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May
10
2011

A Cobra

Escritor: Ramon Bacelar

Não fosse a proteção da caixa de vidro de 10 mm, Júlio jamais ficaria tão próximo de uma Cascavel de Quatro Ventas: os olhos penetrantes, em aparente disparidade com as súbitas contorções ondulantes da língua em V e o vagaroso gotejar do denso veneno amarelado, o envolviam em uma hipnotizante rede de curiosidade, fascínio e profunda felicidade.

-Sensacional, extraordinário…

O feiticeiro olhava para Júlio com um sutil sorriso de satisfação desenhado nos lábios: aquela deliciosa sensação de dever cumprido.

-Simplesmente extraordinário, fabuloso! Não, não…MAGNÍFICO, se a perfeição não existe você chegou próximo, não sei como lhe agradecer.

-Sou profissional, só fiz o que me foi…

-O equilíbrio das cores, o ruído do guizo, a perfeição dos movimentos, a densidade e transparência do veneno, tudo, tudo…

-Na verdade…

- E claro!!! O senso de claustrofobia, impotência e aprisionamento, um trabalho de mestre!!!

Júlio se exaltava com os olhos fincados na cobra.

-Na verdade só fiz o que me foi pedido.

-Sim, mas não imaginei que a transformação, a metamorfose fosse tão intensa, completa…perfeita! Imagino o esmero e dedicação investidos.

-Huumm…Não exatamente…Na verdade foi um dos meus trabalhos mais rápidos e fáceis, justamente por não envolver metamorfoses ou outros fenômenos semelhantes, melhor seria dizer um rearranjo ou…

-Como não?

As palavras saíam do feiticeiro com a cautela de um soldado em um campo minado.

-Sim… Como eu ia falando o que eu fiz foi, digamos, um rearranjo, uma r…

-Você está me deixando confuso.

-O que eu fiz foi…foi…reverter a sua sogra ao estado natural!!!

Ao ouvir o berro do feiticeiro, a pobre cascavel fincou as mandíbulas no corpo cilíndrico e com um fraco ruído do chocalho, envenenou-se em sua própria condição.

FIM

Nota: este conto é uma obra de ficção, não traduz as crenças, opiniões e visão do autor; qualquer semelhança com nomes de pessoas reais e locais é mera coincidência.

 

 


Written by Ramon Bacelar in: Agenda,Contos,Ramon Bacelar |

4 Comments»

  • Franz Lima says:

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    Ramon, a história apresenta uma certa dose de humor e não está ruim. Contudo, aconselho-o a ampliar o conto, uma vez que o tamanho curto atrapalhou (na minha opinião) o desenrolar da trama. Creio que algo mais explicado, detalhado, iria melhorar a compreensão.
    Ps.: gostei da parte “reverter a sua sogra ao estado natural”.
    Continue escrevendo.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Olá Franz,

    O texto, incluindo o título deliberadamente enganador, é inteiramente dependente do final surpresa. Entendo o que você quer dizer, mas não consigo visualizar como uma ampliação e/ou detalhamento de algum trecho (uma explicação mais aprofundada do processo mágico? Maior ênfase na caracterização? Divisão por capítulos para dar uma quebrada no ritmo?)poderia contribuir para uma melhora, sem minar a ironia e a força do impacto do final surpresa.
    Obrigado pelas dicas e leitura.
    Abraço
    Ramon

    • Franz Lima says:

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      Bom, a idéia é boa, como já disse, mas creio que ela poderia ser melhor explorada e, mesmo assim, não perder a surpresa.
      Porém, o que importa é que continue escrevendo e produzindo. Estamos em um contínuo processo de aprendizagem. Aqui podemos nos expor sem medo das críticas, já que todas as opiniões sempre serão voltadas ao aprimoramento.
      Valeu!

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    Concordo com o Franz. a história em si é boa, apesar do alívio cômico no final (ferramenta a qual normalmente não me agrada). Já li outro texto seu e vc tem uma capacidade descritiva muito maior do que a apresentada aqui — e também narrativa. Vc poderia ter considerado um texto um pouco mais extenso. Talvez a narração dos trejeitos do “genro” e sua expressão “admirada” enquanto analisava o réptil ou da forma como ele eventualmente interrompia o feiticeiro…

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