O Cuspe
Escritor: Goliath Whalietric
Escritor: Eduardo Blando
Eu lembro de um acontecimento bem inusitado que ocorreu quando eu ainda era um piá. Eu estava no intervalo da aula (“recreio”), correndo pelo pátio do colégio. Confesso que não era muito meu costume mas era um dia bom… Eu me sentia bem. Então, não mais que de repente, encontrei um colega que vou carinhosamente chamar de Mala.
Era esperado que um cara desses fosse recluso, ridicularizado, inibido ao extremo. Afinal, esse é o estereótipo. Era exatamente o contrário. Ele era chato, falador, azarava as guriazinhas, tirava onda com as professoras (não tinha professores na minha série), e ainda dava peteleco em todo mundo. Além dos clássicos: desenhar pintão na cadeira, botar tachinha, fazer zarabatana com Bic usando munição de papel e cuspe, entre outros. Cuspe. Pois é.
Neste dia em que eu estava na minha, correndo e jogando bola no pátio, o puto do Mala resolveu pegar no meu pé. Ele começou gritando coisas do tipo bichinha, fazendo aquelas riminhas bobas (dizendo que eu comia casca de ferida, por exemplo, algo altamente ofensivo naquela idade), chamando de pé torto, essas coisas.
O meu limite, que era muito maior naquela época, tinha sido finalmente atingido e resolvi encará-lo, já que ninguém fazia isso. Mandei ele calar a boca. Ele continuou. Mandei de novo. Ele continuou e acrescentou algo envolvendo pus e cocô. Eu mandei ele parar de novo agora com um empurrão. Ele revidou o empurrão com as mãos tortas e com ranho no nariz escorrendo e voltou a falar do pus. Quando eu fui empurrar de novo, veio o golpe fatal: uma bela cusparada na minha cara.
Muitos outros colegas assistiam tudo de camarote. Várias meninas, e o interesse por elas já começava a ser maior que brincar de Comandos em Ação. Uma guria olhou e gritou: “ARGH, ele tá com um cuspe na cara!”. Todos que estavam por ali começaram a rir e apontar. Ele deu aquele sorriso débil e, naqueles poucos segundos que mais pareciam um eternidade, eu experimentei o gosto amargo da humilhação. Ele ficou lá… Sorrindo. Debochadamente.
Durante todo esse tempo o cuspe escorria pelo meu rosto. E, pra nojeira geral e irrestrita, um tanto caiu na minha boca. Dentro dela. Acho que essa foi a primeira vez que eu perdi a cabeça. Eu senti muita raiva. Uma raiva incontrolável. Eu limpei o cuspe como deu, esfregando a manga do meu abrigo 3 listras no rosto tentando tirar o que podia.
No segundo seguinte o meu olhar se voltou pra ele. Eu adoraria saber o que ele viu. O sorriso saiu daquele rosto, adquirindo um ar de desespero. Ainda assim eu podia ouvir ele rindo, como se eu conseguisse ouvir só o som dele. Ele se virou e começou a correr, comigo logo atrás dele. No que ele virou, bateu com o rosto em uma árvore, mas conseguiu continuar correndo.
Ele correu pra dentro do prédio, tentando chegar até a sala de aula. Eu consegui acompanhá-lo, mas ele chegou antes e tentou fechar a porta. Eu me joguei contra a porta, e ele não conseguiu me impedir. A porta estava aberta e agora era só eu e ele.
Fui na direção dele. Ele me pedia pra parar. Me pedia desculpas, por favor. Aí, quando eu estava quase aceitando ele tentou me cuspir de novo. Dessa vez eu me esquivei rápido e o cuspe não pegou. Revidei com outra cusparada que pegou na mão e na roupa dele. Ele dizia: “Tá, já se cobrou. Parô. Parô.”. Eu concordei: “Tá bom. Parô então.”. Aí, ele se aproxima e me mete um tapa no rosto. O tapa foi ainda pior que o cuspe. Pareceu ligar algo mais primitivo dentro de mim. Eu só queria ver o Mala sangrando. Era só o que eu pensava.
A coisa ficou feia. Revidei o tapa com um empurrão e um tapa no rosto dele. Ele tentou me acertar outro tapa, mas eu defendi com a mão. Segurei ele pelos cabelos e comecei a dar socos na barriga dele, até ele cair.
Nessa altura eu já não enxergava mais nada. Tudo que eu queria era que ele sofresse muito. Ele caiu no chão e aí eu comecei a chutar a barriga dele. Uma. Duas. Três vezes. Na quarta eu ía começar a pisar na cabeça dele. E eu estava com os meus Adidas preto de couro. Eu não pensava mais nada. E o pé estava no ar mirando a cabeça do Mala. Eu fui impedido por uma professora e um bando de alunos com os olhos arregalados.
Acabei no Serviço de Orientação Educacional (SOE). A tal orientadora me perguntou o que tinha me levado a fazer aquilo. Afinal, eu era um aluno exemplar. Eu contei pra ela. Ela ficou séria. Disse que mesmo assim eu não podia fazer isso. O Mala tinha problemas e eu devia relevar essas coisas que ele fazia. Perguntei se ela deixaria ele cuspir na cara dela. Ela me disse para sentar quieto na mesa e me deu 2 gibis para ler. Eu só sairia dali depois que ela quisesse.
Naquele dia muitas coisas ficaram claras para mim:
- Em primeiro lugar, você pode ser o maior filho da puta sacana, as pessoas sempre vão achar que você tem um problema e por algum motivo esdrúxulo, você acabou daquele jeito. No fundo, elas sabem que você é sacana, mas isso é legal. Quantas histórias o sacana vai render, não é?
- Em segundo, você pode ser um cara legal, estudioso e calmo, mas se você fizer algo desse tipo é culpa é sempre sua. Afinal, você é tão responsável que deve ser e agir como um “homenzinho”. No fundo, as pessoas te acham sem graça. Um chato.
- Terceiro, a justiça e a moral são subjetivas… They are in the eye of the beholder.
Depois de tantos e tantos anos, dia desses encontrei o Mala, no supermercado. Eu olhei e reparei que era ele só de olhar. Numa atitude infantil, desviei o olhar e me virei de costas. Não queria falar com ele. Sequer olhar pra ele. E era assim que esta história devia acabar.
Só que a realidade é estranha. Ele veio e me abraçou efusivamente. Fiz aquela cara de surpresa. Ele me perguntou da vida e como eu estava. Minha esposa me olhava sabendo que havia algo errado, pois eu estava branco. Ele me apresentou a noiva. Marcamos uma janta na casa dele. Trocamos telefone. Ele apontava para mim falando de como era meu fã no colégio. E que eu era o mais legal de todos os colegas pois eu conversava com ele. Ele não tinha mais aquele jeito estranho, apesar do andar ainda esquisito. Ele deu as costas e foi-se acenando de longe para mim.
Agora só falta decidir se cuspo na cara dele na entrada da casa dele e evito o jantar, ou depois da sobremesa.
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Ih, caramba. O final me surpreendeu. Quanto rancor!
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Ótimo texto, cara!
Hehehehe… Pois é, a vida é estranha, não?
Cara, muito obrigado pelo comentário!
Logo publico mais alguma coisa. Grande abraço!
HUahua, muito boa a crônica! e bem, eu teria a mesma reação final! meu lema é : ódio no coração e rancor na alma XD
lembrou de certa forma distorcida a minha época de escola, e as injustiças inerentes a ela… Eu sempre apanhava quieta, no dia que revidei, virei uma mega vilã!
ps: isso pq nem revidei com estilo… queria ter feito como você, ou como o zanguief kid!
Oi Samila! Uma das coisas mais interessantes sobre este texto é que sempre me perguntam se isso aconteceu mesmo ou não… Acho que sou chegado em mistérios, hehehe…
Interessante também como este conto se tornou atual, até por causa do Zangief Kid. E, sei lá, escrevi ele a tanto tempo… Só não sabia exatamente onde publicar. Aliás, eu e alguns amigos discutimos muito sobre o certo e o errado do revide. Eu não me tornei um mega-vilão…
Agora, tenho que ficar feliz. Afinal, esse foi um elogio vindo da Samila, uma das mais comentadas do blog.
Obrigado, Samila! Grande abraço!
bem, eu me tornei uma mega-vilã apenas aos olhos da escola > de nerd quieta para garota-problema-revoltada… sendo que depois desse único revide… eu continuei apanhando, então foi total trash XD
e nhai, obrigada! assim eu fico toda orgulhosa XD
ps: eu creio em ao menos um fundo de verdade… afinal, vidas são feitas de acontecimentos trash!