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Apr
12
2011

M&M, como o chocolate

Escritor: WhenYouStrange

Um conto para Mariana Destro Monroe.

Meu pai costumava dizer que as estrelas saem pra brilhar as sextas-feiras, foi em uma sexta que ele conheceu minha mãe, talvez fosse só para elogiá-la. É sexta-feira e nenhuma estrela brilhou pra mim ainda. Estou sentado no escuro, apenas com a TV ligada, toca a nona sinfonia de Beethoven em um programa estúpido.

Ré menor. Flautas. Obóes. Clarinetes. Trombones. Trompetes. Música é a língua de Deus.
O ódio tem alimentado minhas entranhas ano após ano.

Olho pela janela, lá fora está frio e segue um ciclo constante de transeuntes. Estou sentado nessa poltrona que fede a mofo, encaro a TV, na propaganda aparece um homem de uns quarenta anos anunciando um aspirador de pó com mp3 embutido. “Trabalhando para fazer sua vida melhor” enquanto mostra um gigante sorriso falso e amarelo, minha vida mais fácil uma ova. A minha frente na parede tem um pôster da Marilyn Monroe. Loira, sensual, em um vestido vermelho. A luz da rua invade o quarto tornando brilhante a pistola que carrego na mão. Essa casa não é minha, a TV não é minha, o pôster não é meu. Somente a arma é minha. Brilhante. Polida. Carregada. Mortal.
- Como eu.
Pensei ter dito pra mim mesmo, mas a voz era fina demais pra ser minha. Sinto uma mão em meu ombro percorrendo-me o pescoço, mãos macias e brancas. Fecho os olhos. Sei que ela está rodeando a poltrona. Feroz. Silenciosa. Branca. E em seu vestido vermelho. A vibração no ar não é a respiração de Deus.
- Olá M&M
- Como o chocolate – disse ela, enquanto andava ao meu redor com seus lábios doces a provocar-me.
- Como o chocolate.
- É como eu digo – ‘Quanto mais quente melhor’.
- 1959
- Você está afiado.
-Foi quando enviei a carta a você pela primeira vez, Marilyn.
- Você fala como se eu pudesse responder.
Abri os olhos e lá estava Marilyn Monroe. M&M, como o chocolate. Norman Jean Baker, o símbolo sexual de toda uma geração. Lábios vermelhos como sangue, belos dentes, curvas esculpidas, carregando belos e brilhantes brincos. Com um sorriso leve e suave. Como uma monalisa a te zombar e provocar em segredo. Olhando-me com olhos semicerrados e de cima para baixo. Como uma deusa. Como Monroe.
Ela não precisa dizer nada. Ela zomba de mim em silêncio, seu sorriso é cortante como um punhal. O coração bate mais rápido. A pressão arterial sobe. Nona sinfonia tocando em uma propaganda imbecil da TV. Eu poderia possuí-la ali mesmo se não estivesse convicto de que a mataria.
- Você podia ter me escrito, mas preferiu me deixar sofrendo durante todo esse tempo, essa sua aparência inocente e vulnerável não me engana. Eu sei o monstro que se oculta por trás desses lábios carnudos.
- Eu estava ocupada demais tentando ser eu mesma, sabe? Essa vida não é para qualquer um. Não posso dar atenção única e exclusivamente para você. Sou o maior símbolo sexual desse século, tenho coisas mais importantes para cuidar do que sentimentos e em doar palavras doces.
A vibração no ar é minha respiração.
- Você não devia ter feito isso, Marilyn.
- Eu disse que seria uma grande estrela um dia, não disse?
- Por que você fez isso?
- Eu disse pro meu pai: Pai, eu nasci pra ser uma estrela, me deixa brilhar, ele sorria e dizia: Você já é uma estrela, meu amor, você já é.
- Por quê? Eu passei todos esses anos, eu só quero uma resposta Marilyn!
Nona sinfonia.
- Eu cantava e dançava e brilhava, todos me amavam, eu nasci pra ser uma diva, eu nasci pra ser uma diva, eu repetia pra mim mesma.
- Me ouve, Marilyn, me ouve!
- Parecia fácil na época, liguei pro meu pai durante um show, e disse: Pai, eu realmente brilhei. E ele me disse: “Eu nunca duvidei disso, minha pequena estrelinha.” Não é um amor? HAHA
Aponto a arma para Marilyn.
Ela sai do seu próprio feitiço.
- Agora vai atirar em mim, é? Como fizeram com o Warhol?
- É, como fizeram com o Warhol. – E então completei – Você vai morrer e sangrar como um porco.
- Não estou interessada na morte, eu só quero ser maravilhosa – disse ela como uma sentença. Eu sabia que não podia com aquilo. E então chorei. Chorei por cada fracasso que tive, por cada carta de amor não correspondida e por cada falso ídolo. E então descarreguei o cartucho naquele cartaz cheio de colagens do rosto de Marilyn que Warhol eternizou. E só me restou chorar por tudo o que podia ter feito por M&M. Como o chocolate – pensei – como o chocolate.

Patrick M.


Categorias: Agenda,Contos |

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Publicado por whenyoustrange

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