Crepúsculo de Ferro
Escritor: Antonio de Souza
Ainda tremia quando colocou o envelope sobre a mesa de jantar. O calor ambiente não era capaz de apaziguar a frialdade instalada em suas entranhas e muito menos fundir completamente as gotículas quase congeladas que se acumulavam sobre sua testa. Um arrepio estável acompanhava-o há alguns dias, mantendo eriçados os pelos de sua nuca e de seus braços, e um sabor estrangeiro, meio acre e ao mesmo tempo levemente adocicado, perpassava cada fibra de sua garganta. Respirou fundo, absorvendo a maior quantidade de ar possível antes de sentar-se defronte ao pacote. Depositou suas mãos espalmadas contra a madeira escura do móvel, coberta por uma camada substancial de poeira. Os finos dedos longos e a pele branca pareciam-lhe mais débeis que de costume, não sabia o porquê.
Ele fechou os olhos e deixou-se adivinhar os papéis espalhados sobre o sofá em frente à televisão abandonada, os lenços remexidos no quarto, a louça acumulada sobre a pia na cozinha, o alimento rançoso que dormitava na geladeira. Há pelo menos dois meses o homem havia dispensado a mulher que ocasionalmente vinha pôr em ordem o apartamento, por motivos financeiros. O amigo com o qual dividia as despesas mudara-se definitivamente da cidade, indo fixar residência em outra, onde fora admitido no curso de Medicina. Era ainda um rapaz, mas sempre muito dedicado e às voltas com livros e estudo. Francisco o invejava; chegara a desejar, vendo o quanto o jovem trabalhava em seu intento, que jamais passasse nos exames, que ficasse enterrado ali, com ele, para sempre. Sentira-se mal, obviamente, com a sombra cruenta daqueles pensamentos a alojarem-se em sua cabeça, mas eram criações involuntárias, frutos naturais de sua atividade mental. Não se poderia culpar por coisas como aquelas, então simplesmente as aceitava, permitindo que surgissem, vez ou outra, na superfície de seus pensamentos.
Desde a mudança daquele seu amigo vira-se obrigado a arcar com todas as contas do apartamento, motivo de sua constante falta de dinheiro. Mas tudo havia de mudar, graças ao conteúdo miraculoso do pacote de papel barato e de aparência tão comum. Com certo vagar, Francisco levou sua mão direita ao papel e examinou a forma bem definida sob a aspereza do invólucro. Um sorriso pueril ganhou dimensão em seus lábios, apertando seus olhos e riscando as extremidades destes. Tinha ali a semente de um novo futuro, a chave de todas as portas. Há muito esperava por aquela ocasião e não deixaria passar por entre seus dedos aquele momento admirável quando se acende a estrela esperançosa de um majestoso farol — indicador do mais acolhedor dos portos, do mais insigne destino. Decidiu-se finalmente por abrir o envoltório e fitar com seus próprios olhos o objeto de sua ocasional devoção, sua deidade particular.
Antes, contudo, de qualquer ação sua, no exato instante em que se preparava para a abertura efetiva do envelope, o telefone trinou repentinamente, sonoro como o gralhar soturno dos corvos. A aparência do aparelho também não era muito diversa. Encimando uma mesinha alta sobre uma única coluna delgada, como que no alto de um poleiro, a antiga máquina negra e reluzente encarquilhava-se sobre si mesma como uma ave de rapina em sono profundo. Seus gritos eram intermináveis e Francisco, apesar de muito resistir, fora obrigado a atender à chamada inconveniente. Afastou a cadeira e levantou-se para ir até a ave monstruosa. Descansou a mão sobre o telefone, experimentando o toque do material que o compunha e ponderando sobre se deveria ou não atender a chamada. A insistência com que persistia a tocar levou o homem a fazê-lo, mesmo que a contragosto.
Pode ser algo importante, pensou.
Quem lhe falava do outro lado da linha era a figura obscura com quem vinha confabulando no último mês. Francisco não sabia seu nome e muito menos lhe conhecia o rosto, nada além de sua voz grave e impositiva, logicamente masculina, apresentando-se apenas pela alcunha insalubre e sugestiva de Mefisto. Este pouco falava e cuidava de deixar claro seu caráter de hipersuficiente na relação entre os dois. Em algumas ocasiões chegara a gritar com Francisco, dizendo-lhe que soubesse reconhecer seu lugar e trabalhasse como lhe era ordenado que fizesse. Francisco, desde pequeno tímido e meio submisso, sempre respondia com um “sim” sussurrado, seguido eventualmente por um melodramático “me desculpe”. Mas o homem tinha a Mefisto como a um mensageiro do Senhor, um daqueles anjos do Antigo Testamento o qual seu pai obrigara-o a ler na juventude, sendo essa a obrigação de todo bom judeu, como se costumava dizer. Francisco respeitava a voz telefônica como que vinda de uma linha direta com o Paraíso, como uma prova incontestável da atenção de Deus para com ele — fato o qual sempre julgara improvável, dado as características da vida que levava.
— Já está com ele? Pegou-o na gráfica, como lhe mandei?
— Sim, Senhor — respondeu Francisco.
— Espere por mim, irei até seu apartamento e lhe direi o que deve fazer. Não saia — as últimas palavras de Mefisto foram seguidas por um baque abafado e o som entediado de uma linha vazia.
Francisco colocou o fone de volta no gancho do aparelho e sentou-se novamente à mesa. Não queria mais abrir o envelope. Seu desejo morrera por dois motivos: primeiro porque tinha o peito apertado, aflito com a possibilidade de finalmente ver Mefisto pessoalmente, conhecer sua face e, possivelmente, se tivesse sorte, seu nome verdadeiro — um sinal de confiança, pensava —; e segundo porque ele achava que o outro não gostaria se o pacote tivesse sido aberto, devassado, violado sem o seu consentimento. O medo da reação de Mefisto foi mais potente que sua avidez. Desistiu de abrir o pacote, porém continuou sentado à sua frente, observando-o com olhos gulosos, aguados.
Enquanto isso, Francisco lembrou-se do último mês e de como conhecera Mefisto. O primeiro contato dos dois parecia obra do ocaso, da sorte. Cansado da vida que levava e sentindo-se sufocar pela sua verdadeira vocação, Francisco finalmente decidira-se por fazer algo para ver realizadas as suas verdadeiras aspirações, postas de lado e negligenciadas em vista da severidade das diretrizes paternas. Telefonou para uma grande editora para perguntar sobre os procedimentos para apresentação de originais, e, depois de acabar por contar ao atendente toda a sua tragédia particular, este lhe dera o número de contato de Mefisto.
Como se vê, queria mesmo era ser escritor. Eram poucos, sim, os grandes e famosos membros dessa nobre classe; facilmente contáveis os que dela extraíram fortuna, então. Mas Francisco acreditava em sua capacidade e estava certo de que, com as devidas oportunidades e o dispêndio da quantidade exata de esforço e determinação poderia tornar-se um grande autor. Até podia ser, conforme seus delírios mais secretos, uma máquina produtora de best-sellers em série. Tinha talento, o sabia. Sempre o soubera. Vários de seus professores no ensino médio e na faculdade de Direito aconselharam-no a ingressar na carreira literária. Mas seu pai, o austero e quadrilátero Sr. Krammer, posicionara-se terminantemente contra aquelas inclinações subversivas do filho. A opinião da mãe era secundária, sombra subsidiária e praticamente inexistente. Francisco nem mesmo se lembrava do que ela teria dito quando ele mesmo, então com vinte anos, levantara durante um jantar a possibilidade de afastar-se temporariamente do curso de Direito para escrever um pouco ou talvez cursar alguns semestres de Letras na faculdade. Da pobre mulher não recordava, com seu lenço sempre presente a cobrir sua cabeça, seus olhos embaciados sobre o alimento e os lábios frenéticos a tecer incessantemente arcaicas orações hebreias. A reação do pai, todavia, recordava em detalhes. Presenciara a mesma ocorrência diversas vezes, em pesadelos ocasionalmente bastante verossímeis. O velho Krammer largou os talheres no prato e cruzou os dedos em frente ao rosto, com os cotovelos sobre a mesa. Os vítreos olhos azuis crivaram Francisco como adagas cossacas quando ele perguntou calma e pausadamente o que o filho havia dito. O jovem titubeou e piscou repetidamente, engolira em seco um pouco de comida que havia em sua boca. Sentindo-se oprimido pelo olhar inflamado que o atingia, finalmente tomado pelo temor e pelo respeito, baixou os olhos e respondeu que não havia dito nada. Todos continuaram a comer em silêncio. Depois desse episódio, Francisco não voltou a falar sobre literatura em casa e o Sr. Krammer passou a vigiar rigidamente suas leituras, permitindo-lhe não mais que a Torá e uns livros de teor puramente jurídico. Afinal, seu filho havia de ser um grande advogado; quiçá magistrado.
Ironicamente, o velho judeu morrera na noite da formatura de Francisco, presa de potente pneumonia, e não pudera vê-lo formado bacharel. Por outro lado, também não presenciara seu desespero ao não conseguir ser empregado por nenhum bom escritório de advocacia nem passar num concurso público decente. A Mãe de Francisco não sobrevivera muito mais, afogando-se inexplicavelmente na pia do banheiro. O herdeiro, então, ficara com o apartamento só para si e começara a trabalhar como consultor jurídico numa pequena cooperativa de pescadores no leste da cidade. Enfim, a história de Francisco Krammer pode ser definida razoavelmente por uma única palavra, uma na qual se poderia ver abarcada toda a sua existência: frustração.
Cansado, o homem já se encontrava com a cabeça recostada sobre os braços cruzados na mesa. Seus olhos pesados fechavam-se e abriam-se num ciclo inconstante de consciência e sono. Francisco nem percebia a fome que sentia, tão suspenso estava na vigília. Quando não mais era capaz de suportar o torpor que cantava em seus ouvidos e fechou os olhos definitivamente, três circunspectas batidas contra a porta despertaram-no. Foram bastante fortes e rápidas, como trovões no meio de uma tempestade wagneriana. Ele levantou a cabeça e passou a mão esquerda ao longo do rosto, limpando-o da sonolência.
Mefisto!, pensou Francisco, sobressaltado.
O homem foi até a porta num salto, segurou a maçaneta com força e, pensando novamente, parou para alinhar suas roupas e cabelos antes de abrir a porta. Tudo foi muito rápido, apesar de não o parecer assim tudo escrito, descarrilado na folha de papel. Aberta a porta, deparou-se com um corredor vazio, meio escurecido por causa de uma lâmpada defeituosa. Francisco olhou para os lados, com o cenho torcido, mas não viu ninguém. Algumas portas à esquerda uma senhora já idosa num vestido estampado sumia com seu poodle dentro de uma porta, nada mais.
Onde estaria Mefisto? Quando o homem abaixou a vista, como costumava fazer, encontrou sobre o soalho um envelope roxo. Ele o pegou e o trouxe mais perto de si para vê-lo com mais cuidado. Não havia nada escrito sobre a face superior. À parte inferior, em contrapartida, liam-se duas letras maiúsculas desenhadas numa grafia bastante feminina: F. K. A missiva era destinada a ele. Francisco entrou novamente, rápido, e correu até a janela. Escancarou-a bruscamente e debruçou-se sobre o parapeito, investigando os transeuntes na rua, tentando descobrir quem teria deixado a carta à sua porta. Havia inúmeras pessoas, era simplesmente impossível distinguir qualquer rosto ou adivinhar qualquer identidade no meio da noite. Carros sem conta cruzavam-se em frente ao prédio. Pensou que Mefisto, se é que fora ele quem viera, poderia estar dentro de um daqueles também.
Uma ventania sibilou contra a janela e o homem terminou por fechá-la, sabendo inútil continuar ali. Ainda de pé abriu o envelope roxo e tirou de dentro dele um pedaço de papel branco devidamente dobrado. Nele, a mesma caligrafia cuidada do sobrescrito prescrevia, com enorme economia de palavras e de forma dolorosamente direta, os próximos passos que Francisco deveria tomar. Ele deveria ir, na manhã seguinte, às onze horas, até um determinado restaurante. Do lado de fora, esperaria até que saísse de lá um homem vestindo um terno preto e gravata listrada azul-marinho e carregando uma pasta de couro marrom-escuro. Reconhecendo esse homem, Francisco o abordaria, com o pacote, e o entregaria para ele, dizendo que era um presente de Mefisto. Essa era uma chance única, jamais se repetiria, pelo quê se requisitava o maior zelo do escritor para com sua efetuação.
Era tudo o que dizia o bilhete, assinado Mft. Francisco atravessou toda a sala e foi desabar no sofá velho. Desvencilhou-se de todos os papéis que cobriam o móvel e deitou-se, mantendo os pés no chão, contorcendo a parte mais baixa da coluna vertebral. Permaneceu ali, naquela estranha posição, relendo várias vezes as linhas de Mefisto. Tinha de decorá-las, consumi-las completamente. Havia de assimilá-las tão perfeitamente a ponto de ser capaz de recitar a mensagem de trás para frente, cuidando da pontuação e acentuação retrógradas com tanto apreço quanto a que despendia, em vista de sua educação, para com a gramática ortodoxa. Fazendo tudo corretamente, conforme descrito no papel, amanhã, àquela hora, já estaria um passo a frente na doce trajetória rumo ao sucesso.
Suas íris castanhas quase rasgaram o papel, tamanha a obstinação de sua leitura. Quando estava certo da digestão da mensagem, sentou-se e fincou os cotovelos nos joelhos, segurando o papel defronte a si com as duas mãos. Suas costas doíam, provavelmente em vista de ter-se mantido tanto tempo naquela posição deletéria. Seguia as linhas traçadas contra o branco numa exótica tinta escarlate. Não parara para pensar naquilo até aquela hora. Mefisto usara uma caneta vermelha para escrever aquela mensagem. Por que vermelho? Não é muito comum que se escrevam cartas naquela cor. Apenas títulos e coisas afins seriam riscadas assim, aprendera nas suas aulas de redação na escola.
Outra nuance estranha era a grafia rebuscada, quase barroca que o escrito ostentava. Letras iniciais maiúsculas cheias de espirais excêntricas e curvaturas arquitetônicas cruzando-se entre si ao longo de linhas ausentes e engolindo as minúsculas afáveis que lhes serviam de sustentáculos. Tudo em letra de forma, num manuscrito meio medieval. Lembrou a Francisco de uma cópia da Carta Magna, de João Sem-Terra, que um seu professor da faculdade tinha pendurada na parede do escritório. As letras nem eram tão semelhantes, mas o estilo, o espírito dos símbolos era demasiado igual. As duas levemente inclinadas para a direita; as duas com seu cuidado artístico e semblante arcaico. Mefisto parecia ser tão rude, tão aristocraticamente incisivo para o que ali se esboçava no papel. Imaginava-o a digitar em computadores supercaros, enviando epístolas apenas por e-mail, obviamente.
Mas aquela carta era perturbadora. Sem falar do envelope roxo. Por que teria escolhido aquela cor? Seria alguma mensagem, alguma forma de testá-lo? Foi pegar o sobrescrito que havia abandonado sobre a mesa e passou a analisá-lo. A letra sobre ele era a mesma da carta, com certeza, porém a tinta era diferente. Era preta. Teria Mefisto se esquecido de marcar o destinatário enquanto confeccionava a carta, escrevendo sobre ela aquelas iniciais só depois, às pressas? Francisco, apesar dos esforços, não foi capaz de discernir nas duas iniciais ali presentes qualquer característica que corroborasse sua suposição. Mas não havia outra explicação plausível para a divergência de cores. Depois duns minutos acabou por concluir ser irrelevante a discrepância. Será mesmo? E se tudo for parte de um código secreto, de um bem elaborado quebra-cabeça? Roxo, branco, vermelho e preto. E quanto à caligrafia teatral? Saberia o missivista que Francisco relacionaria a grafia à Magna Carta? Não, não seria possível tal coisa. Ou seria? Francisco balançou a cabeça e suspirou profundamente. Lançou as folhas de papel sobre a mesa e deu uns passos em direção á janela, apenas para retornar a sua posição anterior e tornar a ter nas mãos a carta enigmática. No fim, sentou-se novamente na cadeira de antes.
Voltou a deitar os olhos sobre o pacote pardacento temporariamente olvidado. Não poderia abri-lo, pois a mensagem dizia que o “pacote” seria entregue ao tal homem no restaurante. Não fez referência ao seu conteúdo ou algo assim, mas ao pacote em sua completude. Essa simples palavra configura-se, para Francisco, numa proibição taxativa, num comando imperativo de Mefisto. Segurou o envelope amarronzado em frente a si, arrostando-o. Realmente não precisava abri-lo. Conhecia o objeto em seu interior. Um livro. Uma cópia impressa de seu livro inédito, para ser mais exato. Quando falara com Mefisto pela primeira vez, um mês atrás, ele dissera ser não apenas capaz de fazer com que sua obra fosse publicada por uma grande editora, mas que faria dele um homem rico e famoso. Tinha, segundo alegava, amigos extremamente influentes na mídia e no mercado editorial, além de uma classe dentre eles aos quais chamava pelo genérico denominador “devedores”. Derramou nos ouvidos do jovem aspirante a escritor os nomes de alguns dos autores por ele tutelados e garantiu satisfação completa em caso de contrato firmado.
Francisco logo avisara que não dispunha de grande patrimônio e que dificilmente seria possível pagar o preço que Mefisto cobraria por tão épica empreitada. Este, por sua vez, àquele momento tão educado e melífluo quanto havia de ter sido o ofídio instigador da transgressão paradisíaca, fez uma oferta ao homem. Deixaria o pagamento para uma segunda ocasião, quando Francisco já estivesse em posse dos frutos da posterior publicação, tendo direito a porcentagem considerável de tudo o que adviesse de sua empresa. Francisco, usando-se de seu senso jurídico, aceitou a proposta imediatamente, sabendo que não haveria como comprovar o acordo e efetuar as cobranças às quais o homem aludia. Concordes, Mefisto estipulou para Francisco, antes de mais nada, enredos possíveis, características úteis a personagens, limites de laudas e algumas outras disposições determinantes. A forma como falava lembrava a Francisco o discurso do pai, o que o levou a aceder docilmente, sem qualquer indagação. Era quase sobrenatural a influência de Mefisto sobre ele.
Nos dias seguintes, escreveu sem descanso. As costas arqueadas contra o espaldar endurecido da cadeira, as mãos raquíticas movendo-se sobre o teclado do computador e os olhos baços, sem brilho, secos em vista da iluminação do monitor. Comeu pouco, bebeu pouco, saiu apenas para trabalhar; não viveu. Ao menos não até terminar a obra, intitulada Crepúsculo de Ferro. O livro seria, segundo as palavras do próprio Mefisto, a estreia triunfal do escritor iniciante, a grande abertura dos portões da fama, da fortuna e do reconhecimento. Assustou um pouco a Francisco quando, no meio daquela conversa exaltada, Mefisto dissera que aquilo teria feito seu pai engolir seu orgulho judaico e ceder à liberdade do filho único. Na época, contudo, Francisco não tivera presença de espírito suficiente para reconhecer o devido estranhamento da situação. Estava, sim, inebriado com a gama reluzente de possibilidades que se desdobrava à sua frente. Mefisto indicou-lhe a gráfica competente para a impressão de seu livro — impressão rústica, com encadernamento em espiral, coisa que poderia ser feita em qualquer papelaria menor — e agora tinha prescrito o procedimento para, ao que parecia, a publicação do livro. Francisco achava que o homem do restaurante poderia ser um grande editor, ou ao menos sócio de uma grande empresa de editoração. Certamente era um dos tais devedores de Mefisto. Não se deixou pensar muito a respeito, sabendo-se inútil fazê-lo. Levantou-se e foi dormir, esperançoso do dia que se seguiria àquele.
À hora acertada, onze da manhã, Francisco recostava-se à parede da fachada do restaurante indicado no bilhete de Mefisto. Ainda tinha fome, pois só comera um pedaço de pão velho pela manhã, junto com duas xícaras de café. Sua cabeça doía. Vestia uns jeans surrados e uma camisa verde-musgo enfiada dentro deles. Óculos escuros enormes cobriam parte do seu rosto e ele apertava contra si o envelope pardo, esperando pela oportunidade de sua vida. Finalmente poderia demitir-se de seu emprego medíocre na cooperativa e enviar àquele seu amigo de antes uma cópia autografada de seu magnífico livro, empurrando sua garganta adentro uma injeção enorme de seu ego literário. Ah, sim, sua vida seria diferente.
Prestava muita atenção a todos que entravam e saíam do restaurante, mas não divisava ninguém que se enquadrasse na descrição de Mefisto. Bocejou algumas vezes enquanto esperava. Sua presença, ao que parecia, começava a incomodar o gerente do estabelecimento. Um dos seguranças saiu e prostrou-se em sentinela frente às portas, com os braços cruzados e o queixo erguido. Sua pose intimidadora, porém, não era suficiente para demover Francisco de sua posição ou intento. Continuou a esperar, inabalável.
Passadas três horas desde que Francisco havia chegado, saiu do restaurante um homem que se encaixava perfeitamente em todas as características prescritas na mensagem da noite anterior. Aparentava ter uns trinta anos e caminhava com um passo autoritário, cheio de si. O sangue de Francisco ferveu dentro de suas veias e um furor nunca dantes experimentado tomou-lhe cada músculo. Arrancou os óculos da face abruptamente e arremessou-os contra a calçada, então correu em direção ao homem com a pasta de couro, gritando que esperasse. Aquele, por sua vez, já se preparava para entrar num carro preto último ano e nem mesmo voltou-se para o jovem.
Quando Francisco aproximou-se dele, antes, todavia, que pudesse tocá-lo, o segurança que estava junto à porta colocou-se repentinamente no meio do caminho e empurrou-o, fazendo com que caísse. O homem alto gritou-lhe que fosse embora ou chamaria a polícia e então voltou para junto da porta. Quando se pôs de pé novamente, Francisco viu o carro preto distanciar-se na avenida e sumir ao virar a direita duas ruas à frente, desaparecendo definitivamente da vista do escritor. Os olhos de Francisco marejaram enquanto lembravam-se das palavras de Mefisto. Era uma única chance, sua única e derradeira oportunidade. Sua respiração ficou pesada e ele, por fim, desatou a chorar. Sentou-se no meio-fio e deixou a desolação alastrar-se dentro de si. Alguns pedestres olhavam-no apreensivos, às vezes até perguntavam se precisava de ajuda. Ele não dizia nada, apenas balançava a cabeça negativamente.
O jovem abraçava e beijava o envelope efusivamente, manchando-o com suas lágrimas. Não havia mais o que fazer. Passou-se seu destino brilhante, voando por sobre sua cabeça como uma coruja aziaga, remetendo-lhe um pio fantasmagórico à guisa de adeus. Num rompante, rasgou violentamente o papel pardo que cobria o livro. Tinha de haver outra alternativa, poderia mandar cópias daquele original para algumas editoras e almejar uma publicação. Ou podia tentar participar de um concurso literário que lhe desse alguma credibilidade. Sorte sua que lhe restavam aqueles papéis, pois seu computador, pouco depois de ter enviado um cd à gráfica com o arquivo do livro, fora vítima de surpreendente virose, suficiente para devorar de forma irrecuperável todos os dados que angariara até então. Francisco tinha nas mãos o único resquício da grande obra que compusera.
Desfeito o invólucro de papel, viu por sobre a capa de plástico transparente a folha de rosto, na qual se lia o título Crepúsculo de Ferro em letras maiores e o seu nome, Francisco Krammer, em caracteres de menor tamanho. Respirou fundo, tentando acalmar-se, tentando visualizar alguma luz naquelas trevas todas. Abriu o livro, por fim, e um espectro agarrou seu pescoço num garrote inexorável. Sentiu os pulmões comprimirem-se e um punhado de fuligem subir por sua garganta. Começou a folhear o livro rapidamente, com força, com raiva. Não entendia o que acontecera e sentia-se vacilar, como se percebesse que desmaiaria. Seu raciocínio estava desconexo, doloroso e o ambiente ao redor girava carrosséis vertiginosos de bestas metálicas disformes. Depois da folha de rosto, ao longo de todas as trezentas e cinqüenta e seis páginas seguinte, lia-se, cobrindo cada centímetro de papel uma única palavra repetida inúmeras vezes. Repetido dementemente ad infinitum, como uma legião de formigas a devorar o papel mesmo, um substantivo ridículo e ao mesmo tempo classificatório. Podia-se ler, aparentemente para sempre, o mesmo seco e abjeto vocábulo: “inseto”.
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Sobre livros e suas adaptações cinematograficas
#ficadica 004 – Escrever todo dia é a fórmula do sucesso?
A Máquina Diferencial
Resenha do livro "O estranho mundo de Tim Burton"

Brother, já imprimi seu trabalho e irei, como disse, lê-lo no final de semana. Obrigado pelos comentários em meus trabalhos. Continue escrevendo… vejo-o na coletânea “Cassandra”.
Agradeço desde já, meu caro! Espero sua pinião, que certamente terá grande valor – pelos comentários seus que já li em outros contos.
Antonio, este texto ficou extremamente bem escrito. As descrições me lembram muito o estilo de José de Alencar e o encerramento mostra o quanto pode sair caro pactuar com “pessoas” da estirpe de Mefisto.
Como seu conto não tem um enredo com muita ação, a leitura ficou agradável. Contudo, casao queira escrever algo englobando mais ação, sugiro não utilizar este tipo de descrição, pois quebra o ritmo, fazendo com que o leitor perca o interesse.
No mais, ficou evidente seu domínio da língua portuguesa, o que já é um passo decisivo para se tornar um escritor ainda melhor.
Muito sucesso…
P.S.: onde estão seus outros trabalhos? Envie mais para ampliar o rol de ótimos contos do ONE.
Valeu, Franz! Obrigado por ter lido e comentado. Já compararam meu trabalho com o de um monte de gente, mas com José de Alencar foi a primeira vez! estou lisonjeado!
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É, sou meio old school mesmo — “literatura com o mínimo de movimento”. Tenho de tentar algo com mais ação, certamente e ficarei atento ao seu conselho. Este conto específico foi minha homenagem ao Mestre Kafka, como se pode perceber das várias “dicas” ao longo do texto e principalmente do final “metamorfoseano”.
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Eu fico meio apreensivo de postar meus trabalhos por essas bandas, sendo sincero com vc. Não por medo de críticas, que é a elas que pertence todo e qualquer escrito literário; mas por medo de indiferença, entende? Pode-se ver claramente que há um grupo seleto de escritores/leitores que leem e comentam os contos uns dos outros e um outro grupo de “outsiders”, cujos textos praticamente não são comentados… Quem escreve quer ser lido, não? De qualquer forma, há ainda dois contos meus pendentes (menores, talvez por isso de leitura mais viável). São menos pretensiosos que este, logo talvez sejam encarados como de menor qualidade…
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Enfim, mais uma vez agradeço!
Não há motivos para ter receio de ser “esquecido” no ONE, Antonio. Estou há pouco tempo e, certamente, a recepção de todos é a melhor possível. Para melhorar sua “presença”, continue fazendo o que já faz: participe, comente e escreva. O seu espaço não é menor que o meu, do Rainer, da Samila ou de qualquer outro.
Mais uma vez, seja bem-vindo.
Sucesso.
Franz.
Post Scriptum: aguardarei a publicação de seus outros textos e também seu comentário em meu conto “Rumo”.
De forma alguma, não tenho do que reclamar com relação à recepção que me foi dada por aqui. “Au contraire”, todos foram extremamente gentis e prestativos e me senti à vontade desde o início. Meus medos, acho, são naturais aos neófitos de grupos quaisquer e não algo diretamente referente ao ONE propriamente dito — se é que isso faz sentido…
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às vezes ainda fico meio acanhado na hora de comentar. apesar de ler vorazmente e de tudo, ainda sou um leigo no que concerne a todo tipo de teoria literária; logo, comento apenas com base em quesitos puramente subjetivos. Tento ser o mais cortês possível, e até acho que tenho feito um bom trabalho.
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Enfim, agradeço imensamente sua atenção e certamente lerei o seu conto e comentarei assim que puder.