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Apr
04
2011

Louco sim, mas com uma gota de adoçante!

Escritor: Ricardo Ragazzo

louco-sim-mas-com-uma-gota-de-adocante

Edvaldo observou com calma a entrada do homem na sala. O rapaz era o clássico arquétipo do advogado, elegante terno de grife, gel no cabelo e ar de superioridade. E olha que aquele estava longe de ser um figurão em seu escritório, caso fosse, jamais seria escolhido para prosear com um louco. O advogado sentou-se à sua frente, confortado pela presença de três volumosos enfermeiros que visavam conter algum possível ataque de loucura.

- Dr. Edvaldo, agora que passou o prazo de sua internação judicial, o senhor não gostaria de se submeter ao crivo de um especialista que possa lhe dar alta?

- Já disse que não. Se o mundo lá fora é são, então me digo louco com orgulho.

- Veja bem, Dr. Edvaldo, o senhor não é louco, apenas passou por alguns momentos difíceis. Só isso.

- Momentos libertadores, isso sim. Libertadores, ouviu bem, meu rapaz?

- Foi apenas uma crise de estresse, nada mais. Todos nós estamos suscetíveis a isso. O Conselho de Diretores o aceitaria de volta, se somente o senhor passasse pelo crivo de um especialista que atestasse sua sanidade, eles…

- Me aceitariam? ME ACEITARIAM?!?!? Aquela empresa é minha, caro jovem! Não sei se você sabe, mas a construí com minhas próprias mãos! Além do mais, quem disse que quero voltar pra perto daquele bando de urubus? Eles é que são loucos, assim com eu fui um dia. Mas não mais. Não mais.

- E o senhor prefere ficar preso aqui dentro? Solitário?

- Preso? Solitário? Ah, meu inocente rapaz, a verdadeira liberdade está aqui. – falou apontando o dedo para a cabeça – Graças a minha sanidade posso estar onde quiser e com quem eu quiser. Basta-me fechar os olhos. Por exemplo, agora – disse ele fechando os olhos e encostando a cabeça na parede – estamos tendo essa conversa à beira-mar. Posso sentir a brisa espantando o calor do meu rosto, além de observar, também, a moça ao lado fustigando-lhe com os olhos. É, meu jovem, tenho certeza que você adoraria estar dentro da minha cabeça agora. Que bela rapariga… – abriu os olhos novamente e fitou o advogado com curiosidade, até que perguntou: Estava boa a caipirinha?

- Caipirinha? Que caipirinha? O senhor, definitivamente, perdeu o juízo.

- É, pode ser, mas ganhei minha liberdade. Parece-me um preço justo.

- Desculpe-me pela sinceridade, mas tudo isso é irreal.

- É real para mim. Já é o suficiente. Ah, garoto, se soubesse quanto tempo desperdiçamos nos adequando às realidades dos outros. Cada um tem seus próprios valores, e cada valor tem seu grau de loucura. A honestidade, por exemplo, é um valor social importantíssimo para a maioria das pessoas, mas quando alguém se prejudica em razão dela, acabamos taxando-o de louco, nunca de honesto. Um tanto quanto paradoxal, não concorda?

- Sim, mas…

- Mas nada, meu bom rapaz! É a realidade individual que cria os valores que determinam o que é loucura para cada um de nós. Para um surfista, alguém não gostar de praia é loucura. Para um malandro da vida, trabalhar 12 horas por dia é loucura. Para você, o conselho-diretor e a maioria das pessoas, eu abandonar tudo que construí é loucura. Pra mim, loucura seria continuar. O que quero dizer com isso é que taxamos de loucura aquilo que não entendemos.

O jovem advogado ficou ali parado, fascinado pelas palavras de alguém que conseguia produzir nele um sentimento que antes daquela conversa jamais imaginaria que pudesse ter: Inveja de um louco.

- Rapaz, disseste para mim que sou louco, Mas, agora, eu lhe pergunto: E quem não é? Sou louco sim, mas minha loucura vem com uma gota de adoçante, pra me ajudar a digeri-la melhor, sabe? Já a sua, caro colega, vem acompanhada do amargo gosto da ilusão. Da ilusão de que não é, assim como todos nós, um pouco louco. Só aqui dentro descobri que a loucura nada mais é que a sanidade em seu estado mais pleno. Ela é uma sanidade livre das algemas sociais, que permite a nós, loucos, vivermos na realidade que escolhemos. Se você pudesse morar em um mundo em que todos seus desejos e vontades fossem realizados, um mundo onde sua felicidade seria sempre plena e absoluta, você abriria mão dele? Provavelmente não, certo? Então, meu filho, eu achei minha melhor versão da verdade, e abandoná-la, seria loucura! – finalizou rindo com o trocadilho.

Essa foi a última coisa que Edvaldo falou antes de deixar a pequena sala acompanhado dos enfermeiros. O jovem advogado havia falhado em sua missão. O estatuto da empresa impedia que o conselho diretivo expulsasse do seu quadro de diretores uma pessoa doente ou incapaz, e a loucura de Edvaldo se enquadrava naquele impedimento. Não demorou muito para seu telefone tocar após a notícia de seu insucesso ser comunicada a seus chefes. Os gritos e ameaças disparados pelo homem do outro lado da linha eram ignorados pelo advogado que mantinha, fixadas na mente, palavras como ilusão, sanidade, loucura e liberdade. Freou o carro bruscamente quase causando um acidente na avenida em que trafegava. Ao sair do automóvel e sentir a brisa em seu rosto, começou a se despir. Primeiro a gravata, depois a camisa. Sapatos, cinto e calça foram os próximos, seguidos pela cueca.

Assim que a polícia chegou, foi algemado, preso e levado à delegacia. E lá, nu, solitário, sentado no chão frio de uma escura cela de delegacia, Pablo sentiu-se tão livre quanto um passarinho.


Written by Ricardo Ragazzo in: Contos,Ricardo Ragazzo | Tags: ,

34 Comments»

  • Thaina Gomes says:

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    Um texto bem humorado, e eu concordo com tudo, todos somos loucos!

    • Ricardo Ragazzo says:

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      Thaina, que bom que você pegou o espírito desse texto. Estamos todos internados nesse hospício redondo e azul!!

      Abrazzo Ragazzo

  • Samila says:

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    Que coisa louca! adorei! e bem, quantas vezes já não me vi em pensamentos semelhantes? o.o’

    • Ricardo Ragazzo says:

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      Que bom que gostou, Samila. Tentei ser o mais realista possível nos argumentos. Também tive e tenho pensamentos semelhantes. Acho que todos nós temos, né?

      Abrazzo Ragazzo

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Como você conseguiu passar essa mensagem de uma forma tão natural?

    É um artigo psicológico colocado em um conto. Está simplesmente fantástico! Tão fantástico que nem parece um artigo! =D

    Que maravilhoso, cara. Realmente amei este texto!

    • Ricardo Ragazzo says:

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      Valeu, meu companheiro de escrita!

      Que bom que tenha gostado! Dá uma olhada num conto chamado “Xeque-Mate” quando tiver um tempo. Gosto muito daquele conto. (apesar de nos comentários, eu ser “acusado” de plágio) hehehe

  • Ricardo Ragazzo says:

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    Fico feliz que tenha gostado, caro companheiro de escrita.

    Quando escrevemos, buscamos exatamente essa reação nos nossos leitores.

    Sou amante da psicologia (de maneira amadora) e me fascino ao observar as pessoas e suas diferenças. Somos como um livro aberto escrito em braile. Não é fácil, mas com esforço dá para ler qualquer ser humano. E eu gosto dessa leitura!

    Abrazzo!

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Procuro um livro aberto escrito em braile do sexo feminino. Sem yaoi por aqui, blz!

      Qualquer interessada favor postar um comentário! Não pouparei esforços para lê-la! hehehe…

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Adorei!!! “De médico e louco, todo mundo tem um pouco!” Esse tipo de loucura saudavel é uma libertação que muitos tentam, mas nem todos conquistam.

    • Ricardo Ragazzo says:

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      Nossa, Matheus, você acabou de me fazer lembrar daquela comédia homônima com o Bill Pullman!!! Valeu pela lembrança! Vou procurar na locadora!!! Ando precisando rever clássicos da comédia para rir um pouco. Gene Wilder e Richard Pryor eram demais!!

      Abrazzo Ragazzo

  • Asami says:

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    Simplesmente encantador. Sempre vi a loucura não como um distúrbio mental, mas como válvula de escape dessa realidade tão chata. Como vi, li ou ouvi uma vez: o que seria o mundo sem os loucos, se são eles as únicas pessoas que conseguem encontrar sentido na vida e vivê-la plenamente? Bem… o que posso dizer senão que adorei o conteúdo desse conto e sua abordagem? Parabéns, Ricardo, adorei.

    • Ricardo Ragazzo says:

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      Muito obrigado, Asami! Seus comentários são sempre muito interessantes.

      Abrazzo Ragazzo

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Muito bom. O diálogo, apesar de conter falas longas, é perfeitamente plausível e ligado a realidade rápida de uma conversa. O fim fecha com o começo, e isso é bom e ruim.
    -
    Não sei se todos tiveram a mesma sensação que eu, mas eu já sabia que ele iria fazer uma lavagem cerebral no amigo advogado.
    -
    Meio lugar comum o tema, mas com uma pintura muito boa.

    • Ricardo Ragazzo says:

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      Valeu pelo comentário, Andrey. Na verdade, o conto tem uma extended version que é uma curva de 180o. Foi uma final alternativo que muda completamente a moral da história.

      Abrazzo Ragazzo

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    XD Muito bom, adorei! Como a Thaina disse: todos somos loucos! Mesmo. =D

  • Peregrina says:

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    Fantástico,acho que penso do mesmo geito que o personagem. XD
    Afinal,não somos nós todos loucos?

    • Ricardo Ragazzo says:

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      Peregrina, é isso aí! Essa é a ideia, apesar de eu não me considerar nem um pouco louco, infelizmente.

      Abrazzo Ragazzo

  • Hamilton Saraiva says:

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    Fiquei mais louco ainda depois de ler esse conto…

  • Vitor Vitali says:

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    Hm, acho que funcionaria em um conto maior. Foi tudo rápido de mais. Não deu para aproveitar bem nem para justificar a mudança do advogado. Acho.

    • Ricardo Ragazzo says:

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      Sem dúvida, Vitor. Mas o principal nesse conto é a mensagem mesmo. Ela funcionaria da mesma forma sendo o conto longo ou curto. Na verdade, dificilmente em um conto curto (sem comentar os contos de 80 páginas do Stephen Kings – que na verdade são Short Stories) hea tempo para se trabalhar a fundo um personagem. Contos focam bastante em mensagens, troca de experiências, cotidiano, fato extraordinário, enfim.

      Mas não tiro sua razão. Tente ver o advogado como um recém-formado predisposto a absorver a mensagem porque escolheu a profissão por livre e espontânea pressão do pai. Pronto! Temos um advogado bastante suscetível.

      Abrazzo Ragazzo

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    Demorei para arranjar uma imagem para este conto.. :-|

    Mas gostei da história, tem uma mensagem legal. :-)

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Gostei, principalmente pela mensagem. Outra qualidade: a narrativa é toda descrita no diálogo tornando a leitura bastante agradável.
    Gosto de contos curtos, eles vão direto ao assunto sem muita firula. Isso não significa que não aprecio contos longos também, cada qual com suas vantagens.

    • Ricardo Ragazzo says:

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      Fala, Daniel! Valeu pelo comment. Cada texto tem seu charme mesmo. Se você gostar de contos longos, leia um do Stephen King chamado “Ex-fumantes LTDA” é sensancional.

      E se tiver tempo, depois da uma olhada nos outros contos que tenho por essas bandas!

      Abrazzo Ragazzo

  • tim says:

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    Muito bom Ragazzo seus textos nos passam um espírito animador.Você tem dom para ser escritor do tipo filósofo,como disse nossa amiga Thainá “Todos Somos Loucos”.
    Muito Bom!

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    De médico e louco… rsrs

  • Vânia says:

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    Olá, Ricardo! Excelente conto, apesar de um pouco previsível… A forma como você conduziu a reflexão proposta foi perfeita! ADOREI! Abraços.

  • Antonio M. de Souza says:

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    Aplaudo vosso talento, meu senhor!

    Adorei ler o seu texto. Primeiro porque insânia e todos os seus reflexos relativizadores da realidade são um assunto sobre o qual tenho grande prazer em ler; segundo porque vc transforma o diálogo numa espécie de ensaio romantizado, outra característica que gosto bastante, desde que bem feito (como o seu).

    Congratulações!

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Obrigado, Antonio! Um comentário bastante interessante e estimulante.

      Há outros contos meus aqui se tiver interesse.

      Abrazzo Ragazzo

      • Antonio M. de Souza says:

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        Pode deixar, certamente os visitarei conforme a ocasião o permitir!
        Continue escrevendo, meu amigo!

  • VInicius Maboni says:

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    Muito bom!!!!
    De verdade, concordo 100% a respeito da sanidade.
    Tá de parabens!

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