O despertar de Gokna
Escritor: Phillip Wrangler
Ele virou o olhar para o vale. Toda a exuberância que um elfo poderia conter estava presente naquele corpo, naquele perispírito moldado como um elfo. Estava irritado. Ele não tolerava atrasos.
Viu os céus azuis tornarem-se negros. Para alguém que vira eras passarem-se no que pareciam piscares de olhos, aquele entardecer era uma fração de segundo. Ele gostava de debruçar-se sobre a sacada de seu quarto naquele élfico palácio infinito, e lembrar-se de sua época quando era jovem – mas as memórias sempre se voltavam para a mesma coisa. Como aquele antigo inimigo tornara-se caolho, e como aquela antiga amante se tornara sua pior inimiga.
Ela havia finalmente chegado.
Vestia um vestido branco, aparentemente seda, mas ele sabia que aquilo era teia. Teia de aranha. Por um momento, deslumbrou a beleza perdida naquele corpo élfico, um corpo que se tornara negro como azeviche, como maldade. Eles se encararam por um instante.
- Espero que seja bastante breve – ela disse -, pois o ar daqui fere meus pulmões, e a luz cega os meus olhos.
Pensou em retrucar, de condenar o incômodo que ela sentia como consequência de ter se recolhido à sujeira e às trevas. Mas ele não o fez. Pretendia ser breve.
- Você já sabe pórque pedi que viesse. Elfos e drows guerream pelos mundos, e isso traz muito mais consequências do que se pode imaginar. Os deuses reclamam destas interferências. Nós – ele hesitou – os elfos são as criaturas mais antigas desde a criação dos mundos. São responsáveis em servir de exemplo para as raças inferiores.
- Você sabe, meu querido – ela disse, sibilantemente, aproximando-se com seus olhos azulados – que isso não precisa ser assim… tudo pode ser diferente. Não há necessidade de guerrear… meu querido, nós temos o poder e o direito de mudar tudo isso… quando quisermos.
Uma vertigem atingiu o deus dos elfos. Ele odiava quando ela lhe chamava de “meu querido”. E ele não sabia que ela sabia disso…
Ela se aproximou e tocou seu braço. Esperou sentir nojo, ou repulsa, mas mesmo aquela deusa drow possuía uma beleza invejável. Infinitamente sedutora. Ela era, afinal, uma deusa de malícia. Reprovou-se por ter sentido desejo pela elfa naquele toque. Ele a afastou com um gesto brusco.
- A batalha não vai terminar. Nem que ela destrua todos os mundos, eu não me importaria. Um elfo se orgulharia em sacrificar-se para demonstrar honrosamente a sua superioridade. Mas homens, anões e halflings têm seus direitos, mesmo sendo criaturas não élficas.
- Não seja tolo, Elfo. Não poderá isolar seus elfos num campo de batalha, longe do que eles amam, para lutar contra drows… isso é ridículo, meu querido…
Ele olhou, levantando-se triunfante.
- Sim, eu posso – bradou. Existem mundos, minha cara, além dos que os que você conhece. Mundos onde os guerreiros podem demonstrar sua força, ou os sacerdotes, provar sua fé. Mundos inóspitos, habitados por criaturas sem inteligência, onde existem excelentes campos arborizados para os meus elfos, e as cavernas imundas para os seus drows. Lá, poderão lutar para provar qual é o superior, qual deve viver para sempre.
A drow riu suavemente.
- Claro, claro, meu querido jamais afastaria seus amados elfos de suas árvores e seus animais, não é? – ela pensou. Considero injusto, meu querido. Acho mais adequado que lutem em um campo neutro. Um campo onde ambos estejam submetidos às mesmas condições. Sem sol nem lua. Sem superfície ou subterrâneo.
O deus Elfico hesitou…
- Eu jamais enviaria meus filhos para aquele lugar, Rainha das Aranhas… e acho que você não o faria também…
A drow levantou a mão direita com o punho fechado.
- Está enganado, meu querido… eu inclusive já me adiantei… – e sorriu.
Eles se entrolharam por um instante. A noite se aprofundava ao seu redor.
- Você preza demais os seus filhos. É tão seguro de que eles se sacrificariam por você, que é incapaz de mandá-los fazer isso. É por isso que está fadado a perder.
O elfo voltou as costas para ela, e voltou a observar o horizonte.
- Minhas tropas já estão preparando-se naquele lugar, meu querido… elas o aguardam ansiosas… – sorriu levemente, e virou-se para sair. Névoas cobriam-lhe a perna agora, e adensavam-se ao seu redor conforme caminhava. Logo já não estava mais lá, e pôde então apreciar a escuridão e o ar impuro de sua morada.
O primeiro elfo fechou os olhos, perdido em um oceano de pensamentos. Quando se decidiu, concentrou-se profundamente em um mortal. Um elfo.
Muito longe dali (uma distância que não podia ser medida em metros, e um tempo que não se podia ser medido em segundos), Gokna despertou subitamente de sua cama com um grito, acordando os outros clérigos ao seu redor…
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