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Apr
27
2011

Maya

Escritora: Tayla Olandim

- E então você achou que tacar vinho na cara dele seria uma boa ideia…

- Não me olhe deste jeito! Ele mereceu!

- Talvez, mas, mesmo assim, ele era o seu chefe, menina maluca!

- Não muda o fato de que ele merecia. Além do mais, acabei nem ligando dele ter me despedido na frente de todo mundo. De qualquer forma, estou melhor agora, não acha? – Ela disse sorrindo e olhando diretamente para mim. E, enquanto assistia Maya limpar o balcão de seu novo café depois de um agitado – mas recompensador dia de trabalho – não pude deixar de concordar. Sorri e mudei de assunto.

Continuamos conversando sobre o antigo trabalho dela e, depois, sobre o atual. Maya me disse como as coisas estavam ótimas em seu novo negócio, como os clientes eram interessantes – um bando de esquisitos da Humanas em minha opinião – e como não conseguira definir entre um tema Subaquático e um Vitoriano para o café. Claro que ela teve que admitir, no final, que este último não foi um grande problema já que acabou mixando os dois temas. Acho que é por isto que o nome do lugar é Nautilus.

Conheci Maya há três anos. Quando, graças a um projeto de faculdade e a um professor preguiçoso, fiquei na faculdade até mais tarde.

Eram quase dez horas da noite de uma terça-feira e eu ainda estava esperando pelo metrô. Normalmente eu estaria em casa por volta das oito, mas já eram dez horas e eu ainda estava a quilómetros de distancia. Levou entre dez e vinte minutos para o metrô chegar, as pessoas já amontoadas na área de embarque muito antes do veículo despontar no horizonte, eu mesmo no meio da confusão. Na hora, porém, que o metrô parou e as portas abriram-se, alguém me segurou.

- Você deixou a sua carteira cair. – Era Maya, uma garota pequena que, apesar de parecer ter mais ou menos a minha idade, mal alcançava o meu ombro – e eu não sou considerado um cara alto, um metro e setenta no máximo. Mas o que realmente chamou minha atenção não foi a altura dela, mas suas cores. Maya usava todo o tipo de penduricalho: lenços, pingentes, colares, gominhas, pelúcias… Tudo misturado em uma imensidão de cores. Parecia ter fugido do circo.

Ela sorriu e me devolveu a carteira antes de entrar no trem comigo. Naquele dia nós nos sentamos um ao lado do outro e no próximo, quando tive que, novamente, ficar na faculdade até mais tarde, nós começamos a jogar papo fora. Depois disso, passei a sair mais tarde da faculdade de forma que pudéssemos continuar a nos encontrar no metrô. A estação de Maya era após a minha, então, passávamos a viagem conversando sobre banalidades e coisas que gostávamos. Muitas vezes me peguei contando para ela coisas que nem meus amigos mais próximos sabiam. Maya escutava e dava sua opinião aqui e ali sempre que a ocasião pedia. Não reparei, até muito tempo depois, que ela nunca falava nada substancial sobre si própria.

Após alguns meses, porém, comecei a notar coisas estranhas acontecendo ao redor de Maya. Pessoas encapuzadas ou vestindo roupas que não passavam de trapos aproximavam-se de nós e ajoelhavam-se diante dela; eles lhe ofereciam flores, livros, folhas de papel em branco e até pedaços de brinquedos quebrados ou remendados. Maya sempre aceitava cada um dos presentes, dava-lhes um sorriso agradecido e depois guardava toda aquela tranqueira em sua mochila. Antes de irem embora, estas pessoas ainda faziam uma reverencia para Maya e, algumas delas, me cumprimentavam respeitosamente.

No começo, eu fiz o meu melhor ignorar como Maya nunca comentava sobre essas pessoas e como ela rapidamente voltava ao assunto em que estávamos antes de sermos interrompidos pela misteriosa aparição. Mas aquilo começou a acontecer tão frequentemente que, em uma das nossas muitas viagens de metrô, acabei tocando no assunto:

- Qual é a de todas essas pessoas te dando presentes? – Maya ficou muda, os olhos espantados como se ela nunca tivesse esperado que eu fosse perguntar. Cheguei a pensar que ela ignoraria a minha pergunta e tentaria mudar de assunto, mas, invés disso, ela me devolveu outra pergunta – Você realmente quer saber?

Fosse porque pressenti que ela não queria falar no assunto, fosse porque, secretamente, o medo nos olhos dela também me assustara, fiquei em silêncio o resto da viagem.

Já se passou mais de um ano desde então e eu nunca perguntei novamente. Maya e eu somos bons amigos, apesar d’eu não conhecer a família ou os amigos dela – e ela conhecer os meus. Eu a ajudei a comprar o Nautilus depois que ela perdeu o emprego de designer em um estúdio – estúdio este que também nunca descobri o nome – e toda semana eu venho aqui para tomar um drink e conversar um pouco.

Mas agora eu tenho que ir para casa. Amanhã é um dia importante, vou apresentar meu TCC e uma boa noite de sono é essencial. Eu beijo a testa de Maya e me despeço. Ela me pergunta se eu posso ir até o centro da cidade com ela no dia seguinte, depois da apresentação, e eu concordo. Parece que ela quer comprar mais decorações para o café. Corro em direção ao metrô, não sei o que vou fazer se eu perder o último trem. Maya não pega mais o metrô comigo. Ela vive agora nos fundos do Nautilus. Aquelas pessoas misteriosas ainda aparecem ao redor de Maya. Sempre que olhos há pelo menos uma delas no Nautilus, tomando xícaras de café expresso e trazendo presentes.

Meus amigos constantemente me dizem que Maya e eu deveríamos ser namorados e que Maya deveria vir morar comigo ou eu com ela, mas nunca considerei isto seriamente. Acho que Maya também não o fez. Não sei se conseguiria ficar ao lado dela como algo mais do que um amigo. Tenho medo. E se, quando nós começássemos a sair, eu descobrisse as respostas para tudo de misterioso que aconteceu ao redor dela? E se, por causa disso, a estranha aura que existe em Maya e que me atraiu desde o início sumisse?


Written by Tayla Olandim in: Agenda,Contos,Tayla Olandim |

3 Comments»

  • Thaina Gomes says:

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    Oh! Pois eu mesma não ia aguentar de curiosidade, so jeito que sou.

  • Thaina Gomes says:

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    Oh! Pois eu mesma não ia aguentar de curiosidade, do jeito que sou. Vai ter alguma continuação, ou acaba aqui?

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Bem, Thaina, para falar a verdade eu não sei xD
      Construí o texto de forma que, se eu quisesse ou se a inspiração surgisse do nada, ele pudesse ser continuado, mas no momento não tenho planos. Talvez no futuro…

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