelo meu quarto, e me garantiu que embora eu não pudesse vê-los, eram muitos! E isso explicava muita coisa, afinal, eram os duendes que escondiam minhas coisas e me colocavam doido procurando pelos meus óculos ou pela minha lição de casa. E ele também me garantiu que não comia crianças, pois crianças, apesar de pequenas, ainda eram grandes demais para ele mastigar. Ele preferia mil vezes comer biscoitos.
Foi assim que eu e o Fred viramos melhores amigos. Eu podia contar tudo que eu quisesse para ele, que ele sempre me ouvia e me dava bons conselhos. De vez em quando ele sumia sem dar avisos, geralmente quando a mamãe fazia alguma faxina no meu quarto… Mas depois de uns dias ele voltava, um pouco diferente, com braços menores, dentes maiores, seis olhos, uma infinidade de coisas… Mas ele sempre voltava, e sempre prometia que seria meu melhor amigo eternamente.
Hoje eu tenho dezesseis anos e eu e o Fred ainda somos melhor amigos. Ele mudou de lugar, não vive mais debaixo da minha cama, mas sim dentro do meu armário. Não tem mais dentes gigantes e coloridos, nem brinquedos formando seu corpo, e eu não preciso mais dar-lhe coisas gostosas para comer… Ele tá maior, meio velho, mais lerdo, sabe? Não é mais tão bom caçador de duendes, e por isso minhas coisas somem com mais freqüência do que antes… Mas ainda é tão bom amigo e conselheiro quanto antes, embora ultimamente eu o tenha procurado menos… Acho que faz parte dessa coisa se crescer… Pelo menos ainda nos divertimos quando eu o reviro e faço cócegas nele enquanto procuro por alguma roupa específica no armário. O fato é que eu não consigo imaginar minha vida sem o Fred.
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Esse eu tinha lido no Nyah! e meu seguinte pensamento sobre ele é: eu quero ser a Sami-chan quando crescer. *-*
Não é justo, porque ela tem que escrever tão bem em todos os estilos?!? x_x
-
No conto fiquei na dúvida se o menino estava só imaginando, tendo uma crise esquizofrênica ou se Fred é mesmo real… Ficou uma coisa bem Neil Gaiman… Na verdade, lembrei do conto dele “A Ponte do Troll” enquanto lia, apesar das histórias não terem narrativas semelhantes.
E é justamente essa parada do real que torna o texto mais interessante. Mas no final das contas não é importante se é real-real, basta ser real pro garota… o texto é sobre o ponto de vista dele, do mundo maluco que ele via.
Ouxi, que fofoooo! E bem, se o fred é real eu não sei, mas de uma coisa eu tenho certeza: esses malditos duendes são mais do que reais!! GRRRRR!!! E nhai, nem conheço esse conto, vou procurar =D
Muito bom esse conto. Muito mesmo.
Quando o li pela primeira vez, me senti o pirralho. E só os bons conseguem fazer isso, garota. Parabéns, Samila.
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Justo quando eu pensava que só eu gostava de escrever sobre esse tema.
Espero que tenha mais gente escrevendo sobre pirralhos – é sempre tão legal! (pelo menos do jeito que você e a Samila escrevem)
@Sami: deixei um comentário no seu blog sobre o texto.
mas, é isso – gracinha de conto!
E adorei mesmo a teoria dos duendes
HUAhaua, acho que também me senti pirraia enquanto o escrevia…. E bem, eu adoro ler sobre esse tema, ao menos, escrever foi a primeira vez, e isso para não mencionar que o conto foi rabiscado em uma mesa de bar, né? XD
E Ana, eu já te disse… Os duendes não são teoria… Eles são reais!!! Eles adoram fazer travessuras! se uma coisa sua sumir, você já sabe quem foi!
Samila, ainda tens uns errinhos de português, libertar os parágrafos e tals, mas a história é uma gracinha. Leve, gostosa de ler…até ia pedir mais disso…
Quem não tem suas crises de esquizofrenia, afinal?
Vou revisar isso, juro que vou. Mas que fiquei claro: qualquer erro de digitação não estava aí originalmente. Foram os duendes que editaram o texto, juro!!!
Obrigada, Elcio! XD
Que fofo! A narrativa desse conto está muito singela e até mesmo infantil no início ao passo que cresce à medida que o próprio personagem cresce e nos leva acompanhar seu crescimento o que me leva à dúvida geral quanto a veracidade do Fred, visto que, depois de grande o garoto pararia de brincar com ele se ele fosse apenas um amigo imaginário. Mas como disse Israel, o que importa é que ele existiu para o garoto e para mim o que importa é que rendeu um lindo conto *—–*
Samila tinha até esquecido que tinha postado esse conto aqui XD
e sim, eu queria mesmo deixar essa dúvida… se o fred era real, ou se o muleque é pirado XD
e nhaiii… obrigada! *-*
Pra mim o Fred é real, uma vez que é real para o garoto que o vê. Enquanto o menino continuar tendo esse contato com o amigo, ele nunca vai deixar de existir *–*
Amei esse conto,me lembra os tempos de infância. XD
Rá,eu sabia que duendes existem,sempre roubam minhas coisas.
Esse Fred viu,não sei se era imaginário,real ou o garoto tinha ficado louco.
Ainmm… que bom =D
e bem, eu sou vítima costumeira dos malditos duendes! >.<
e bem… eu acho que o fred é real, afinal, ele é meu XD
Samila! Me senti o menino. Tão legal. Tão legal mesmo.
É divertido ver a fantasia pura da mente de uma criança e a descoberta do “real”. Muito bom. Simples e gostoso de ler.
Eba!! que bom que gostou! =]
Tá aí um belo exemplo de como entrar no corpo do personagem. Um belo conto que dá até aquela sensação de nostalgia.
Obrigada, Rafael! Fico feliz se consegui passar um ‘gostinho de infância’
gostei, bem interessante!
=D
Obrigada!
adorei, bem escrito e inteligente.
só achei o personagem principal muito articulado
para uma criança, mas isso é o de menos
Parabens!
isso que você apontou é fato!
como eu tenho costume de escrever para adulto, manter a linguagem simples é um mega desafio para mim. Tentarei melhorar no meu próximo conto infantil (se eu escrever mais um)
Obrigada pela leitura”
Volta infância…
p.s: parágrafos juntos fazem a minha visão embaralhar
a minha também! é formatação, no caso, pois não gosto de dar ‘enter’ duas vezes, e sim usar a distância entre parágrafos =/
Ajeita, guns?
Como assim paragrafos juntos?! Estão separados.. isso que eu tive de dar os enters, pq a senhorita Samila enviou eles todos grudados.
Que cont… Que con… que cont… Sem palavras,se eu for digitar tudo que achei não vai caber.Enfim muito bom!Gostei!
Obrigada ^^
Ah, Guns, que fofa a img!
Gostei demais da imagem! Guns se superando!
Que fofa?! É um mosntro saindo debaixo da cama!!!
por isso é fofo =D Monstros!
Lol,mt legal o texto.Parabéns
valeu!
Enquanto eu lia me lembrei de como adorava as histórias do Calvin e de quanto gostava de um desenho chamado o Fantástico Mundo de Bob. Interessante que quando eu leio estes textos… Epa… Espera aí… O Golias acabou de fugir de novo… Seu eu não trouxer ele pra debaixo da cama não consigo dormir…
Belo texto Samila! Abração!
Ah, adorava o Mundo de Bob também! Calvin eu vim ler depois de adulta, mas adorei também!
e nossa! vá atrás do Golias! Vá!
Muito legal o conto. Gostei pacas!
êba =D
Olá, Samila! Eu já havia lido ‘Fred’ no seu blog. VOCÊ TEM QUE FAZER ESSE CONTO VIRAR LIVRO! rsrss. Verdade! Foi uma excelente roupagem que você criou para os já desgastados “monstros debaixo da cama”… Criatividade pura!!!
Beijo!
HUahuaa, muito Obrigada! E bem, sobre fazer virar livro é complicado, precisaria de outros para acompanhá-lo, e por horo, nada me surge XD
Ah! Mais uma coisa: POR FAVOR! POSTE ‘A CANÇÃO DO CARRASCO’… rsrs… QUERO LER!!!
Sobre A Canção do Carrasco, eu a tirei do ar por causa da publicação na antologia ‘Sinistro! 2′, então, quem quiser ler teria que comprar o livro XD
Mas eu digo que foi um dos melhores contos que já escrevi. =*
Nossa, suas descrições são bem interessantes e você conseguiu passar de forma bastante satisfatória as reações do garoto diante do fantástico. Afinal, nenhum garoto resistiria a um corpo composto de bonecos de Cavaleiros do Zodíaco e power rangers! hahahaha
Parabéns pelo trabalho, hein!
(Vi apenas alguns erros de português, mas nada que atrapalhasse o deleite na leitura)
Muito obrigada, Antônio! És muito gentil. E bem, devo dizer que eu fui uma criança frustrada por nunca ter conseguido soltar o Pó de Diamante junto com o Hyoga… Então os bonecos eram uma válvula de escape XDxD
e bem.. REVISÃOOOOO… juro que vou revisar, juro XD
Já o meu complexo era de soltar um Cólera do Dragão e fazer a água do chuveiro correr ao contrário! hahahaa
eu queria antes de mais nada alcançar o sétimo sentido… Depois notei que isso era besteira, e a coisa era alcançar o 8°!
Quando eu li esse conto, sem querer na internet não tinha onde comentar no site. Se não me engano um site de fanfic,mas to felizérrima em encontrá-lo aqui. Porque eu sou completamentes apaixonado por ele,só me sinto tristinha por nunca ter tido meu Fred =/
Bem, como sempre Samilla arrasou
aHHhhh.. mas aida dá tempo de criar um Fred só para você, linda! Freds são quimeras, para criar uma quimera, só precisa sonhar! =D
bjs
Show de bola…
O que seria um provável conto de terror, tornou-se um simpático conto infanto-juvenil, mas sem as babaquices típicas. A descoberta de Fred, as conversas travadas e o envelhecimento dos dois foi algo muito legal, bem pensado mesmo.
Sabe, creio que todos nós temos um “amigo” como o Fred, daquele que sentimos uma enorme saudade, eternamente em nossos corações.
Parabéns.