A Caixa Verde
Escritora: Cindy Dalfovo
A caixa brilhava no centro da mesa, detalhes em verde formando tentáculos, pequenos monstros com presas, palavras de significados desconhecidos. Os cinco presentes a olhavam com algo entre curiosidade e desconfiança.
Ficaram assim alguns momentos até que o mais alto deles falasse, um elfo de pele negra e olhos de um tom de azul brilhante que rivaliza com o brilho dos detalhes da caixa. – Eu acho que falo por todos quando digo… o que diabos é isso, humano?
O dito humano sorriu da outra ponta da mesa, apoiando os cotovelos no cabo de seu machado gigante para se inclinar para a frente. – Isso… isso é uma coisinha que eu descobri na minha última expedição até a Terra Perdida. Vejam esses detalhes na superfície… vocês nunca viram algo assim, não é mesmo?
- Bom – veio a voz de um ponto na altura de seus joelhos, ao seu lado. – Eu continuo não vendo “nada assim”.
- Oh, perdão, Alef – e, dizendo isso, o elfo loiro ao seu lado passou uma mão ao redor de sua cintura e o ergueu até que ele ficasse sobre a mesa. -Que tal agora?
- Obrigado, Éos – respondeu o gnomo, finalmente tendo a oportunidade de admirar a caixa. Teve certeza de que nunca vira nada parecido, de fato, com os detalhes em verde parecendo pulsar, feito uma coisa viva. – OK, é uma caixa… e daí?
Como se estivesse esperando isso, o humano abriu um sorriso, passou a mão pelos cabelos negros e bateu com o punho fechado sobre a caixa. – Isto… isto é o que nós vamos descobrir hoje.
- E se isso for algum tipo de armadilha? Você encontrou isso na Terra Perdida, é bom lembrar. Eu não acredito que nada encontrado lá seja “seguro” – falou Éos, um tanto quanto contrariado. Olhou para o lado e viu o elfo negro, Kouran, assentir com a cabeça, concordando com seu receio. Alef e a elfa do outro lado da caixa, Killian, agora olhava para ela como se ela fosse se abrir e tentar devorá-los.
- Na realidade, eu já a abri. Não é nenhuma armadilha – e o humano colocou ambas as mãos sobre a caixa, colocando os dedos sob dois pequenos detalhes encarvados na caixa. Girou os dedos um pouco, e então puxou, abrindo a caixa pela parte superior, em duas partes.
Mesmo ouvindo “não é nenhuma armadilha”, os outros quatro deram um passo para trás quando viram o humano abrindo a caixa.
- O fato é que… eu não entendi seu conteúdo – disse o humano, e deu um suspiro.
Aberta, a caixa era mesmo ligeiramente assustadora, embora uma análise mais cuidadosa revelasse que não havia nada ali dentro que realmente quisesse atacá-los. Os pequenos tentáculos verdes, gordinhos e cheios de escamas, talvez pudessem tentar, se tivessem mais do que oito centímetros cada um. Pareciam presos à base da caixa, e cobriam pequenos objetos, como alguns dados, algumas cartas antigas e algumas pedras coloridas.
A curiosidade finalmente a venceu, e Killian esticou o braço para pegar algumas das cartas que se encontravam ali. Olhou com atenção os detalhes, vendo o desenho de uma pequena criatura, e alguns números escritos. – Isso parece… um jogo.
- Um jogo? – o humano coçou a cabeça. – É, eu não havia pensado nisso…
- Bom, se é o caso… vamos jogá-lo! – Alef sorriu e, ao dizer isso, os tentáculos pareceram se organizar.
Nas pontas dos tentáculos surgiram cinco pedras douradas, cada uma com o número um escrito em alto relevo. O grupo trocou olhares e, então, cada um pegou uma das pedras. Em seguida, os tentáculos voltaram a se mexer, criando cinco pilhas de cartas. Novamente, cada um deles pegou uma das pilhas.
Eram nove cartas: uma possuía um desenho de um simples boneco, sem roupas ou outros artefatos, quatro possuíam desenhos de artefatos e itens, como jóias, armas e armaduras, e quatro possuíam desenhos que remetiam a monstros e maldições. Assim que colocaram as cartas na mesa, aquelas que se pareciam com equipamentos e armas se aproximaram da carta com o boneco, e então uma fumaça verde emergiu das cartas.
- Mas o que… – Kouran abriu a boca para falar algo, mas não conseguiu continuar ao ver que sua carta agora possuía um boneco armado com uma espada e vestido com uma armadura de couro.
Enquanto isso, Alef olhava para as cartas ao seu redor, até exclamar: – Mas por que eu sou o único que não conseguiu nenhuma armadura? – e olhou desanimado para a sua carta, que possuía a silhueta de um personagem com uma adaga na mão.
- Esse é, definitivamente, o jogo mágico mais incrível que eu já vi – disse Killian, com alegria, admirando sua carta que mostrava uma silhueta de uma mulher com um arco e uma proteção de cota de malha. Mas seu sorriso desapareceu um instante depois. – Mas eu ainda não sei como jogar.
- Parece-me um jogo de interpretação – disse Éos, olhando ao redor e então para os tentáculos. – Um jogo de aventura. Imagino que tenha feito sucesso entre as crianças. Mas como iniciar a aventura?
E novamente a pergunta fez efeito sobre a caixa mágica, pois os tentáculos voltaram a se mexer, fazendo surgir uma carta. A pedra dourada de Alef começou a brilhar, que olhou para seus companheiros, olhou para a pedra e então deu de ombros. Pegou a carta e a colocou sobre a mesa, virando-a. Nela, o desenho de um pequeno monstro, algo como uma mistura de coelho com polvo enfurecido.
Ao colocar a carta na mesa, ela passou a brilhar e novamente surgiu fumaça verde, dessa vez vindo da nova carta e da carta que possuía o “personagem” de Alef. A fumaça se ergueu e ficou ali, estática.
Alef olhou para os companheiros. – Então… o que era para acontecer?
- Alef, eu acho que você estragou o jogo – disse Killian, arqueando as sobrancelhas.
Logo que ela disse isso, porém, a fumaça se dissipou, e o monstro apareceu derrotado na carta. A pedra de Alef brilhou com intensidade e então o número um foi substituído por um dois.
Killian soltou um grito agudo quando um dos tentáculos se estendeu, ficando muito mais longo e então puxando de volta a carta do monstro. Outro tentáculo colocou uma carta a frente de Alef, que a pegou e viu um colar de pedras preciosas desenhado. Ele a colocou ao seu lado e então seu personagem mudou, aparecendo com o colar.
Kouran olhou para o humano com severidade. – Howard*… você tem certeza de que esse jogo é seguro?
- Eu nunca disse isso – ele ergueu as mãos, se defendendo. – …disse?
Antes que Kouran pudesse responder, a pedra de Éos começou a piscar.
- Eu… acho que é a minha vez – disse Éos, com certa relutância. Estendeu a mão e pegou a carta que o tentáculo lhe ofereceu. Dessa vez a carta não possuía um monstro desenhado, mas um ser vestido com um robe vermelho, um capuz sobre os olhos e parecendo segurar algo como um polvo verde e monstruoso em suas mãos. – Mas o que é isso…?
Fumaça verde voltou a surgir, mas dessa vez desapareceu rapidamente, mostrando o personagem de Éos vestido com o mesmo robe vermelho e segurando uma pequena criatura verde em suas mãos.
- Eu acho que o objetivo desse jogo é encontrar os mais incríveis tesouros – disse Howard, animando-se. – Se for o caso, Alef está se saindo melhor do que você, Éos!
Alef sorriu e olhou para Éos, que retribuiu o olhar com cara de quem não estava muito impressionado com a teoria.
O jogo começou a ficar mais ágil a medida em que eles iam compreendendo as estranhas regras: monstros deviam ser combatidos, e a cada monstro derrotado a pedra aumentava seu número, o que parecia tornar cada personagem mais forte. E também haviam os tesouros, que poderiam ajudar ou atrapalhar em batalhas.
Killian logo se tornou algo que lhe pareceu uma estudiosa, roupas estranhas e livros nas mãos, e Howard logo tirou uma carta que deixou seu personagem com o mesmo robe vermelho de Alef. Algum tempo depois, ocorreu o mesmo com Kouran.
As batalhas de Alef, Howard e Kouran ficaram especialmente estranhas depois disso: quando surgia um monstro, não apenas a carta do jogador atual brilhava e fazia surgir fumaça, mas também as cartas dos outros dois, como se estivessem se unindo contra o monstro.
- Que bela a união de vocês – disse Éos, olhando para os outros três.
- Você está com inveja do nosso poder – disse Alef, cutucando-o. Éos apenas revirou os olhos.
- Não é como se vocês já estivessem descoberto o objetivo do jogo – disse ele, dando de ombros. – Por tudo o que nós sabemos, o objetivo do jogo pode ser… não sei, ser o último a usar o robe vermelho?
- Eu não acho isso provável – murmurou Alef.
Nesse momento, a pedra dourada de Éos brilhava. A cada rodada que se passava, mais ele tinha certeza de que aquele jogo poderia não ser totalmente seguro. Mas o ânimo de Alef, Howard e Kouran em continuar o jogo o assustava, e ele não estava disposto a estragar uma reunião entre velhos amigos. Além disso, estava curioso, e foi essa curiosidade que fez com que ele estendesse a mão para pegar sua carta.
Novamente o robe vermelho, e o personagem de Éos se transformou.
- Ei – grunhiu Killian, olhando para os companheiros. – Eu me sinto excluída.
Durante algumas rodadas, nada de muito interessante ocorreu – passado o deslumbramento inicial com as pedras que brilhavam, os tentáculos que esticavam e a fumaça verde, a mecânica do jogo não parecia variar muito. Killian começou a ficar contrariada, especialmente com o fato de ser a única que aparentemente lutava sozinha contra seus inimigos.
- Gente, não quero mais jogar – soltou Killian, no que foi surpreendida pelo olhar reprovador de seus amigos.
- Oras, você começou. Agora termine – disse Kouran, dando de ombros.
- Mas nós nem mesmo sabemos como o jogo termina – retorquiu Killian. – Terminem o jogo vocês – e se virou para ir embora. Foi aí que sentiu a mão de Howard se fechando ao redor de seu braço, puxando-a de volta. Assustada, olhou para Howard, que a encarou com o olhar decidido.
- Nós nos reunimos para descobrir o propósito dessa caixa. E nós vamos descobrir.
- Além disso, é a sua vez – disse Alef, apontando para a pedra brilhante de Killian.
De repente, o comportamento de seus amigos lhe causou mais assombro do que o estranho jogo. Sem entender muito bem a persistência de seus colegas, ela tirou uma nova carta.
Novo personagem de robe vermelho, ao lado de algum personagem com roupas de estudioso, e do outro lado um guerreiro. Aquele de robe vermelho parecia estar lutando contra os outros dois. Novamente, fumaça verde.
Ao se dissipar, a fumaça pareceu descer até o chão. Killian olhou para seu personagem, que agora possuía o mesmo robe vermelho. – Oras… agora eu faço parte do clube…
Mal terminou de dizer isso, uma grande nuvem de fumaça verde começou a se formar sobre a mesa, surgindo de todas as cartas sobre a mesa. Foi ficando cada vez mais densa, subindo até o teto. A nuvem brilhava, como se possuísse mini-trovões em seu interior.
De repente, tentáculos.
Mas não os pequenos tentáculos da caixa, não, estes eram muito maiores, surgindo do nada. Conforme iam aparecendo, mais os cinco companheiros se enchiam de pavor e estranhamento. Um dos tentáculos já era maior do que qualquer um deles. E então, surgiu o que unia os tentáculos: uma criatura monstruosa e verde, com olhos gigantes e uma boca terrível, com garras e dentes e qualquer outra de absolutamente horrenda que poderia existir.
- Mas o que…
E então o Grande Cthulhu os devorou antes que Kouran pudesse terminar sua frase.
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Eu fiquei com a pulga atrás da orelha com essa caixa! E agora acabou? ou tem alguma continuação? Eles morreram? Eu sou tão curiosa quanto eles xD.
Gostei do conto, interessante essa caixa, espero que tenha continuação. Esta caixa verde me fez lembrar de alguns mitos relativos a “terra oca”, acho apenas que houve um pouco de exagero no usa das reticências no texto, alguns trechos ficariam melhor sem elas na minha opinião.
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Mas confesso, curti muito o elfo negro, agora uma pergunta… Você curte Yu-Gi-Oh? A pergunta chega a ser estranha, mas o jogo e as cartas do conto criam uma conexão direta com esse anime e por isso perguntei.
Acho que se bem desenhado, esse conto daria um bom mangá para se ler, “O Grande Cthulhu”. Parabéns!