Louco sim, mas com uma gota de adoçante!
Escritor: Ricardo Ragazzo

Edvaldo observou com calma a entrada do homem na sala. O rapaz era o clássico arquétipo do advogado, elegante terno de grife, gel no cabelo e ar de superioridade. E olha que aquele estava longe de ser um figurão em seu escritório, caso fosse, jamais seria escolhido para prosear com um louco. O advogado sentou-se à sua frente, confortado pela presença de três volumosos enfermeiros que visavam conter algum possível ataque de loucura.
- Dr. Edvaldo, agora que passou o prazo de sua internação judicial, o senhor não gostaria de se submeter ao crivo de um especialista que possa lhe dar alta?
- Já disse que não. Se o mundo lá fora é são, então me digo louco com orgulho.
- Veja bem, Dr. Edvaldo, o senhor não é louco, apenas passou por alguns momentos difíceis. Só isso.
- Momentos libertadores, isso sim. Libertadores, ouviu bem, meu rapaz?
- Foi apenas uma crise de estresse, nada mais. Todos nós estamos suscetíveis a isso. O Conselho de Diretores o aceitaria de volta, se somente o senhor passasse pelo crivo de um especialista que atestasse sua sanidade, eles…
- Me aceitariam? ME ACEITARIAM?!?!? Aquela empresa é minha, caro jovem! Não sei se você sabe, mas a construí com minhas próprias mãos! Além do mais, quem disse que quero voltar pra perto daquele bando de urubus? Eles é que são loucos, assim com eu fui um dia. Mas não mais. Não mais.
- E o senhor prefere ficar preso aqui dentro? Solitário?
- Preso? Solitário? Ah, meu inocente rapaz, a verdadeira liberdade está aqui. – falou apontando o dedo para a cabeça – Graças a minha sanidade posso estar onde quiser e com quem eu quiser. Basta-me fechar os olhos. Por exemplo, agora – disse ele fechando os olhos e encostando a cabeça na parede – estamos tendo essa conversa à beira-mar. Posso sentir a brisa espantando o calor do meu rosto, além de observar, também, a moça ao lado fustigando-lhe com os olhos. É, meu jovem, tenho certeza que você adoraria estar dentro da minha cabeça agora. Que bela rapariga… – abriu os olhos novamente e fitou o advogado com curiosidade, até que perguntou: Estava boa a caipirinha?
- Caipirinha? Que caipirinha? O senhor, definitivamente, perdeu o juízo.
- É, pode ser, mas ganhei minha liberdade. Parece-me um preço justo.
- Desculpe-me pela sinceridade, mas tudo isso é irreal.
- É real para mim. Já é o suficiente. Ah, garoto, se soubesse quanto tempo desperdiçamos nos adequando às realidades dos outros. Cada um tem seus próprios valores, e cada valor tem seu grau de loucura. A honestidade, por exemplo, é um valor social importantíssimo para a maioria das pessoas, mas quando alguém se prejudica em razão dela, acabamos taxando-o de louco, nunca de honesto. Um tanto quanto paradoxal, não concorda?
- Sim, mas…
- Mas nada, meu bom rapaz! É a realidade individual que cria os valores que determinam o que é loucura para cada um de nós. Para um surfista, alguém não gostar de praia é loucura. Para um malandro da vida, trabalhar 12 horas por dia é loucura. Para você, o conselho-diretor e a maioria das pessoas, eu abandonar tudo que construí é loucura. Pra mim, loucura seria continuar. O que quero dizer com isso é que taxamos de loucura aquilo que não entendemos.
O jovem advogado ficou ali parado, fascinado pelas palavras de alguém que conseguia produzir nele um sentimento que antes daquela conversa jamais imaginaria que pudesse ter: Inveja de um louco.
- Rapaz, disseste para mim que sou louco, Mas, agora, eu lhe pergunto: E quem não é? Sou louco sim, mas minha loucura vem com uma gota de adoçante, pra me ajudar a digeri-la melhor, sabe? Já a sua, caro colega, vem acompanhada do amargo gosto da ilusão. Da ilusão de que não é, assim como todos nós, um pouco louco. Só aqui dentro descobri que a loucura nada mais é que a sanidade em seu estado mais pleno. Ela é uma sanidade livre das algemas sociais, que permite a nós, loucos, vivermos na realidade que escolhemos. Se você pudesse morar em um mundo em que todos seus desejos e vontades fossem realizados, um mundo onde sua felicidade seria sempre plena e absoluta, você abriria mão dele? Provavelmente não, certo? Então, meu filho, eu achei minha melhor versão da verdade, e abandoná-la, seria loucura! – finalizou rindo com o trocadilho.
Essa foi a última coisa que Edvaldo falou antes de deixar a pequena sala acompanhado dos enfermeiros. O jovem advogado havia falhado em sua missão. O estatuto da empresa impedia que o conselho diretivo expulsasse do seu quadro de diretores uma pessoa doente ou incapaz, e a loucura de Edvaldo se enquadrava naquele impedimento. Não demorou muito para seu telefone tocar após a notícia de seu insucesso ser comunicada a seus chefes. Os gritos e ameaças disparados pelo homem do outro lado da linha eram ignorados pelo advogado que mantinha, fixadas na mente, palavras como ilusão, sanidade, loucura e liberdade. Freou o carro bruscamente quase causando um acidente na avenida em que trafegava. Ao sair do automóvel e sentir a brisa em seu rosto, começou a se despir. Primeiro a gravata, depois a camisa. Sapatos, cinto e calça foram os próximos, seguidos pela cueca.
Assim que a polícia chegou, foi algemado, preso e levado à delegacia. E lá, nu, solitário, sentado no chão frio de uma escura cela de delegacia, Pablo sentiu-se tão livre quanto um passarinho.
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Um texto bem humorado, e eu concordo com tudo, todos somos loucos!
Thaina, que bom que você pegou o espírito desse texto. Estamos todos internados nesse hospício redondo e azul!!
Abrazzo Ragazzo
Que coisa louca! adorei! e bem, quantas vezes já não me vi em pensamentos semelhantes? o.o’
Que bom que gostou, Samila. Tentei ser o mais realista possível nos argumentos. Também tive e tenho pensamentos semelhantes. Acho que todos nós temos, né?
Abrazzo Ragazzo
Como você conseguiu passar essa mensagem de uma forma tão natural?
–
É um artigo psicológico colocado em um conto. Está simplesmente fantástico! Tão fantástico que nem parece um artigo! =D
–
Que maravilhoso, cara. Realmente amei este texto!
Valeu, meu companheiro de escrita!
Que bom que tenha gostado! Dá uma olhada num conto chamado “Xeque-Mate” quando tiver um tempo. Gosto muito daquele conto. (apesar de nos comentários, eu ser “acusado” de plágio) hehehe
Fico feliz que tenha gostado, caro companheiro de escrita.
Quando escrevemos, buscamos exatamente essa reação nos nossos leitores.
Sou amante da psicologia (de maneira amadora) e me fascino ao observar as pessoas e suas diferenças. Somos como um livro aberto escrito em braile. Não é fácil, mas com esforço dá para ler qualquer ser humano. E eu gosto dessa leitura!
Abrazzo!
Procuro um livro aberto escrito em braile do sexo feminino. Sem yaoi por aqui, blz!
–
Qualquer interessada favor postar um comentário! Não pouparei esforços para lê-la! hehehe…
Você é um figura mesmo!
Abrazzo!
Adorei!!! “De médico e louco, todo mundo tem um pouco!” Esse tipo de loucura saudavel é uma libertação que muitos tentam, mas nem todos conquistam.
Nossa, Matheus, você acabou de me fazer lembrar daquela comédia homônima com o Bill Pullman!!! Valeu pela lembrança! Vou procurar na locadora!!! Ando precisando rever clássicos da comédia para rir um pouco. Gene Wilder e Richard Pryor eram demais!!
Abrazzo Ragazzo
Simplesmente encantador. Sempre vi a loucura não como um distúrbio mental, mas como válvula de escape dessa realidade tão chata. Como vi, li ou ouvi uma vez: o que seria o mundo sem os loucos, se são eles as únicas pessoas que conseguem encontrar sentido na vida e vivê-la plenamente? Bem… o que posso dizer senão que adorei o conteúdo desse conto e sua abordagem? Parabéns, Ricardo, adorei.
Muito obrigado, Asami! Seus comentários são sempre muito interessantes.
Abrazzo Ragazzo
Muito bom. O diálogo, apesar de conter falas longas, é perfeitamente plausível e ligado a realidade rápida de uma conversa. O fim fecha com o começo, e isso é bom e ruim.
-
Não sei se todos tiveram a mesma sensação que eu, mas eu já sabia que ele iria fazer uma lavagem cerebral no amigo advogado.
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Meio lugar comum o tema, mas com uma pintura muito boa.
Valeu pelo comentário, Andrey. Na verdade, o conto tem uma extended version que é uma curva de 180o. Foi uma final alternativo que muda completamente a moral da história.
Abrazzo Ragazzo
XD Muito bom, adorei! Como a Thaina disse: todos somos loucos! Mesmo. =D
Valeu, Vinícius! Que bom que tenha curtido!
Abrazzo Ragazzo
Fantástico,acho que penso do mesmo geito que o personagem. XD
Afinal,não somos nós todos loucos?
Peregrina, é isso aí! Essa é a ideia, apesar de eu não me considerar nem um pouco louco, infelizmente.
Abrazzo Ragazzo
Fiquei mais louco ainda depois de ler esse conto…
Hm, acho que funcionaria em um conto maior. Foi tudo rápido de mais. Não deu para aproveitar bem nem para justificar a mudança do advogado. Acho.
Sem dúvida, Vitor. Mas o principal nesse conto é a mensagem mesmo. Ela funcionaria da mesma forma sendo o conto longo ou curto. Na verdade, dificilmente em um conto curto (sem comentar os contos de 80 páginas do Stephen Kings – que na verdade são Short Stories) hea tempo para se trabalhar a fundo um personagem. Contos focam bastante em mensagens, troca de experiências, cotidiano, fato extraordinário, enfim.
Mas não tiro sua razão. Tente ver o advogado como um recém-formado predisposto a absorver a mensagem porque escolheu a profissão por livre e espontânea pressão do pai. Pronto! Temos um advogado bastante suscetível.
Abrazzo Ragazzo
Demorei para arranjar uma imagem para este conto..
–
Mas gostei da história, tem uma mensagem legal.
Mas escolheu muito bem a imagem, Gun!
Abrazzo Ragazzo
Gostei, principalmente pela mensagem. Outra qualidade: a narrativa é toda descrita no diálogo tornando a leitura bastante agradável.
Gosto de contos curtos, eles vão direto ao assunto sem muita firula. Isso não significa que não aprecio contos longos também, cada qual com suas vantagens.
Fala, Daniel! Valeu pelo comment. Cada texto tem seu charme mesmo. Se você gostar de contos longos, leia um do Stephen King chamado “Ex-fumantes LTDA” é sensancional.
E se tiver tempo, depois da uma olhada nos outros contos que tenho por essas bandas!
Abrazzo Ragazzo
Valeu Ricardo, dica anotada vou ver sim e certamente vou ler os outros contos seus. ^^
Muito bom Ragazzo seus textos nos passam um espírito animador.Você tem dom para ser escritor do tipo filósofo,como disse nossa amiga Thainá “Todos Somos Loucos”.
Muito Bom!
De médico e louco… rsrs
Olá, Ricardo! Excelente conto, apesar de um pouco previsível… A forma como você conduziu a reflexão proposta foi perfeita! ADOREI! Abraços.
Aplaudo vosso talento, meu senhor!
Adorei ler o seu texto. Primeiro porque insânia e todos os seus reflexos relativizadores da realidade são um assunto sobre o qual tenho grande prazer em ler; segundo porque vc transforma o diálogo numa espécie de ensaio romantizado, outra característica que gosto bastante, desde que bem feito (como o seu).
Congratulações!
Obrigado, Antonio! Um comentário bastante interessante e estimulante.
Há outros contos meus aqui se tiver interesse.
Abrazzo Ragazzo
Pode deixar, certamente os visitarei conforme a ocasião o permitir!
Continue escrevendo, meu amigo!
Muito bom!!!!
De verdade, concordo 100% a respeito da sanidade.
Tá de parabens!