Durmo de bruços
Escritora: Daniela Marques
Durmo de bruços, Disse Joanede engajada em assuntos esotéricos enquanto a água fervia na cozinha, Li que os que dormem de bruços são os melhores amantes, continuou. A vizinha de brincos espalhafatosos e maquiagem antiquada ouvia curiosa, pensava sinceramente em passar a dormir de bruços na esperança de findarem, então, os casos adjacentes do marido. O assunto foi interrompido pela gritaria das crianças da rua, Meu Deus! O Júnior deve ter caído de novo… Ai, esse menino vai me matar, Disse a vizinha espalhafatosa, Joanede engasgou assustada, a lembrança da visita à vidente no dia anterior veio à tona nesse exato momento “Gritaria, choradeira, algo errado na vizinhança, novidades conhecidas”, embora tenha ido em busca de alguma notícia sobre a sua vida amorosa, que andava desaparecida, recebeu isso.
Saíram apressadamente em direção à rua, incrivelmente, todas as crianças já haviam se recolhido, restava somente o filho de Ive, como gostava de ser chamada a vizinha. Aterrorizado, esfregando as mãos pelo rosto molhado, se agarrou à cintura da mãe e pediu para que saíssem depressa dali. Joanede não dormiu, só a imaginar o que poderia ser, que assombrava a brincadeira das crianças e aparecia na visão da cigana. A curiosidade sobrepunha o medo e aquilo lhe dava até um certo prazer. O sol tardou a raiar, e ao seu primeiro sinal Joanede pôs-se a sentar na varanda da casa, na espera de passar por ali vivalma disposta a contar-lhe qual o motivo de tanta agitação na pequena cidade. Nada, Ive resolveu aparecer por ali já contava meio dia, chegou ofegante, o vermelho de sua bochecha excedia o vermelho do blush barato, correu, olhava para os lados temerosa. Menina, você não sabe, ele foi solto! Ele foi solto! A vizinhança está em choque, tem gente dizendo que vai mudar de cidade… Estou quase fazendo o mesmo, Ive sempre foi escandalosa, mas como tal, nunca havia sido. Joanede sentou-se para absorver o choque. Achou o maço de cigarros, jurou que só iria desenterrá-lo em casos extremos, tragou profundamente. Havia parado, mas esse era, realmente, um fato extraordinário.
Anos atrás, José, jovem formando da escola local, enlouqueceu. Vestia sapatos bem polidos e calça boca de sino, imitando os boyzinhos da cidade que seguiam os anos 70 de outros lugares. Olhou-se no espelho e declarou seu amor a si próprio. Sentou-se no sofá e tomou a cerveja do pai. No rádio os últimos gols do Flamengo, Dane-se o Flamengo. Quero dormir, pronto para ver os novíssimos vestidos rodados das meninas, saiu de casa. Os professores congratulavam os futuros adultos. José sorria ironicamente. Ninguém percebia. O nevoeiro que vinha da serra invadiu seu ser, e isso já ocorria há tempos, mas hoje o tempo nublado anunciava chuva. Chuva nos olhos das mocinhas correndo de um lado para o outro diante da ameaça armada do rapaz. Senhoras e senhores, um espetáculo não ensaiado. Saias e saias levantadas, vergonhas à mostra, Dionísio dominava-o e desfrutava-o, ainda assim, agia consciente. Tomou para si a virgindade das pobres inocentes, ria descontroladamente. Completamente louco.
José tornou-se o mito do local. A história correu dos becos mais escuros às mansões mais iluminadas, jamais foi esquecida. O monstro. A aberração. Temido pelas massas. Secretamente idolatrado por enrustidos dementes.
Enquanto o cigarro acalmava seus nervos, o filme de terror passava pelos olhos de Joanede. Sua mãe havia feito um vestido especialíssimo para a ocasião. Cílios postiços enfeitavam-lhe os miúdos olhos, batom carmim para dar saúde aos lábios. Sentia-se bonita, o que não era comum. Equilibrando-se no salto atravessou o salão e sentou-se num canto afastado. Dali observava José secretamente. Não que José fosse o tipo popular, pois não era. Não era feio, nem bonito. Para ela, era lindo. Joanede era a única a manter uma paixão secreta pelo jovem. Esperava que, como as outras mocinhas do salão, fosse violentamente tocada por ele. Ao fim da noite mais triste daquelas meninas, não teve pena. Sentia inveja.
O filme foi interrompido pela conversa ensurdecedora de Ive, a esse ponto a presença dela já não se fazia mais necessária. Joanede franziu a testa e fechou os olhos, Estou com uma enxaqueca terrível! Preciso dormir, Ive então, finalmente, partiu. Joanede deitou-se na cama, avaliou a maciez do colchão, a organização do quarto, imaginando-se a amar dentro daquele ambiente. Vestiu-se a caráter e foi à sua procura.
José abriu os olhos devagar para que a luz não atrapalhasse sua visão. Livre. Sentia o vento bater contra seu peito. Os anos que o torturam dentro daquela cela jamais foram suficientes para que recaísse sobre ele qualquer sentimento de culpa. Sua consciência era branca. Sua liberdade era plena. Sobre seus lábios envelhecidos permanecia o sorriso do baile. Desceu a avenida, transfigurava rostos por onde passava. Sorria por dentro, o prazer era irresistível.
Ao cair da noite, permaneceu a vagar pelas ruas escuras. Ao longe avistou uma mulher, de vestido rodado e lábios vermelhos, também a vagar na escuridão da noite, despreocupadamente, à espera do inesperado.
Sorrateiramente foi ao seu encontro. Enquanto ela andava a passos lentos rodeou-a em seus braços suavemente. Ela correspondeu beijando-lhe a face. Se amaram ali. Enquanto ele brutalmente desfrutava de seu corpo, ela sussurrava de prazer. Caçoando das virgens do baile, que não souberam usufruir daquele momento, como ela fazia agora. Findado o prazer, retirou-se do corpo da mulher enquanto esta suspirava e pôs-se a dormir de bruços ao seu lado.
1 Comment»
RSS feed for comments on this post.








Espírito do Século. Novo RPG Pulp da RetroPunk já entrou em pré-venda!
Editora UNZA RPG estreia com suplemento GOBLINS em campanha para OLD DRAGON!
Alan Moore pede que leitores de Before Watchmen nunca mais leiam obras de Alan Moore
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
Papo na Estante 33 – Literatura de Entretenimento
Show, Don’t Tell ou Mostre, Não Diga.
Occupy Comics: Alan Moore e David Lloyd colaboram
Resenha do livro "O estranho mundo de Tim Burton"
Filhos do Éden - Herdeiros de Atlântida 


Nossa, que clímax psicodélico!!! É raro ver autores optarem pelo modelo saramaguiano de diálogo, para não dizer deveras audaz. Parabéns, pois o usou belamente!