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Apr
13
2011

Rose Noire

Escritor: Gustavo Martins

Incontáveis pétalas negras voavam no vento escarlate. As chamas azuis rugiam furiosas ao passo em que tudo se desfazia perante seu toque. Milhares de gritos desesperados ecoavam por toda a cidade numa sinfonia infernal. E no centro de tudo um demônio cantava uma melodia maligna com um sorriso desesperado estampado em sua face.

 

O vento frio do outono fazia farfalhar as folhas secas das árvores e a cortina cinzenta de nuvens impedia que a luz do Sol chegasse ao chão. Naquele momento em que todos desejavam estar em suas casas uma criança olhava o mundo sem cor através de uma janela suja. Nada naquela paisagem morta a interessava, porém tampouco importavam as palavras daquele homem vestido de preto.

Por um instante pensou ter ouvido alguém lhe chamar, porém descartou a hipótese. Ninguém nunca falara com ela e não acreditava que seria agora o momento em que isso ocorreria. Voltou a desligar-se do mundo quando sentiu uma forte pancada atingir-lhe as costas. A dor ardente se espalhou rapidamente e teve de se esforçar para não gritar. Olhou para o causador daquilo e encontrou o homem de preto fitando-a furioso. A garota sentiu seu peito arder e seus olhos incharem. Aquela dor, aquela sensação horrível que lhe rompeu a carne, fora causada por aquele homem. Correu o olhar pela mesa, parando-o sobre o compasso de ponta afiada. Aquele objeto pequeno e frágil poderia facilmente atravessar o corpo de alguém com apenas um pouco de esforço. Um golpe único, leve e limpo e estaria tudo acabado. Só precisaria segurá-lo firmemente, impulsioná-lo contra o peito daquele homem e então estaria feito. Simples assim. Sabia que poderia fazê-lo, tinha certeza daquilo, porém abaixou a cabeça, respirou profundamente e balançou a cabeça em sinal de negativa. O professor falou algo mais e a garota limitou-se a consentir mecanicamente, tentando manter-se sobre controle. Era doloroso, mas era melhor assim.

Após o fim das aulas a garota apressou-se no caminho de casa. Não precisava chegar lá rapidamente, porém não podia demorar-se naquele caminho. Quando chegou à uma esquina retrocedeu instintivamente ao ver o pequeno grupo de garotos que lá estava formado. Só restavam duas ruas entre aquele ponto e sua casa, se corresse um pouco poderia chegar lá em pouco tempo. Para isso, entretanto, teria de passar pelo círculo de meninos e não queria se arriscar.

Levantou a manga da blusa e olhou para o agora cicatrizado corte resultante da ultima vez que entrou no caminho daqueles garotos. Não sabia se resistiria a outra situação como aquela então apenas sentou-se num canto, esperando-os irem embora.

Por várias e várias horas permaneceu imóvel naquele lugar, esperando pacientemente. A noite já caía quando o grupo enfim se dispersou. A garota olhou em volta, receosa, e não viu mais ninguém. Ainda assim aguardou por alguns minutos antes de retomar a caminhada. Antes que pudesse respirar aliviada, porém, sentiu algo lhe atingir a nuca. Ao cair no chão, imobilizada pela dor e pelo choque, conseguiu esforçadamente levar a mão à cabeça. Para seu terror sentiu-a molha num líquido quente. Olhou incrédula para os dedos avermelhados e segurou-se para não gritar. A dor e a fúria, entretanto, faziam daquela uma tarefa cruel e, quando a risada debochada daqueles garotos chegou aos seus ouvidos, entregou-se à fúria. Ergueu-se do chão e fitou cada um dos agressores. Estes por sua vez entreolharam-se confusos, mas ao mesmo tempo alegres por após tanto tempo terem conseguido fazê-la se descontrolar. Em sua risonha arrogância não puderam perceber a expressão vazia que tomara o rosto da garota que, em seu caminhar suave, aproximou-se do grupo. Sua presença fora notada apenas verem-na sussurrar algo no ouvido do mais velho. Um silêncio mórbido parou sobre o local quando, logo após o ciciar, o garoto mais velho atingiu um violento soco em um dos seus colegas. A expressão de medo que tomou o rosto dos garotos logo se desfez numa fúria animalesca. Aquele gesto de traição fora o suficiente para iniciar uma luta entre os garotos. E saindo do lugar algo que vagamente lembrava um sorriso podia ser visto na garota.

Logo que chegou á sua casa foi prontamente atendida pela mãe desesperada. No curto percurso entre o local onde fora ferida e aquele onde agora se encontrava o ferimento teve tempo de fazer verter uma quantidade grande de sangue.

O curativo feito entre várias perguntas e ofensas pela sua mãe ajudou a estancar o sangramento, porém nem mesmo os analgésicos conseguiram diminuir a dor. O rosto empalidecido pela perda de hemoglobinas pairava sem vida por sobre a comida que lhe haviam oferecido. Por mais que sentisse fome não conseguia comer e por mais que a mãe gritasse não conseguia responder às suas questões. Tudo aquilo pesava em sua mente e não fazia idéia de por quanto tempo mais poderia suportar.

Após muito tentar resignou-se a subir ao quarto sem comer. Lá, deitada sob o lençol cor-de-rosa, olhou o mundo através da janela. O frio mórbido do outono a fazia sentir-se deprimida a um nível quase insuportável. Os galhos ameaçadores das árvores desnudas balançando sombriamente na noite apenas tornavam toda aquela situação ainda pior. Sim, por quantas noites permanecera acordada por culpa daquele som aterrorizante e dos gritos.

Ah, os gritos. Amargas marcas da dor, glorificação da agonia e do desespero. Temia-os, era um fato, mas amava-os tanto quanto. Havia algo em sua sombria tonalidade e em sua infinita desesperança que a encantava. Não conseguia compreender sua sede pelo sofrimento alheio, entretanto tinha completa noção de quão anormal ela era. Já se repreendera muitas vezes por tão perturbados pensamentos e em todas elas jurou mudar. E em todas elas quebrou o juramento solene. Aquele cruel sadismo fazia parte de seu ser e não importava quanto tentasse, não poderia livrar-se dele.

Após algumas horas ouviu o barulho alto da porta se chocando contra a parede, prelúdio dos gritos e de mais uma noite de terror. Aquele som irritante, oco e frio significava que aquele homem chegara, novamente, fora de si. Os primeiros gritos que então ouviu não carregavam o desespero que amava, mas apenas uma raiva embriagada e imunda. Seguiram-se as pancadas abafadas e o quebrar de objetos de tantas outras vezes. Tudo estava igual ao que sempre fora. Ao menos até o momento em que o homem chamou-a a cozinha. Era a primeira vez que era chamada por ele durante um de seus momentos de descontrole.

A garota desceu as escadas, trêmula. Não sabia a razão de ser chamada, mas a imagem do rosto ensangüentado da mãe sob o punho fechado daquele homem ocorreu-lhe. Temia que aquela fosse a razão dele tê-la chamado à sua presença. Dominada por esses pensamentos recuou um passo. Sua respiração pesava e seu coração batia loucamente. Olhou para a porta entreaberta do quarto. A luz da lua atravessava a janela e caía sobre ela. O frio brilho branco parecia chamar-lhe e aquele era um pedido que não ousaria recusar. Correu novamente para cima e foi até o limite de seu corpo juvenil ao ouvir a voz do homem vinda do início da escadaria. Atirou-se dentro de seu quarto e trancou a porta.

Estava segura. Lá dentro ele não poderia lhe fazer mal algum. Respirou profundamente para que seu coração voltasse ao ritmo normal. Olhou para a lua cheia que brilhava na abóboda celeste e agradeceu-a pela proteção que concedera. Antes que pudesse se recuperar por completo, porém, sentiu a porta tremer atrás de si e um estampido alto e seco partir-lhe os ouvidos. No segundo impacto viu seu corpo ser jogado com força contra o chão enquanto pedaços da madeira da porta se espalhavam por todo o aposento.

A mente da garota levou alguns segundos para compreender a situação em que se encontrava. Esfregou as mãos no tapete de felpo, tentando localizar-se. Quando finalmente se recompões sentiu um forte aperto no pescoço e uma batida nas costas. Abriu os olhos e soltou um grito abafado. Viu então que era o homem que a segurava e, na porta, sua mãe assistia a cena passivamente. A garganta que ardia, a sensação de asfixia e a traição da mãe eram demais para ela. Por muito tempo resistiu, porém pouco a pouco sua consciência se esvaia na escuridão dando lugar a outra coisa. Em meio à dor e ao desespero a garota sentiu queimar em seu peito uma chama negra. Em meio a escuridão e à desgraça ela se libertou do abraço da morte. Em meio ao mar de chamas negras que se tornara a casa ela sorriu pela primeira vez.

Em poucos minutos o incêndio que começara numa casa do subúrbio da cidade se alastrou por todo o centro urbano. O odor dos corpos carbonizados se espalhou por dezenas de quilômetros. Incontáveis pétalas negras voavam no vento escarlate. As chamas azuis rugiam furiosas ao passo em que tudo se desfazia perante seu toque. Milhares de gritos desesperados ecoavam por toda a cidade numa sinfonia infernal. E no centro de tudo um demônio cantava uma melodia maligna com um sorriso desesperado estampado em sua face.

Naquela noite o inferno veio à terra através do coração despedaçado de uma garota. Naquela noite uma rosa negra floresceu regada pelo sangue de milhares.


Categorias: Agenda,Contos |

1 Comment»

  • Thaina Gomes says:

    Eu vou tentar descrever o que senti lendo esse texto. A cada linha eu ficava ao ponto do desespero e não conseguia mais parar. quando chegou nessa parte : ” A luz da lua atravessava a janela e caía sobre ela. O frio brilho branco parecia chamar-lhe e aquele era um pedido que não ousaria recusar.” eu me senti sendo chamada. E o final foi mesmo fantástico. Parabéns.

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