A Cobra
Escritor: Ramon Bacelar
Não fosse a proteção da caixa de vidro de 10 mm, Júlio jamais ficaria tão próximo de uma Cascavel de Quatro Ventas: os olhos penetrantes, em aparente disparidade com as súbitas contorções ondulantes da língua em V e o vagaroso gotejar do denso veneno amarelado, o envolviam em uma hipnotizante rede de curiosidade, fascínio e profunda felicidade.
-Sensacional, extraordinário…
O feiticeiro olhava para Júlio com um sutil sorriso de satisfação desenhado nos lábios: aquela deliciosa sensação de dever cumprido.
-Simplesmente extraordinário, fabuloso! Não, não…MAGNÍFICO, se a perfeição não existe você chegou próximo, não sei como lhe agradecer.
-Sou profissional, só fiz o que me foi…
-O equilíbrio das cores, o ruído do guizo, a perfeição dos movimentos, a densidade e transparência do veneno, tudo, tudo…
-Na verdade…
- E claro!!! O senso de claustrofobia, impotência e aprisionamento, um trabalho de mestre!!!
Júlio se exaltava com os olhos fincados na cobra.
-Na verdade só fiz o que me foi pedido.
-Sim, mas não imaginei que a transformação, a metamorfose fosse tão intensa, completa…perfeita! Imagino o esmero e dedicação investidos.
-Huumm…Não exatamente…Na verdade foi um dos meus trabalhos mais rápidos e fáceis, justamente por não envolver metamorfoses ou outros fenômenos semelhantes, melhor seria dizer um rearranjo ou…
-Como não?
As palavras saíam do feiticeiro com a cautela de um soldado em um campo minado.
-Sim… Como eu ia falando o que eu fiz foi, digamos, um rearranjo, uma r…
-Você está me deixando confuso.
-O que eu fiz foi…foi…reverter a sua sogra ao estado natural!!!
Ao ouvir o berro do feiticeiro, a pobre cascavel fincou as mandíbulas no corpo cilíndrico e com um fraco ruído do chocalho, envenenou-se em sua própria condição.
FIM
Nota: este conto é uma obra de ficção, não traduz as crenças, opiniões e visão do autor; qualquer semelhança com nomes de pessoas reais e locais é mera coincidência.
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Ramon, a história apresenta uma certa dose de humor e não está ruim. Contudo, aconselho-o a ampliar o conto, uma vez que o tamanho curto atrapalhou (na minha opinião) o desenrolar da trama. Creio que algo mais explicado, detalhado, iria melhorar a compreensão.
Ps.: gostei da parte “reverter a sua sogra ao estado natural”.
Continue escrevendo.
Olá Franz,
O texto, incluindo o título deliberadamente enganador, é inteiramente dependente do final surpresa. Entendo o que você quer dizer, mas não consigo visualizar como uma ampliação e/ou detalhamento de algum trecho (uma explicação mais aprofundada do processo mágico? Maior ênfase na caracterização? Divisão por capítulos para dar uma quebrada no ritmo?)poderia contribuir para uma melhora, sem minar a ironia e a força do impacto do final surpresa.
Obrigado pelas dicas e leitura.
Abraço
Ramon
Bom, a idéia é boa, como já disse, mas creio que ela poderia ser melhor explorada e, mesmo assim, não perder a surpresa.
Porém, o que importa é que continue escrevendo e produzindo. Estamos em um contínuo processo de aprendizagem. Aqui podemos nos expor sem medo das críticas, já que todas as opiniões sempre serão voltadas ao aprimoramento.
Valeu!
Concordo com o Franz. a história em si é boa, apesar do alívio cômico no final (ferramenta a qual normalmente não me agrada). Já li outro texto seu e vc tem uma capacidade descritiva muito maior do que a apresentada aqui — e também narrativa. Vc poderia ter considerado um texto um pouco mais extenso. Talvez a narração dos trejeitos do “genro” e sua expressão “admirada” enquanto analisava o réptil ou da forma como ele eventualmente interrompia o feiticeiro…