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May
21
2011

946-Destino

Escritora: Isabella Dias

Nunca imaginei que fosse acontecer comigo. Foi amor à primeira vista. Nossos caminhos se entrelaçaram tão de repente que quando percebi estava totalmente envolvida sequer conseguia enxergar um palmo a frente de meu nariz que não fosse ele. Antes vivíamos nossas vidas como se nunca fossemos nos encontrar uma dia, eu estava no ensino médio, cumpria horário integral e reforço de matemática a noite, inglês aos sábados e correria todos os dias.

Eu morava longe de tudo, morava no final da ultima rua do mundo. Era um lugar tão estranho que tinha que aproveitar quando as outras pessoas saíam logo cedo para acompanhá-las e chegar viva ao colégio. Na volta era um suplício, meu irmão ficava me esperando para que eu não fosse seqüestrada assim que descesse do ônibus. Isso era uma das coisas mais complicadas naquela epóca: os ônibus. Eu pegava várias linhas diferentes por dia, passava longas horas pra lá e pra cá.

As horas pelo caminho eram quase sempre intermináveis, só voavam quando eu caia no sono. Essas horas eram ideais pra recapitular palavras ditas, ler o assunto da prova (quando conseguia sentar!), observar o mundo, observar as pessoas… Ah! As pessoas como são peculiares e iguais ao mesmo tempo; Como os seres humanos podem ser cruéis, e como podem ser doces! Gostava de ver os casais pelo caminho por onde os diversos ônibus que eu pegava passavam, mas ficava constrangida quando havia um deles ficava muito próximo de mim. Além de não saber pra onde dirigir o olhar, eu ainda não tinha experimentado para valer aquele frio na barriga, aquela ausência de sentidos e total falta de chão de quando se está apaixonado.

Mas isso não durou muito tempo. Um belo dia ensolarado senti mais que a brisa fresca da manhã me tocar, senti como que estivesse sendo absorvida por aqueles olhos castanhos sem fim. Eu estava lendo e por um instante me distraí, bastou um ínfimo instante para que tudo que eu tinha aprendido e aquele mundo que eu construíra, misto de minhas experiências e das experiências alheias, desaparecesse. Se não estivesse sentada certamente mesma teria ido ao chão. Isso não importa porque não havia mais chão, só aquele ser angelical que puxava para si meus olhos enquanto estava parado ao meu lado de frente para mim. Não sei se foi ele ou eu que olhou primeiro, quando vi, ele sorria e eu respondia com um sorriso tímido e assustado de quem começa a descobrir um novo universo.

Ele parecia tão forte e ao mesmo tempo tão delicado, senti que agora éramos só nós dois e minha intuição dizia que seria assim para sempre. Ele simplesmente não resistiu àquela situação e balbuciou alguma coisa, meus olhos ariscos fugiram daquele plano celeste e quando retornaram ao ponto onde o avistei ele não estava mais lá. Pude vê-lo afastando-se lentamente, ao passo que a velha realidade voltou. O sinal vermelho abriu, meu ônibus seguia rumo a minha vida de sempre, enquanto eu imaginava para onde aquele anjo ia imperceptível em meio a um emaranhado de pessoas num outro coletivo. Eu devia saber, era um amor impossível.

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