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Apr
12
2011

Um Pássaro

Escritor: Fabrício Romano

Um pequeno pássaro entre o gato e a porta do banheiro o fez estancar no meio do caminho.

Primeiro viu o pássaro morto. Como em outras vezes, da oferta do caçador felino o que se podia fazer era recolher o morto e enrolá-lo numa folha de jornal antes de depositá-lo no lixo. O gato recebia afago de consideração, mostrando-lhe gratidão pela utilidade doméstica. Mas, desta vez, visto com calma, o que o passarinho estava era paralisado de medo, os olhinhos escuros vidrados no gato à sua frente.

Com o pé, afastou o gato para perto do topo da escada, inclinou-se e aproximou a cabeça o bastante para conferir que o pequeno coração do invasorzinho ainda batia, forte, o pequeno peito em ritmo acelerado, e ficou aliviado com isso.

— Como você veio parar aqui, hein?
Ao que o gato investira em molestá-lo, o biquinho do pássaro se escancarou e ele foi tomado pela ideia de que o coraçãozinho poderia explodir pelo medo e nada poderia fazer além de descer até a garagem, separar um dos jornais da pilha, rasgar um pedaço de uma das folhas, enrolar o morto, jogá-lo no lixo, afagar o gato… Era possível, não? Ratos morrem assim. Alguém bate com o pé ou com uma vassoura para espantar o rato escondido sob a geladeira e ele morre do coração. É o que dizem. Com um bichinho daquele tamanho, então, nem se fala. É tudo tão pequenino nele. O coraçãozinho explodir, coisa bem provável, e o mérito do gato. Pior: e se morresse por culpa sua? Era gigante ameaçador aos olhos do pássaro. Não queria vê-lo morrer.
Sentou-se no chão, cruzou as pernas e segurou o gato atrás de um móvel, fora da vista do passarinho, enquanto este podia se recuperar do susto, perceber que não era ameaçado e, quem sabe (assim ele desejava que o invasorzinho se sentisse), fosse bem-vindo à casa sempre que quisesse aparecer.
Com o tempo, agora o bico cerrado novamente, o passarinho passou a mover a cabeça, piscadelas rápidas, pequenos saltos de um lado ao outro para sondar o lugar.
— Viu? Tá tudo certo, cara.
Num voo longo, desnorteado, rondou o cômodo, tomando a direção do gato, que tentou abatê-lo num golpe, e seguiu no ar, esbarrando nas paredes do corredor estreito, até o cômodo seguinte. Postou-se de pé e trancou o gato no banheiro, tornou-se ao passarinho, agora pousado na beira da cama, certo de que abrir a porta da varanda, indicar a saída e, inutilmente, sugerir fuga daria providência da salvação do novo amigo.
— Agora é só voar. Voa, amiguinho.
Como não voasse senão da cama para o criado-mudo, do criado-mudo para o piso e novamente para a cama ou ao puxador da porta do guarda-roupa, restava apanhá-lo e mostrar-lhe o caminho certo.
Maior que o receio de ser bicado, pensar que poderia esmigalhar o pássaro, logo agora, sem querer, no intento de segurá-lo na mão, deixava-o inquieto e prudente quanto a qualquer ação do tipo. A força imposta na captura era tão débil que o bichinho escapava, sem esforço, entre as mãos frouxas e voava pelo quarto. Tapinhas não fizeram efeito. Empurrar com a sola do pé, tampouco. Voava para um canto e voltava ao mesmo lugar.
A coragem surgiu. Com uma camisa atirada, agarrou-o firmemente. A cabecinha para fora provavemente aguardava o instante seguinte. Passo a passo, em direção à porta da varanda, soltou-o.
Os dois não sabiam o que fazer agora, permaneceram se estudando, um dentro da casa, outro de fora, esperando algo acontecer.
Então o amiguinho, o invasorzinho, voou e pousou no parapeito da varanda; mais salvo impossível, pensaram. Por fim, voou de vez para fora, sobre a rua, voltando-se em pleno voo, a que o sujeito reagiu fechando a porta da varanda para não tê-lo novamente em casa.
Com a porta sendo fechada, o corpinho ficou do lado de fora, e a cabecinha, olhinhos vidrados e bem escuros, quicou pelo piso, até se deter ao pé de madeira da cama.
Ele respirou fundo, mãos na cintura, coçou a cabeça, aproximou o rosto pela última vez, conferiu bem de perto, morto, desceu as escadas até a garagem, apanhou um jornal da pilha, rasgou uma folha, sem pressa, voltou ao andar superior, e soltou o gato do banheiro, afagando-o.


Written by Fabrício Romano in: Agenda,Contos,Fabrício Romano |

1 Comment»

  • Thaina Gomes says:

    Thumb up 1 Thumb down 0

    No final eu fiquei assim O.O Depois de tanto esforço! xD Tadinho do pássaro, que curioso! Nesse caso a curiosidade não matou o gato, foi o passarinho mesmo.

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