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Apr
14
2011

O NASCIMENTO DE JOSÉ MENDIBAL FILHO

Escritor: Vania Gomes da Silva

O NASCIMENTO DE JOSÉ MENDIBAL FILHO

Vânia Gomes

               Após uma noite de angústia e dores provenientes das fortes contrações, finalmente dei à luz meu bebê. Quando pude olhá-lo nos olhinhos ainda fechados, vi o porte altivo, tipicamente galês de seu pai, que devia estar orgulhoso! 

               Conheci-o naquele sábado primaveril em que consegui me desvencilhar das duras obrigações para com aquela velha e rabugenta senhora.

Saí de Paris com a intenção de visitar mamã em Versalhes. Neste dia não quis usar muitas jóias, apenas dois solitários nas orelhas. Usava um vestido colante de Redfern, sem enchimentos ou volumes. Sentei-me em meu lugar no trem. O tempo estava seco e eu sentia necessidade de umedecer meus beiços todo o tempo, molhando-os com a ponta da língua.  Antes da primeira parada, notei um cavalheiro de altivo porte a fitar-me. Fiz-me de cega. Mas quando o trem parou em Coubervoie, o cavalheiro, já próximo a mim, baixou o vidro e comentou sobre o calor de Paris. Balbuciei um par de palavras sobre a frescura do campo e achei por bem permanecer em meu pacato silêncio. Mas o cavalheiro queria conversar e suas palavras com sotaque ligeiramente inglês alcançavam meus ouvidos agradavelmente, de modo que quando o trem parou em Suresnes, o cavalheiro já estava sentado ao meu lado. Em Sèvres, urgente e insensivelmente enlaçamos nossas mãos. Foi agradável a sensação de minha mão pequenina e fria (apesar do calor) naquela mão grande e alva. Em Viroflay, o cavalheiro propôs-me um passeio pelo frescor de um recanto bucólico que ele conhecia próximo à estação. Poderíamos pegar o trem de duas horas para Versalhes. Não resisti à sua voz quente e máscula e concordei. Descemos em Viroflay.

               De fato, o campo era de um frescor agradabilíssimo naquela manhã quente. Os aromas primaveris exalavam fortes em minhas narinas e pareciam conspirar… Paramos em uma tavernola de janelas de madressilva e o gentil cavalheiro convidou-me a almoçar uma caldeirada com o bom vinho branco de Suresnes. Inútil resistir ao tentador convite, principalmente porque já principiava uma fomezinha… O almoço, delicioso, proporcionou maior aproximação entre nós. Não sei se foi o vinho ou o efeito afrodisíaco da caldeirada, não importa: este foi o melhor dia de minha vida, ali, na aconchegante alcova da taverna. Antes de voltarmos à estação para tomar o próximo trem, não mais para Versalhes, mas sim de volta para Paris, olhei tudo ao meu redor, pois queria gravar em minha mente para sempre aquela alcova e a deliciosa e inesperada tarde de amor. Não quis perguntar-lhe o nome, mas ele suplicou-me que lhe dissesse o meu quando saltou em outro vagão do trem. Respondi apenas Lucie…

               E nesta manhã aqui estou a fitar o filho daquele galante cavalheiro.  Daquela tarde restou guardado dentro de um livro um dos cravos do ramalhete que ganhei do cavalheiro galês e que me serviu para presentear a Mendibal. Mendibal, meu bom marido, sente-se feliz e orgulhoso, pois “seu” filho nascera parecido comigo, com ares franceses. Nada tinha do porte argentino do sangue do pai, mas seu nome seria José Mendibal Filho. Pobre Mendibal! Em sua ignorância de novo rico, não soube distinguir a altivez galesa da soberba francesa… Minha sogra, como sempre rabugenta, olhou-me desconfiada, mas como sou sempre uma esposa zelosa e uma nora amável e dedicada, nada disse.  Melhor assim, pois posso guardar em meu coração o belo dia que tive com o pai de meu filho, um gentil cavalheiro galês que sequer sei o nome…

*Inspirado na Carta VI do livro “A correspondência de Fradique Mendes”, de Eça de Queiroz.


Written by vania.gomes in: Agenda,Contos,Vania Gomes da Silva |

4 Comments»

  • Thaina Gomes says:

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    Vânia, tenho a impressão que foi o texto mais longo que eu já li seu!
    E eu consegui estar no trem, foi tudo fantástico! Parabéns.

  • Samila says:

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    A linguagem está linda, carregada de sentimento e lirismo! mas que beleza! Adorei, meu bem! Adorei!

  • Ana Bourg says:

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    Delicia de texto, muito agradável de ler. Foi quase possível ouvir a voz da personagem ao longo da narrativa, como se contando seu segredo para uma amiga.
    Achei que a caracterização de época ficou muito boa e a história mistura bem estilos do romantismo e do realismo. Se, por um lado, tem ares de uma novela romântica, por outra fica implícito um certo sarcasmo – não da personagem, mas da autora – e revela-se nas entrelinhas a decadência moral e os preconceitos burgueses. Muito bom!
    Ah! Também sou fã do Eça de Queiróz. =D Eu ia comentar que senti uma certa semelhança com “Primo Basílio”, daí vi que você falou do Eça no fim do texto. XD
    Esse semestre estou fazendo uma disciplina de história da américa latina independente e vai ver que foi por isso que achei tão legal a caracterização histórica, a personagem ser casada com um “novo rico argentino” – Imagino um proprietário de terras gaúcho, exportador de carne para a Europa e que desejava “esbranquecer” a linhagem. Achei que você retratou bem a mentalidade terrivelmente racista das pessoas dessa época.
    Parabéns pelo bom trabalho!

  • ESTELA says:

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    Parabéns! Muito lindo o texto e sofisticada a sua escrita. Saudades de vc. Abraco da Estela (BH/Marconi)

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