O Melhor Amigo do Solitário
Escritor: Rafael Leon
— Oh, que bonitinho!
Não, não sou eu. É o que as pessoas falam quando passeio com meu cachorro à beira da praia. Toda manhã saímos para caminhar, afinal, cães também precisam de exercícios para levar uma vida saudável.
E eu nunca fui acostumado a caminhar ou fazer qualquer outro exercício físico. Sou aquele tipo de cara que fazia trabalhos escritos para passar em Educação Física e trata o corpo apenas como um recipiente para o cérebro. Assisto àqueles filmes onde jogadores de futebol americano perdem as pernas e não consigo sentir nada. Eu viveria perfeitamente bem sem minhas pernas.
Mas ali está o meu cachorro, me fazendo usá-las.
Andamos três quilômetros toda manhã. Um e meio para ir, um e meio para voltar. Uso um par de tênis que comprei recentemente para isso – os velhos seriam inúteis em uma calçada. Como eu já disse, não uso minhas pernas para muita coisa. Com os tênis novos, eu sinto poucas dores ao final da caminhada, mas termino suado como um porco. Sem contar o quilo de areia que entra nas meias, por mais cuidadoso que eu seja.
Após isso, voltamos para casa e eu volto para a cama, exausto. Dormir um pouco mais não faz mal, pois só tenho aulas à noite. Ah, sim, esqueci de mencionar que estou na faculdade. Não se engane: não me entreguei à vida de bebedeiras e festas em todos os finais de semana. Também não tive sorte com garotas. Faço Ciência da Computação, e o conceito de diversão para nós é completamente diferente. Bebedeira significa passar a noite tomando Coca-Cola e jogando Halo, Crysis ou Counter-Strike. Não sabe o que é isso? Esqueça. Aproveite sua vida.
O mundo paralelo da Internet me suga até as cinco e meia, quando é hora de me arrumar para a faculdade. Eu me sinto bem por lá, por mais estranho que isso possa parecer. Tenho amigos que falam a minha língua. As aulas se arrastam, no entanto. Sempre fico aliviado quando finalmente é hora de ir para casa.
Essa é minha vida durante a semana. Apesar de que em finais de semana não é muito diferente. Vou para a casa de meus pais, e lá tenho de ouvir comentários sobre minha péssima higiene, sobre a quantidade de roupas que levo para minha mãe lavar, meu vestuário que sempre parece pijama, meu tom de voz, minha maneira arrogante de falar, o tempo que passo em frente ao computador, as músicas que eu ouço, meu cachorro… É, meu cachorro.
Esqueci de mencionar que ele é um poodle. Não tenho culpa que era o único animal que meu dinheiro pôde pagar. Eu sobrevivo com o dinheiro que meus pais me dão para me sustentar enquanto estou longe deles. Se eles quisessem que eu comprasse um cachorro maior e mais másculo, que me dessem dinheiro para isso. E uma casa maior também.
Entre reclamações e jantares pontuais, fico apenas no quarto que eles ainda guardam para mim. Estudo e penso sobre minha vida. Eu realmente preciso mudar a minha rotina, fazer mais exercícios, conhecer pessoas novas, beber cerveja, vinho, pinga e cachaça, perder a virgindade…
Na segunda-feira, saio novamente para andar com meu cachorro. As velhinhas sempre o acham bonitinho. E sabe o que mais? Eu também.
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hahahah
espereo realmente que isso nao seja uma autobiografia
excelente seu texto, me lembrou um pouco o verissimo que
mistura cenas do cotidiano com comedia, parabens ta bem legal.
MUITO BOM! Cenas cotidianos concatenadas de forma bastante coerente e boa narrativa. Parabéns. Quando ele falou os nomes dos jogos que eu jogo com tanta banalidade não pude conter um sorriso, hahahaha
MUITO BOA essa crônica, rapaz! Você descreveu super bem a vida de um perfeito nerd – com um poodle.
e eu me vi bastante nesse cara… O fato de preferir um pc a uma boate, e o dato de ser criticado pelos pais em quase tudo.
E pqp, vai sair o Halo 4 ou não?!?!
Preciso só de um cachorro bonitinho