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May
10
2011

Amnésia

Escritora: Lara

Ulisses acordou em uma manhã qualquer.Andou cambaleando, como fazem as pessoas assim que levantam de suas camas, e foi até ao banheiro do outro lado do quarto.Lavou o rosto, examinou a barba rala por fazer, o cabelo desgrenhado e os quilos a mais em sua silhueta.Deu descarga e abriu a porta.

            “Qual era o nome dela mesmo?” Pensou, encostado a porta.Na cama, sob a colcha de retalhos, comprada por sua mãe em um natal passado, dormia uma moça de cabelos loiros. Lembrou da festa, das bebidas.Lembrou de Clarice.Mas não se lembrava da loira que dormia em seu quarto.Vestiu uma camiseta que encontrou, escreveu um bilhete para a adormecida em seu colchão.Pediu que encostasse a porta quando saísse e agradeceu pela noite, que ainda permanecia nebulosa em sua mente.

 Ulisses foi até a praia.Sentou na areia e ficou apenas olhando o mar. Mas junto com a ressaca – que sucede toda bebedeira – as imagens, os sons e as lágrimas dos últimos dias invadiram novamente seus pensamentos.Continuou olhando fixo para o mar. Seus dedos se fecharam na forma de um punho, e em um salto o rapaz recluso antes sentado, agora balançava seus braços no ar e gritava o único nome no qual poderia pensar.

Levou as mãos à cabeça e caiu de joelhos na areia macia.Sentiu as lágrimas voltarem e seu rosto queimar.Pelo canto do olho viu que as poucas pessoas ao seu redor o encaravam, mas de todos os problemas, este era o menor.Fechou os olhos e desejou ter amnésia.Não funcionou.Ainda lembrava dos anos passados com Clarice, desde o primeiro momento em que encontrou seus olhos até o ultimo em que os vira.

Quatro anos antes, quando ainda estava na faculdade, foi a uma festa em uma casa próxima a sua.Chegou com um amigo, mas em uma fração de segundo o perdeu para qualquer uma das garotas dali.Não conhecia nenhuma daquelas pessoas, então começou a beber.Após vários copos, sentiu vertigens e procurou a porta para ir embora.Tropeçou e tateou pelo caminho como um cego, até sentir um leve toque em seu ombro.

            -Você quer ajuda?Disse uma suave voz feminina.

            -Eu estou bem, obrigada.Respondeu, tentando parecer sóbrio.

            -É melhor sentar.Venha, eu te faço companhia.

            Ele não resistiu e acompanhou a moça.Só conseguia olhar para o par de olhos que brilhava, como diamante, e que ficou impresso para sempre em sua memória.

                        -Qual é o seu nome?Perguntou a dona dos olhos.

            Ulisses odiava aquela pergunta.Sim, era a pergunta mais trivial que existia, mas mesmo assim a odiava.Tinha um nome incomum e sempre soube disso.Culpava sua mãe.

                        -Os três grandes Ulisses.Ela costuma dizer beijando sua testa, enquanto o garoto revirava os olhos.

Amante de literatura estrangeira se apaixonou ainda jovem pelos livros de James Joyce e quando engravidou não hesitou em homenagear o herói do autor irlandês.Mas, desde pequeno, ouvia as pessoas fazerem a eufórica exclamação: “Como o herói grego de Homero”.Sempre concordava, apesar de, na realidade, não ser.

                        -Ulisses.

                        -Como no livro de James Joyce?

            O rapaz mexeu a cabeça positivamente, ainda incrédulo, com a boca semi-aberta e com os olhos indagando quem seria aquela criatura.Ela era mesmo real?O olhar hipnotizador, os cachos volumosos que caíam como ondas pelos ombros, a pele pálida e os lábios finos e pintados de vermelho, que se abriam em um sorriso que deixavam o herói universitário sem ação.

                        -O meu é Clarice.

            Conversaram por muitas horas.Ulisses restabeleceu parcialmente sua sobriedade, mas não tinha a menor vontade de ir.Ao contrário, queria que aquela noite não tivesse que acabar.

Clarice era três anos mais nova e trabalhava em um bar.Desistiu de dois cursos e tinha decidido que queria ser escritora.

                        -Não podem nos ensinar como escrever em uma sala de aula.Eu quero escrever sobre as pessoas e para elas.Quero saber como se comportam, como são suas emoções e suas reações.E isso não pode ser ensinado apenas em aulas e leituras.Temos que aprender sozinhos e por experiências próprias antes de colocar tudo no papel.

            Ulisses concordava enfaticamente com tudo o que ela dizia, apesar de muitas vezes, nem saber do que se tratava o assunto.O álcool continuava a embaralhar seus pensamentos, mas a força dos olhos dela era ainda mais forte do que qualquer bebida.

                        -Tenho que ir.Disse Clarice se levantando.

                        -Não vá!As palavras saltaram da boca dele em um impulso, como se tivessem ganhado vida.

                        -Não se preocupe.Não será a última vez que nos veremos.Sorriu e se afastou, da mesma forma que apareceu, como uma miragem.

            Ulisses temeu nunca mais conseguir tira-la da cabeça.Seu medo se concretizou.O segundo encontro, que Clarice preveu, aconteceu duas semanas depois e foi a última vez que estiveram separados.

            Aprenderam juntos como dividir uma vida e uma casa.Descobriram também, o sexo e o significado de amar.Não foi fácil.O egoísmo de Ulisses e o temperamento instável de Clarice eram obstáculos.Passaram por grandes altos e grandes baixos, ao longo de quatro anos de amor e lágrimas.O último mês foi especialmente difícil.Brigavam muito e Clarice estava mais tempestuosa do que o comum.

            Em uma tarde, Ulisses chegou no apartamento, do terceiro andar, e chamou pela namorada.Não teve resposta.Sentou na cama para tirar os sapatos, olhou para o chão e viu vários pedaços de cachos de cabelo espalhados.Chamou-a novamente.Abriu com força a porta do banheiro e ela estava lá, sentada entre a privada e o box do chuveiro, tentado se esconder,chorando com a tesoura nas mãos.Ulisses tentou acalma-la, beijou sua face, limpou as lágrimas que escorriam e tirou a tesoura de seu alcance.Mas ela parecia alheia a presença dele, apenas continuava repetindo que queria voltar para casa.

                        -Aqui é a sua casa!A nossa casa!Exclamou ele com ardor.Mas não via reação alguma no rosto de sua pequena, aninhada em seus braços.

            Conseguiu, depois de muito esforço, faze-la dormir.Mas estava preocupado.Ainda a amava mais do que qualquer outra pessoa e não conseguia imaginar o que se passava pelos pensamentos dela.Agora, sabendo do desfecho de sua história, se sentia estúpido de não ter visto todas as evidências que indicavam o fim.

            E o fim chegou.Aterrisando como um avião desgovernado sobre sua casa, seu relacionamento, seu corpo e sua vida.

            Clarice desapareceu.Como da primeira vez que a vira.Como uma miragem.Tudo tinha sumido, as roupas, os discos, os manuscritos de seus livros.Tudo.Menos seu cheiro.Ulisses sentou com as mãos repousadas sobre os joelhos.Tentava pensar, tentava controlar as lágrimas.Fracassou.Chorava.As únicas coisas que deixou para trás foram o batom vermelho sem tampa e vários papéis amassados sobre a pia.Começou abrir os papéis, para ver se encontrava algum indício de seu paradeiro, um endereço ou um número de telefone.Não achou nada.Em vez disso, encontrou várias cartas apenas começadas com um impessoal “Caro Ulisses”, sem nada mais.Mas em uma das folhas, encontrou a letra grande e descuidada que tanto era familiar aos seus olhos.Nela, não havia uma carta de despedida ou uma justificativa, era apenas o que ela tentava dizer a tanto tempo e ele nunca conseguiu escutar:

“Eu sou um pássaro, me trancam na gaiola e esperam que cante como antes. Mas um dia eu consigo resistir e vou voar pelo caminho mais bonito”.

            Colocou o papel ao seu lado.Não conseguia pensar.Continuou sentado, atônito e petrificado.Não sabia o que estava sentindo, se ao menos houvesse algo que o fizesse sentir repúdio e raiva.Mas não havia.E ainda não há.

            Ulisses emergiu de seus pensamentos quando um guarda noturno lhe chamou a atenção.O sol que ardia tinha dado lugar à brisa noturna e algumas estrelas começavam aparecer timidamente no céu. Foi até ao mar, molhou as mãos e as passou pelo rosto.Gostava de sentir o gosto do sal.A noite já tinha se imposto quando começou a caminhar de volta para casa.

            Abriu a porta, destrancada e levemente encostada.Avistou o bilhete, no mesmo lugar que o tinha deixado pela manhã, e a cama, agora vazia.Olhou em volta e pensou em como o cheiro dela resistia ao tempo, entre aquelas paredes brancas e o chão frio de lajotas.Desejou, agora com mais força, ter amnésia.Permaneceu de olhos fechados.Não queria saber se tinha funcionado.


Categorias: Agenda,Contos |

1 Comment»

  • Franz Lima says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Lara, o texto é interessante. A descrição de uma separação e suas sequelas não é algo fácil de se fazer e, sem dúvidas, você o fez com competência.
    Tente, entretanto, evitar alguns deslizes. Quando diz: “Sentiu as lágrimas voltarem” – você não havia citado o primeiro choro. Além disso, talvez por distração, há uma ocasião em que você coloca Ulisses respondendo “obrigada”.
    Mas, no geral, o texto não fica comprometido por isso.
    Boa sorte em seus novos trabalhos.
    :)

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Publicado por Lara

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