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Apr
12
2011

Recusa

Escritor: Carlos Henrique Martins Abbud

“Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro”

Friedrich Nietzsche
Quando a ilha despontou, embaçada e nebulosa, um ponto azulado boiando no imenso oceano, Ahura sentiu um frágil orgulho de si mesmo, sensação da qual ele já não se lembrava. Foi na prisão que ele ouvira falar daquele lugar. Aquela informação havia sido a única coisa benéfica que carregara dentro de si, após cruzar os odiosos portões que o trancafiaram sem piedade por tantos anos.

Ele queria muito recomeçar. Recuperar o tempo que perdera. Estava ávido por aventuras, faminto por conquistar algo que lhe desse algum poder, que lhe devolvesse um pouco de respeito. Talvez, assim, o destino lhe realizasse o sonho impossível de apagar toda a decepção que pusera no coração de seu velho mestre. Decepção que oprimia a ele próprio tanto quanto o mar à minúscula ilha na qual acabava de pôr os pés.

Ahura puxou o barco com dificuldade, fazendo-o arrastar o casco na areia quente até estar quase inteiramente fora d’água. Suas habilidades de navegação ainda estavam intactas. Mas, quando esticou o corpo, percebeu o quanto estava cansado. Aquela havia sido uma longa viagem. De fato, a distância que acumulara atrás de si era como um punho gigantesco pressionando seus ombros. Um tanto contrariado, acabou admitindo para si mesmo que não sentia apenas o cansaço de um viajante. A prisão lhe roubara tempo demais. Aquilo, aquele ardor na carne e frio nos ossos, eram o que sentiam os velhos. O guerreiro chegou mesmo a questionar, por um momento, se a viagem havia sido uma boa ideia. Seus passos eram lentos. Sua arma era mais um cajado do que a foice de guerra com que seu mestre havia lhe presenteado e ensinado a usar, em um dia muito distante no tempo. Mas, sacudindo a cabeça, concentrou-se apenas no desejo fervente que o guiara até ali. Olhou para sua bússola. Se seu colega de cela estivesse falando a verdade, em pouco tempo estaria pisando em um lugar de onde ninguém jamais havia voltado.

Após a estreita faixa de areia branca que dava forma à praia, surgia uma grama rala e  ressecada pela ação incessante do sol. Tudo era completo silêncio. Nem mesmo o forte vento parecia mover as folhas amareladas das árvores de troncos grossos que começavam a se adensar e encobrir a visão. A ilha era pequena e distante, muito distante de qualquer outro lugar onde vivessem homens. Mas não era apenas o isolamento que mantinha o que viera buscar ainda intacto. Histórias sussurradas nos bares portuários descreviam um horrendo e invencível guardião.

Ahriman era o nome daquele guardião. E ele havia sido um príncipe de um reino próspero, um dia. Ou um poderoso feiticeiro, aprisionado na ilha por um rival. Ou um aventureiro de terras distantes, cuja embarcação naufragou perto dali. E agora ele era escamoso, ou alado, ou teve o rosto totalmente apagado pelos ventos salgados, restando apenas presas disformes em meio a uma mancha sombria. A verdade poderia estar escondida em alguma daquelas lendas, ou não ter nada a ver com nenhuma delas. Ahura sempre achou engraçado o fato de todos terem algo a acrescentar à história sem, no entanto, saber sequer em que direção navegar para chegar até ali.

Um uivo quase humano ressoou próximo ao seu ouvido. Dando um passo para trás, o guerreiro evitou, por puro ato reflexo, a primeira e feroz investida. De onde vieram aquelas garras, afinal? Ahura procurou acalmar a respiração. Sabia que não havia tempo para se perguntar coisa alguma. Tudo o que podia fazer era assumir sua posição defensiva e colocar em prática o que treinara por tantos anos. Enquanto sua mente lutava com as memórias escorregadias de golpes e posturas defensivas, o monstro apresentou-se por inteiro, saltando da copa de uma das árvores decrépitas.
Ahura lutava consigo mesmo para crer em seus olhos. Ali, parado à sua frente, o guardião erguia o corpo e virava lentamente seu rosto negro e deformado. Aquilo não era parecido com nada que ele tivesse conhecido. Era como um primata gigantesco, com garras felinas brilhando nas pontas dos dedos grossos. Naqueles olhos amarelos estava claro que ele sabia o que Ahura viera pegar. E, mais nítido do que isso, uma vontade selvagem, uma raiva instintiva que, em apenas um segundo, destroçou qualquer esperança de vitória que ainda habitava o peito de seu frágil oponente.

O guerreiro apertou os olhos e esperou que, quando a fera saltasse em sua direção, tivesse forças para repeli-lo, ou, ao menos, sorte para desviar o corpo. Mas logo Ahura descobriu que o guardião não era nenhum animal. Porque não fez o que um animal faria. Juntando as mãos e abaixando a cabeça, mostrou que ali restara algo de um homem. Talvez naquela reverência estivesse guardada sua essência, a parte que sempre sobreviveria, a despeito do que sofresse.

Porém, quando o embate começou, aquilo se foi. Ahriman batia com a força de cinco soldados, arranhava como o fariam os dentes de um demônio. Cada vez que lançava suas garras, Ahura era empurrado para trás. Aos poucos, as investidas do guerreiro transformaram-se em uma fuga meio rastejada, em direção às entranhas da ilha.

Quando a arma caiu de suas mãos, Ahura começou a se preparar para o fim. Não era assim que deveria ser. Ele queria mais. Merecia mais. O suor ardia em seus olhos. Acima de si, o corpo negro do guardião era a escuridão inabalável de um céu tempestuoso.

Mas o sol brilhou por um momento, enquanto Ahriman levantou-se lançou os braços para trás da cabeça, preparando o último golpe. Ahura não via nada, não se lembrava de nada, não queria nada. Mas tinha certeza de que tudo o que fizera a partir daquele momento não passara por sua consciência. Não planejou o golpe que dera, com os dedos esticados, no ventre exposto do guardião. Não anteviu a violenta reação daquelas garras e, ainda assim, esquivou-se delas. Não pensou se suas pernas aguentariam afastar aquele corpo maciço, mas chutou-o com sucesso para longe. Sentiu que aquilo não era ele, mas seu mestre. Aquelas ações eram seus ensinamentos, enraizados tão fundo quanto a reverência que ainda dotava o guardião com uma gota de humanidade. Ahura agora sabia que não haveria tempo, doença, medo ou desesperança capaz de apagar aquilo que um dia aprendera.

Ao tentar se por de pé, o guerreiro sentiu que se apoiava em algo de formas diferentes. Aquela pedra, alva e perfeitamente retangular não havia sido feita assim pela natureza. Nem a que se apoiava nela. Nem a seguinte.

Os olhos de Ahura ergueram-se para tentar assimilar o que era aquilo. E todo o seu corpo maravilhou-se com o impossível. Só poderia ser ali. No topo daquela escadaria estaria guardado seu merecido prêmio.

Seu sangue fervia enquanto lançava-se para cima, degrau após degrau. Não importava se o guardião o estivesse seguindo. Tudo o que ele queria era subir. Se fosse preciso lutar novamente, que fosse lá em cima.

Quase no topo da escada o guerreiro já não se continha de tanto interesse pelo que se esconderia poucos metros acima. No entanto, dali, ele podia ver melhor por entre as árvores. E seus olhos, subitamente, estavam presos na figura deformada que não subia em seu encalço, mas sim, caminhava para longe. Caminhava para o mar. Para seu barco. Só então ele entendeu tudo. Ahriman não lutara de verdade. Nem era, de fato, um guardião. Ele não passava de um prisioneiro, como o próprio guerreiro havia sido, até meses atrás. E, na ânsia de vencer o monstro e conquistar seu tesouro, Ahura estava a ponto de oferecer a si mesmo para substituí-lo naquele lugar.

Aquela descida era quase uma queda, dolorida e incontida. O desespero que tomou seu espírito de assalto o fazia ignorar a dor nos músculos e as escoriações. Naquele momento, só lhe importava chegar à praia, mais nada.

Ahriman rugia alto. Seus braços poderosos acabavam de colocar o barco de volta na água. Ele apoiou uma das mãos na borda e quase sorriu, sentindo a madeira balançar, acomodando-se naquele enorme leito azul.  E foi assim, quase sorrindo, que seu rosto tombou contra a areia úmida. Orelhas pontiagudas e presas retorcidas rolaram até o mar. Os olhos amarelos do guardião apagaram-se pouco antes de sua cabeça afundar de vez, retirando um breve suspiro da água inquieta. O corpo órfão fez barulho maior, esguichando espuma e sangue negro ao tombar, mutilado. Logo atrás, apoiado em sua foice de guerra, Ahura apenas olhava, sem saber muito bem o que sentir.

Ele havia vencido. Na ilha, era somente ele agora. Tudo estava em paz e silencioso, como quando ele chegara. O guerreiro agarrou o pequeno barco com ambas as mãos, pronto para arrastá-lo de volta para fora do mar. E então, olhou para trás. Pensou naquela escadaria de pedras brancas, invisível por conta da massa de folhas e galhos castigados. Ali, no topo daquela escadaria, estava o troféu que poderia mudar a sua vida.

Gostaria muito de não ter que decidir. Gostaria que algum relâmpago sobrenatural tivesse derrubado a escada, que a ilha estivesse, de alguma forma, condenada a sucumbir a uma saraivada de flechas prateadas vindas dos céus e ele tivesse que partir imediatamente. Mas, não. Não havia mais perigo, nem urgência. De repente, o guerreiro pôs-se a pensar no que seu velho mestre faria.

Sob o calor cegante do sol, ele quase viu uma figura baixa e sinuosa fluir de entre as árvores até onde estava. Era ele. Só que há alguns anos, quando ainda o recebia em casa com um abraço preparado. O ancião ergueu as sobrancelhas e disse, com a firmeza costumeira, que Ahura nunca fora realmente capaz de saber o que se passava dentro dele próprio, em primeiro lugar.  Como poderia saber o que era preciso para se tornar um homem melhor do que era?

Imagens seguiram surgindo, sobrepondo-se, vertiginosamente. Uma cascata que jorrava ouro líquido ou a poção da vida eterna; artefatos que concediam habilidades divinas ao seu portador; um livro contendo a derradeira verdade sobre o mundo. E o desfile continuaria, se o guerreiro não curvasse o corpo e lavasse aquele brilho com a fria água do mar. Poderia ser tudo aquilo, e muito mais, até. Certamente, ele próprio não resistiria e acabaria aumentando aquela lenda, acrescentando tais visões aos seus futuros relatos.

Mas agora ele não tinha mais dúvidas. Seu mestre simplesmente daria de ombros e não voltaria a subir um degrau sequer. Afinal, se o próprio guardião daquele troféu estava disposto a trocá-lo pela chance de deixar aquele lugar, o que quer que houvesse no topo daquela escada não valeria à pena. Qualquer que fosse o tesouro, não era nada, se Ahura o comparasse com o mais vago risco de perder novamente sua liberdade.

Ahura queria que seu mestre estivesse ali naquele momento. Porque o homem que se sentou naquele barco e empurrou-o para longe da ilha, sem ao menos olhar para trás, era o mais vitorioso dos guerreiros. Porque estava em paz. Porque agora reconhecia e sabia cuidar do que tinha de mais precioso.


Categorias: Agenda,Contos |

1 Comment»

  • Franz Lima says:

    Boa parábola sobre o valor da liberdade. A vitória do guerreiro sobre sua própria ganância transmite uma mensagem interessante.
    A construção deste texto está boa, mas há partes em que o ritmo é acelerado, talvez buscando criar a surpresa, e isso gera uma sensação deperda de conteúdo, onde o leitor é transposto de uma realidade à outra (do pensamento sobre como seria a fera ao ataque dela) em um relance. Isto ocorreu do 5º para o 6º parágrafo.
    Vale ler seu conto e extrair dele as boas lições (não ceder à curiosidade, enfrentar os medos e aprender com a sabedoria dos mais velhos). Busque aprimorar a narrativa com uma leve revisão…

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