Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida: Livro 1
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
29 Dicas para se manter criativo:
Vaucarn
A Lenda de Fausto
Chat dos Nerds Escritores
Quer publicar?
Download do livro O Draconiano – Livro 1
Apr
27
2011

O encanto da borboleta

Escritor: Pablo Rebello

Ouça o suave som do bater das asas da borboleta.

Vlop! Uma mãe chora de felicidade ao segurar nos braços pela primeira vez o filho recém nascido em um vilarejo de pescadores no Japão. Vlop! Um cão vadio rouba o doce de uma criança e foge alucinado por entre barracas de uma feira no Cairo. Vlop! Uma árvore cai despercebida no meio da floresta amazônica. Vlop! Um tremor de Terra dispara o alarme de carros em um bairro de Los Angeles. Vlop! Um relâmpago fulmina um pedestre durante uma tempestade em Montreal. Vlop! Um policial atira impunemente em um mendigo no Rio de Janeiro. Vlop! Terroristas iranianos compram uma velha ogiva nuclear da antiga União Soviética no mercado negro de Bangoc. Vlop! O mundo prende a respiração ao contemplar o silencioso e aterrorizante vôo da borboleta.

A entrevista.

Ela tomava um cappuccino e fazia palavras-cruzadas no Loeb Boathouse, um famoso restaurante no Central Park, em uma sexta-feira ensolarada. Vestia uma blusa, saia e sandálias brancas, sem quaisquer adereços. Era uma loira de seus trinta e poucos anos, muito bem conservada, de seios fartos e corpo esbelto. Embora ela não desse sinal de ter sequer notado sua presença, ele não conseguia tirar os olhos dela.

Seu nome era Steve Collins, promotor de uma respeitada firma de advocacia em Manhattan, família irlandesa, 38 anos. Um homem de posses que se considerava boa pinta e capaz de vencer qualquer obstáculo para alcançar seus objetivos. Também tinha fama de mulherengo e de ser incapaz de resistir a um rabo de saia.

Solteiro, seu hobbie favorito era fisgar garotas mais novas em boates da moda. Steve as conhecia, ficava com elas e, sempre que possível, as levava para conhecer sua cobertura ou algum motel da cidade. Normalmente, as dispensava depois de três ou quatro encontros. Gostava de variedade no cardápio. Além disso, não queria compromissos com ninguém.

A loira era um caso atípico. Primeiro, porque era mais velha do que as ninfetas com as quais estava acostumado. Segundo, porque não costumava partir pro ataque no meio do dia, quando ainda teria a tarde inteira para trabalhar. Mesmo assim, não conseguia deixar de imaginar o que aquela mulher seria capaz de fazer embaixo dos lençóis.

Não conseguia tirar os olhos das pernas da moça, que apresentava coxas bem torneadas e bronzeadas. A fina camada da blusa de seda deixavam o contorno dos seios mais aparentes, com leves protuberâncias onde deviam se encontrar os mamilos. Lábios carnudos a bebericar o café mexiam com a imaginação de Steve, que pensava em mil sacanagens, inclusive em possuir aquela beldade ali mesmo, em cima da mesa, para que todos pudessem ver.

Mas se conteve. Sabia ser incapaz de cometer tal loucura. Precisava conquistar aquela loira. Não devia ser uma tarefa muito difícil, do jeito que ela parecia solitária. Decidido, Steve pagou sua conta, se levantou e caminhou até a mesa da mulher, que continuava distraída com as palavras-cruzadas e não percebeu sua aproximação.

“Perdão, senhorita…”, interrompeu Steve com seu melhor sorriso de bom moço. “Lamento incomodá-la, mas não pude deixar de notar o fato de uma mulher tão bonita quanto você estar sozinha em um dia tão belo como o de hoje…”

A mulher levantou o rosto, olhou com certo receio para Steve, sorriu educadamente e voltou a atenção para as palavras-cruzadas.

“Será que posso me juntar a você por um minuto?”, arriscou.

“Faça como quiser…”, respondeu a mulher sem olhar para ele. Sua uma voz era suave como a seda, mas suas palavras carregavam um amargor que deixou o outro ressabiado.

“Não quero incomodá-la…”, justificou Steve, sentando-se cautelosamente.

“E com certeza, não o fará”, respondeu a mulher, fechando as palavras-cruzadas e virando-se para olhar diretamente para Steve. “Agora, o que posso fazer por você?”

Seus olhos eram de um verde profundo e misterioso. Os cabelos sedosos caíam como pluma sobre seus ombros e seu sorriso irradiava uma doce malícia.  Até mesmo seu cheiro parecia empestear o ar com ansiedade pelo que viria a seguir. O sorriso de Steve ficou ainda mais largo. A presa acabava de cair na rede e esperava pelo abate.

“Para começar, você poderia me dizer seu nome…”

“Você pode me chamar de Orquídea.”

“Orquídea? Como a flor?”

“É o meu nome. Não gostou?”

“Pelo contrário, minha cara flor, achei extremamente apropriado para um beldade como você. Já eu, me chamo Steve.”

“E o que você faz, Steve?”

“Nada de muito importante, realmente. Sou apenas um promotor de uma grande firma de advocacia aqui de Nova York. Nunca perdi um caso, mas não me gabo disso. Faz parte do trabalho, e um homem deve trabalhar duro para obter o reconhecimento de seus pares, certo?”

“Quer dizer que você acha importante ser reconhecido?”

“Eu não procuro fama, se é isso que pensa, minha querida, mas acredito que, para crescer na vida, é necessário ser reconhecido pelas pessoas do meio em que trabalhamos, não concorda?”

“Eu não saberia dizer. Nunca trabalhei na vida.”

“Quer dizer… que é casada?”

“Nunca me casei também. Moro sozinha.”

“Namorados?”

“Não.”

“Não acredito. Não acredito que uma mulher tão bonita como você não tem um namorado ou uma paquera que seja.”

“Gosto da solidão. Além disso, a maioria dos homens dessa cidade não passa de uns frouxos.”

“O que quer dizer?”, perguntou Steve, cada vez mais interessado nos rumos da conversa.

Orquídea se aproximou de Steve e, delicadamente, pousou a mão entre suas pernas, acariciando-o.

“Quero dizer que, na hora H, a maioria dos homens me deixa na mão…”

“Gata, te garanto que isso não acontecerá comigo…”, disse Steve, tentando abraçar Orquídea em sua excitação.

Imediatamente, Orquídea se levantou e lhe estendeu a mão.

“Venha.”

“Para onde?”

“Para o meu apartamento.”

Veja a lagarta que caminha em meio à relva.

A lagarta se alimenta das plantas que encontra pela frente, devorando o verde com a ferocidade e o desespero dos condenados. Ela se arrasta como uma diminuta monstruosidade, temerosa da transformação que a aguarda. Do período em que ficará confinada em um casulo sem conseguir enxergar nada além da inevitável prisão. Sabendo que sua vida, de alguma forma, terminará ali para dar lugar a uma criatura mais bela, mais nobre. A lagarta devora a folha com a gula dos que em breve serão esquecidos.

A armadilha.

“Me beija!”, insistiu Steve pressionando aquele corpo maravilhoso contra a parede do corredor de um prédio luxuoso.

“Quando chegar no meu apartamento”, repetiu Orquídea, se livrando miraculosamente de seu abraço uma vez mais. “Tenho algo muito especial para você lá dentro!”

A promessa deixou Steve ainda mais atiçado. Ele não conseguia se conter. Orquídea o fazia sentir como um cão vadio a sentir o cheiro de uma cadela no cio. Seu desejo era rasgar as roupas da mulher e possuí-la como um demônio. E era isso que planejava fazer, assim que entrasse no apartamento dela. Seria uma tarde que ficaria na sua memória para sempre.

Ela parou diante da porta do apartamento e Steve aproveitou o momento para abraçá-la por trás novamente. Seu cheiro o enlouquecia. Ele mordeu seu pescoço e apalpou seus peitos perfeitos com uma das mãos enquanto a outra descia pela barriguinha. Mas então Orquídea escapou de seu abraço e lhe tirou o equilíbrio, fazendo-o despencar na escuridão.

A porta estava aberta e Orquídea desapareceu nas trevas do interior do apartamento. Steve, de joelhos, não conseguia enxergar nada lá dentro, onde a faixa de luz do corredor desaparecia. Aquilo lhe parecia estranho, mas devia fazer parte do jogo de Orquídea. Um risinho ecoava pela sala escura, incitando Steve a seguir em frente.

“Então você quer brincar de pique-esconde, hein?”, provocou ele, adentrando o apartamento.

Momentos depois, a porta se fechou com um estrondo e toda a luz desapareceu, desorientando Steve. Na escuridão, ele conseguia distinguir o som de uma chave girando, seguidas de passos rápidos ao seu redor. Por um momento, entrou em pânico, apesar de saber que ela estava apenas brincando com ele.

“Onde está você?”, perguntou procurando parecer calmo.

Um risinho abafado respondeu em algum lugar à sua esquerda. Tateando no escuro, com medo de bater em algum móvel, Steve se dirigiu no caminho do som. Passinhos rápidos fizeram com que se virasse subitamente, o que fez com que perdesse o equilíbrio e caísse de cara no chão. Risos na escuridão.

“Tudo bem…”, falou Steve, levantando-se e estranhando a falta de móveis ao redor. “Acabou a graça! Cadê você?”

Silêncio. Então a luz se acendeu, cegando-o momentaneamente. Steve abriu os olhos, mas não conseguia ver nada além de um branco absoluto. Demorou um pouco para perceber que estava de frente para uma parede vazia, totalmente branca, assim como o eram o teto e o chão. Ele se virou e uma ponta de medo correu sua espinha ao perceber que não havia nada ali. O apartamento estava vazio, a branquidão absoluta a esconder até mesmo as paredes, portas e janelas que o ambiente com certeza deveria possuir.

De repente, ela apareceu. Como se tivesse sido cuspida da parede, lá estava Orquídea. Parada, com um sorriso enigmático no rosto, ela segurava um pote de vidro com a única coisa colorida naquele ambiente surreal: uma borboleta. Steve recuou um passo. Aquela mulher não parecia mais tão atraente quanto momentos atrás. Alguma coisa nela o deixava extremamente inseguro. Com medo até de respirar.

Sem dizer uma palavra, a mulher se agachou, abriu a tampa do pote de vidro e fez com que a borboleta subisse na sua mão como um animal adestrado. Suas asas eram um mosaico alaranjado e vermelho, com bolas negras nas pontas. Elas se movimentavam lentamente na mão da mulher, que voltava a se levantar sem nunca tirar os olhos de Steve.

Lentamente, ela caminhou para junto dele, com a borboleta sendo colocada no espaço que os separava. Ele observou o inseto, que parecia encará-lo com curiosidade e uma calma milenar. Estava hipnotizado por tudo aquilo que tinha até esquecido o motivo que o levara àquela situação em primeiro lugar. Até o reencontro com os olhos dela. Relâmpagos escapavam dos olhos verdes de Orquídea, fulminando a alma assustada de Steve.

E antes que pudesse dizer qualquer coisa, aconteceu o inesperado. Com um gesto rápido, Orquídea colocou a borboleta na boca e a engoliu sem nem ao menos mastigar. Steve fez uma cara de nojo e as mãos dela já agarravam o zíper de sua calça, abrindo-o com velocidade. Dedos ágeis saltaram para dentro da cueca, envolvendo seu pênis semi-ereto enquanto Orquídea se agachava. Então um pensamento desembestado, não se sabe vindo da onde, sussurrou em sua mente que aquilo não era uma mulher, mas um animal selvagem prestes a atacá-lo. Seu coração se encheu de medo e dessa vez foi Steve quem se desvencilhou dos toques dela.

“Você não parece mais tão animado…”, comentou Orquídea com um sorriso. “Acho que também é frouxo…”

“Você é louca!”, gritou Steve.

A mulher apenas ria enquanto o homem tentava desesperadamente sair do apartamento. Um riso que cresceu de forma alucinada, envolvendo o mundo e todo o universo dentro de sua loucura friamente calculada.

Sinta o olhar da borboleta.

Vinda não se sabe de onde, não se sabe porquê, lá estava ela. Uma criatura de aparência frágil e delicada, a borboleta se encontrava pousada sobre a cabeça de uma Naja, uma perigosa cobra de aparência feroz e mortal. Orquídea a observou estupefata até que seu olhar captou o olhar do inseto e as duas pararam em um momento perfeito. A realidade se desfez e tudo ficou absurdamente claro. O caos se mostrou organizado e a ordem se provou caótica. A inspiração veio e passou como um raio mandado por deuses desconhecidos de tempos imemoriais. A borboleta levantou vôo. Orquídea se virou e deixou o zoológico. A transformação estava apenas começando…


Written by Pablo Rebello in: Agenda,Contos,Pablo Rebello |

1 Comment»

RSS feed for comments on this post.


Leave a Reply

Powered by WordPress. © 2009-2011 J. G. Valério