Vida Virtual
Escritor: Rafael Leon
Meu dedo tremia e encostava-se ao gatilho.
Minha mãe sempre falava para eu sair de casa. Sempre disse para eu largar os videogames, os RPGs (segundo ela, algo que me influenciava a passar para o lado do demônio), meus desenhos e todo o resto. Eu precisava interagir, como as pessoas normais da minha idade. Eu não era normal, então. Todas as pessoas que seguem um estilo de vida como o meu também não são normais, possuem algum distúrbio mental ou alguma deficiência desconhecida.
Interagir, disse ela. Sair para “ficar com gatinhas”. Exatamente, “ficar com gatinhas”, como os garotos da minha idade fazem. Olhem para mim, magro como um boi no sertão e espinhento como um cacto. Minha única possibilidade de “ficar com gatinhas” seria visitar um pet-shop. Eu interagia, na verdade, mas não da maneira como ela queria. Divertia-me em conversas com conhecidos estranhos, e divertidos desconhecidos. Coisas que você encontra na Internet, e em mais nenhum lugar.
Não desperdiçar a minha vida em frente ao PC também era um dos conselhos que ela me dava. Tão freqüente que, se fosse gravado em uma vitrola e repetido durante o dia inteiro, eu não sentiria a mínima diferença. Pois bem. Isso até que era verdade. Na vida real, não há a probabilidade de salvar seu progresso antes de um momento ruim. Você tem de enfrentar aquilo, por mais duro que seja.
Eu estava com o dedo no gatilho, e minha mãe me mandava dormir.
Pensava em me matar, é verdade. Que jovem nunca pensou em se matar, nunca se desiludiu o suficiente para enfiar a faca no próprio peito? Se há alguém assim, é tão burro para não saber ao menos sua própria identidade. Sua própria fraqueza. Tenho medo de me arrepender, como qualquer um, pois ao contrário dos videogames, a vida não dá nenhuma chance de você recomeçar.
Às vezes eu desejava ser normal, como minha mãe queria. Mas somente para ela parar de encher o meu saco.
Eu estava com o dedo no gatilho. Meu personagem, enfim, foi atingido na cabeça, e repentinamente a tela ficou preta. Esperei dez segundos, me concentrei e voltei ao jogo.
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Num mundo onde ser “normal” significa ser mais um ser humano genérico, os nerds acabam sendo taxados de aberrações com distúrbios mentais. Aposto que o que foi dito no conto acontece com muitos jovens (inclusive eu); o incessante blá blá blá; “e as namoradinhas?”; “Continue aí e perca o seu futuro”.
Gostei do conto, ainda mais por que me identifiquei com o mesmo. Parabéns.
Um bom texto, bem realista, que relata bem o que é ser um nerd. Eu mesma já me vi nessa situação uma tantas vezes…
Belas analogias e alegorias.
Acho que vou jogar Hell Gate
Cara gostei bastante da critica que o texto carrega, e também da personalidade da personagem.
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Mas o aquela parte “conhecidos estranhos” foi sensacional.
Muito interessante o conto.
A ideia de colocar essa frase “Eu estava com o dedo no gatilho” logo no início ciou um suspense gostoso, que com certeza instiga o leitor a continuar lendo o texto para saber o que vai acontecer. Sua descrição da vida de nerd e a ironia contida nela também foram muito boas. Dá gosto ler um texto em que o autor sabe brincar com as ideias, como o “ficar com gatinhas” e “ir para o pet shop”, assim como brincar com o sentido das palavras.
Volto a falar da frase que inicia o texto. Magistral a ideia de repeti-la mais duas vezes, como se fosse um mantra, mantendo a gente que lê na expectativa para o desfecho dessa história. Eu até poderia imaginar que se tratasse de um gatilho virtual, mas como você deu a entender durante o texto que se tratava de algo real, acabei me surpreendendo no término do conto. Parabéns!
Quando puder, dá uma lida em alguns textos meus que estão aqui no ONE. É só buscar “Alex Nunes”. Certo?
Valeu!