Menção a Angústia
Escritora: Surah
Se eu lhe narrasse o antes talvez pudesse pô-lo a entender o agora. Mas precisaria de muito tempo, tempo demais, o qual não tenho agora mesmo. Nem se quer deveria estar a escrever isso aqui. Já que tenho daqui a algumas consideráveis horas o dever de derramar tudo que absorvi como a uma esponja àqueles que têm por ofício conhecer meu valor. Terei de dissertar a cerca de assuntos específicos. Assuntos dos quais tomei nota ao longo de minha quase curta vida em função de minha antiga passagem pela ciência que não mais aqui, faz-me vir à idéia. A exímia memória de outrora me fugiu, pondo-me malogrado em minha mais recente jornada de tentativa de acerto.
Sim, tentativa de acerto. O resumo de minha até então jornada pela vida se revela em tentativas de acerto. Meu fazer com desacertos, entretanto, vem levando-me a perceber minha sensação de um baldo ser.
Por isso prefiro forçar minha mente a crer que caminho ainda no tempo em que se é aprendiz. Pensando assim não me embaraço em demasia por um vão passado. Difícil é abafar-se em si mesmo.
Quando já exauri forças para o abandono de meu íntimo, não me atrevo pelas ruas afora. Por mais agradável que me pareça essa parceria de solidariedade de interesses, trazendo a tona uma expressão ótima de sentimento banhando-me em calmaria, há um fundo de incógnita que me perturba de veras. Não sei ao certo quem é o dono da dúvida. Tem muita minha em relação a querer saber decifrar esse código lançado, toda vez, de seu julgo em mim.
Esse é o mal de ser assim como sou. Não sabia que eu era assim. O isolamento me era familiar. Pondo-me só e incomunicável logo a melancolia e pena faziam-me companhia. Dentro desse dissabor bailava minha alma, com tamanha aversão, melindrava-se aos débeis estímulos provenientes de qualquer intenção daquela parceria em larga esfera. Dentro de minhas normas eu estava regular. Mais que regular, estava a engatinhar para a não consciência de minha consciência.
Querendo eu me por junto à igualdade, a tecer uma perfeita correspondência entre as partes de um todo, estaria eu a me opor a própria transcendência talvez.
Que eu esteja a caminho entre o marco zero e o cume do Everest, então há muito pungindo na dúvida: do ser passivo em mim ou estar de fato entregue ao mundo. A dificuldade em abafar-me em mim mesmo corre paralelamente ao fato de eu somente encantar-me com as sombras que me são peculiares. Sombras essas que uso para preencher o ocioso que me resta a fim de observá-las infinitamente, esquecendo do mundo, caindo em um sono onde a razão humana não pode alcançar.
Quisera eu ter direito a um rogo. Rogaria pela volta ao marco zero. Eis que me surge a dúvida. Passados anos, poucos ainda aos olhos de uns e outros, naquela febre melancólica que me era padrão, desejar cair no mundo, estabelecer parceria solidária com o todo, quebrando o limite de minha consciência abrindo-a até para si, como poderia eu estar então caindo as graças da realidade? Minha realidade é outra e o que foge disso, para mim, é anormal.
Solidão doce que me assola não mais me faria companhia. Mesmo que haja o conhecimento pelo coletivo do fado que carregamos, desde a primeira atividade mitótica até a temida apoptose, solidão, ainda persiste a pressão da barreira do disfarce.
Sinto-me assim. Como se uma mão estivesse constantemente agarrada apertando meu estômago em todas as horas. Essa mão aperta repuxando minhas entranhas, amargurando toda minha postura, me abstendo da fala, do gesto, do olhar… Só me resta o pensar… Mas a fala que deveria sair não sai.
A esse evento chamo travar. E ao final de tudo o que resta é sempre a mesma coisa.
Uma pequena e curta palavrinha. Avassaladora com suas mãos apertando meu estômago! Quem diria? Quão magnitude em sua ínfima? Como é engraçada a força de uma coisinha pequenina com cinco letras apenas. Força essa suficiente para atribuir-me a gigante responsabilidade de todos os atos perante a existência de mim mesmo. A culpa.
Geralmente é assim viu, vou confessar-lhe isso. Sempre as menores coisas na vida são aquelas que mais causam danos muitas vezes irreparáveis.
Quantas lamentações! Quantas ingratidões! Quantas estagnações!
Vem à tona a vergonha, transbordando da jarra pela toalha de renda à mesa. Pelos espartanos eu nem com vida estaria mais. Um ser que nada produziu e nada construiu e em nada contribui, quisto inútil a sociedade, não deveria passar sua preguiça para a próxima geração. Teriam me cortado a cabeça no país das maravilhas!
Mesmo assumindo minha cota de loucura não permito aqui que me julguem por um ser conformado que só sabe lamentar. A lamentação faz parte quando ausente a consciência. Ser infeliz, ser mal humorado, ser resmungador. Apresento-lhes minhas necessidades para que não desapareça em mim mesmo.
A esperança é engraçada. Ela não sabe o que é frustração. Nem medo. A esperança é imune ao evento de travar.
Gostaria então do direito de rogar mais de uma única coisa: Como voltar ao Marco Zero transbordando de Esperança? – Surah de Oliveira Herrera
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