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May
25
2011

Estupre sua mãe

Escritor: Diego Figueira

estupre-sua-mae

Vinte e duas horas e quarenta e três minutos.

- Você viu no Datena?

- O quê?

- Aquele cara que abusou da filha.

- Ah.

- Viu?

- Li algo por cima na internet.

- E então?

- Então o quê?

- Que me diz?

- Que me diz o quê?

- O cara que abusou da filha. Também acha que ele merece uma vida digna na prisão, que alimentem o filho da puta com nosso dinheiro suado? O meu dinheiro, o seu dinheiro, o do cara que não consegue chegar em casa a tempo de dar um beijo de boa noite no filho com ele ainda acordado?

- Ah, você ainda tá nisso.

- É, eu ainda tô nisso, não era disso que agente tava falando?

- Ok, podemos continuar nesse assunto se é o que você deseja.

- E então?

- O quê?

- Você ta chapado ou o quê? Perguntei se você acha que o filho da puta merece(…)

- Ele não teve escolha.

- Ahn?

- O cara que abusou da filha.

- Eu sei, o cara que abusou da filha. O quê você disse de não ter escolha?

- O cara era um xarope, estou certo de que foderam com a cabeça dele quando ele era pequeno ou qualquer merda assim.

- E isso pra você isso justifica?

- A questão não é justificar, o cara não quis isso. O cara é isso!

- Isso o quê?

- Jorjão, traz mais uma!

- O cara é isso o quê?

- O cara é louco, a merda já ta feita, de que vai adiantar torturar o cara, fazer ele comer merda e o caralho a quatro? A filha do cara não vai melhorar em nada com isso. Isso não é justiça, é vingança!

- Tá, mas o quê você disse que ele não teve escolha?

- Ninguém opta por abusar da filha. O cara era xarope, você nunca vai entender porque sempre levou uma vida normal, sempre foi mimado por seus pais, teve tudo que queria.

- Ok. Você ta me dizendo que o pai abusava dele quando pequeno e por isso ele teve que fazer o mesmo com a filha?

- Eu não sei se o pai abusava dele, pode ser! Apenas sei que alguém fodeu com a cabeça dele, provavelmente quando ainda era pequeno.

- E fica por isso mesmo então?

- Você quer o quê? Ok, você quer torturar o cara, você tá com raiva, você e todas as senhoras que assistem o Datena. Querem cortar o saco do cara fora.

- Você disse que o cara não teve escolha!

- De certa forma ninguém tem escolha.

- O cara não tinha a escolha de engolir o rancor que tinha do pai, procurar um psicólogo, tomar remédios, qualquer merda? Ele tinha que abusar da filha? Única opção?

- Você acha que você tem alguma escolha?

- Do que você ta falando? Não vai dizer que tú acredita em destino, signo, essas merda? Vá se foder.

- Não esse tipo de destino que você está acostumado a ouvir.

- Ah, claro. Qual então?

- Estupre a sua mãe.

- Quê?

- Estupre a sua mãe.

- Que estupre a mãe, que porra é essa?

- Você não está me dizendo que tem escolhas? Me prove, estupre a sua mãe!

- Vá se foder, quem é que vai estuprar a mãe?

- Exatamente! Ninguém com uma criação normal vai fazer isso. Ninguém escolhe, é uma coisa biológica!

- Pff…

- Na verdade ninguém escolhe nada, é tudo física, ação e reação. Tú só tá aqui bebendo e falando comigo por causa de uma serie de eventos que de certa forma te “obrigaram” a estar aqui.

- Cala a boca, isso eu posso te provar. Quer que eu saia agora e vá pra casa? Eu tenho a escolha!

- Não é assim que funciona. Se acontecer de você se levantar e ir pra casa é porque a discussão chegou a esse ponto em que você se sentiu desafiado. E só vai levantar e ir embora por isso. Pra tentar me provar uma coisa, mas não vai conseguir provar nada, só vai confirmar o que eu to tentando te falar o tempo todo. Ninguém escolhe. O livre arbítrio é uma ilusão.

- O livre arbítrio é uma ilusão…

- O livre arbítrio é uma ilusão!

- E se eu te der um soco?

- Só vai tar dando porque estamos falando sobre isso. Mas eu sei que você não vai dar.

- Ah não?

- Você pode até me dar um soco no braço, qualquer merda assim. Não daria um soco na cara pra me nocautear. Pra você ver como o ser humano é previsível. AI CARALHO, SAI FORA!

- Talvez eu esteja te entendendo um pouco. Mas acho meio furado.

- Me mostre um cara que foi abusado quando pequeno que te mostro um cara com tendência a abusar de crianças maior do que a media da população.

- Talvez faça sentido.

- Me mostre um padre que te mostro um pedófilo.

- Haha.

- Zoeira. Mas a ideia é essa.

- Ok. Mas e daí?

- O quê?

- E pra que serve tudo isso? Digo, de que serve saber tudo isso?

- De nada.

- Legal.

- Tem uma comunidade no orkut que os caras falam sobre isso, depois te passo o link se você quizer. É uma teoria antiga, não lembro o nome do cara agora. Um filósofo.

- Manda, vo ler essa merda toda com calma e te provar que você ta falando merda.

- Achei que você tinha dito que estava começando a entender.

- Me manda lá, depois te falo, não aguento mais essa merda.

- Beleza.

- Aproveita e manda aquelas fotos da Patrícia que tu ta embaçando pra passar já tem mais de três semanas. Sabe do que eu tô falando, né?

- Haha, vá se foder.

 


Written by Diego Figueira in: Contos,Diego Figueira | Tags: , ,

52 Comments»

  • Franz Lima says:

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    Diego, a história ficou muito corrida, apesar de ser uma discussão entre amigos. O tema é interessante e a discussão sobre a motivação de assassinos e estupradores pode render muito. Provas disso são os inúmeros programas sobre “serial killers” dos canais pagos.
    Gostei da sitação sobre o programa do Datena, um dos piores do universo rsrsrsrs.
    Fica a crítica lançada…
    Sucesso, amigo.

  • Andrey Ximenez says:

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    Kra… tem uma argumentação, mas o texto é meio sem sentido. Quer dizer, diz algo, mas não é literatura.
    -
    Outra coisa.
    a gente = nós
    agente = policial/vigilância sanitária/promoter/etc.
    -
    abraz

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      meio sem sentido? não é literatura?
      -
      a gente* ops..
      -
      vlw, abç ;)

      • Andrey Ximenez says:

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        Quando digo meio sem sentido fala na parte de construção artística. Obviamente o texto é linear e fecha um entendimento comum.
        -
        O problema é que o que vejo aqui é uma transcrição de uma conversa comum de bar. A organização do diálogo se da para o exemplo de efeito, que no caso é: Vc estruparia sua mãe?
        -
        Sim, entendido, mas e dai. Vejo exemplo de retórica e filosofia, mas isso não é literatura, não é arte, é argumentação, pura e simples.
        -
        Eu li isso e disse: Ah… ta bom.
        -
        Capiche?

        • Thumb up 0 Thumb down 0

          entendo e respeito a opiniao. acredito q falte estéstica, sensibilidade e muitas outras coisas. mas é q a afirmação: “isso não é arte” me soa como o admirador de musica classica, mpb, etc, q vira pro cara q curte death/black metal e fala “isso nao é musica, é barulho”..
          -
          estupraria*, né? ^^
          -
          abç

          • Andrey Ximenez says:

            Thumb up 0 Thumb down 0

            Sim sim, falha nossa, devolvida na mesma moeda, han? ;)
            -
            Cara… Quando digo “não é arte” não é nesse sentido tão negativo.
            -
            Não estou fechando meus olhos para o que tu escreveste, ou optando por algum outro tipo mais expressivo de texto.
            -
            Para falar verdade cara, pouquissimos aqui no one realmente me agradam com seus escritos. Mas realmente existem muitas formas de arte aqui.
            -
            Por toda a conceituação que aprendi na faculdade, e sigo aprendendo, que digo que isso é um texto, não arte.
            -
            Ou eu te digo isso, como amigo, numa boa, ou rasgo meu diploma. Prefiro a primeira opção.
            -
            Mas se o toque não ta valendo amigo, se tu achas que está correto na afirmação e na estrutura, bola pra frente.
            ;)

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    ehuahua, foi boa falaê 8)
    -
    ok, foi mal pela chatice, nao foi nem pra defender meu texto(acho q um dos dez mandamentos do ONE até “proíbe” isso ^^), eu levei mesmo pro lado pessoal pq nao gostei da forma q vc colocou o 1º comentário, mas creio q já nos entendemos e está td bem ^^.
    -
    vlw por ler, pelos comentários, opiniões e críticas. desculpa qq coisa. inté ;)

  • Samila says:

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    o Luiz Fernando Veríssimo, que é a meu ver um dos melhores escritores nacionais, tem uns tantos textos nesse estilo, só diálogo, argumento, indignação, talvez algum humor negro.
    É estilo.
    Eu gostei, faz pensar, faz indagar, se indignar. Acredito que eram essas as intenções, não?
    Parabéns cara, gostei

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Samila, sou fã do Veríssimo, e não vou nem explanar minha posição sobre isso pra não causar discusão, mas discordo totalmente.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      valeu, Samila, bom q gostou!
      -
      acho q eu nao tinha mtas intenções na hr q escreví, só deixei fluir ^^ mas é mt bom saber q está fazendo td isso.
      obrigado! :D

  • Ana Bourg says:

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    Achei legal a discussão sobre livre-arbítrio que se desenrola a partir de uma conversa de bar. xD
    Já tive essa conversa com colegas, em geral sou da linha que não existe escolha. :P
    -
    Acho que o maior problema do texto é que os diálogos se tornam meio perdidos ao longo da história, por não identificar quem está falando.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      pois é, “determinismo”…é uma teoria sinistra.
      -
      mantive a linha “A,B,A,B(…)” até o fim, mas sei q fica confuso mesmo mts vezes, principalmente em sequencias de frases curtas :/
      -
      valeu :)

      • Ana Bourg says:

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        Sim. Por outro lado, o determinismo quântico não faria diferença aparente na vida em geral. O.o Mas quando você pensa em mecânica básica e movimento de partículas, o negócio torce o cérebro. Os fisícos teóricos devem ficar piradinhos.
        -
        Em geral, acredito que determinismo social é o que mais influência “as escolhas” que as pessoas farão ao longo da vida.
        (ixe, melhor nem começar se não o assunto vai embora)

        • Thumb up 0 Thumb down 0

          haha, é. melhor nao hieuhei
          -
          os físicos teoricos já sao pirados normalmente. mas eu quase tive um ataque de pânico qd li sobre à teoria pela 1a vez(no “o mundo de sofia” xD).
          -
          estranhamente sao poucas as pessoas q parecem realmente entende-la(ao menos no meio em q vivo). pessoas inteligentes, mas nao tem jeito, a maioria associa à algo místico. parece um bloqueio mental, é como tentar me fazer entender poesia xD

          • Samila says:

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            ou as escolhas que elas não farão ao longo da vida, né? Como eu sou muito religiosa, acredito em Carma -n
            Enfim, pqp, você são muito nerds… adoro isso, continuem XD

  • everton campos says:

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    kkkkkk

    gostei pra caramba

    parabens cara!!!!

  • Franz Lima says:

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    Guns, pela quantidade de comentário, acho que este comentária será publicado. Agora, fico na dúvida: qual será a imagem que você colocará para ilustrar? rsrsrsrs

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Eu particularmente não sou fã de filosofia de boteco, muito menos de diálogo puro, sem narrativa qualquer. PORÉM, me diverti muuuuito com o texto, principalmente com o choque do rapaz ao ser intimado a “deflorar a genitora”! hahahahahaa. Parabéns!

  • Rodrigo Scop says:

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    Legal.
    O tema pode render muito, mas achei meio corrido demais o texto, poderia ser melhor trabalhado.
    No mais, parabéns.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      escreví td de uma vez, no ritmo do pensamento, deve ser um dos motivos de ter ficado corrido..
      -
      rende, dei uma cortada ali meio q do nd p/ nao ficar mt maçante, no momento q cansou tb de escrever ^^ quem sabe role uma sequencia…ou nao *-)…
      -
      vlw ;)

  • hreter says:

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    Adoro diálogos que modernizam os antigos diálogos renascentistas. Este aqui é um exemplo bacana, pegar um tema e botá-lo para ser discutido entre dois personagens até chegarem à uma conclusão. Uma conclusão em acorde com o mundo atual, uma conclusão bem escéptica. O descaso e a informalidade dos dois é uma bela ambientação, é um papo de bar, numa típica sexta à noite depois do trabalho.

    Agora me diz: quantos anos tem essa tal Patrícia, hein? xD

  • John Macedo says:

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    Engraçado como tem tanto texto bom por aqui que não recebe a metade dos comentários que esse.
    Parei de ler na metade. Quando alguém disse que isso não é literatura, disse bem. Comecei achando que você faria uma crítica sobre uma situação social, mas não… O cenário deveria ser revertido para parâmetros filosóficos – e mesmo quânticos – e depois perderia toda a razão. Essa analogia torna tudo tão banal e sem sentido. Para não dizer que o texto não possui algo de positivo, o título é ótimo.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      :’(
      -
      bom, o título já é alguma coisa… ^^ vlw.

    • Franz Lima says:

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      Concordo quando diz que há textos incríveis a se ler que, infelizmente, não recebem a atenção devida. AMIGOS, vamos tentar ler e comentar – criticamente ou não – os contos, poemas e outras histórias que, tão cordialmente, nossos escritores do ONE cedem.

  • Marcus Palante says:

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    Bom…
    Não acho que sou um bom crítico, mas – tentando seguir os 10 mandamentos do ONE – aqui vai a minha opinião:

    Embora você exagere um pouco, deu pra ver que você manja essa coisa dos ecos nos diálogos. De um camarada repetir/não entender o que o outro está falando. Isso torna o texto mais real. Entretanto faltou um pouco mais de descrição do ambiente.

    E o título… Sinceramente, o título não é bom. Não vou entrar em detalhes, porque assim eu ficarei escrevendo, escrevendo, escrevendo, aqui até amanhã.

    E é isso. Boa sorte aí, amigo.

    Até.

  • Vitor Vitali says:

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    Achei meio fraco. ):

    • Vitor Vitali says:

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      Para falar a verdade, achei mais chato do que fraco. Talvez um ensaio filosófico fosse mais a sua praia, ainda sim, não é nada muito novo, desenvolvido ou aporistico. Não sei bem. Não agradou.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Não achei chato, muito menos fraco.
    Acho que tem uma crítica muito grande, apesar de clichê, sobre a alienação e a realidade. Notei uma presença muito forte do naturalismo, do conformismo e da apatia típica de nós, da classe média – supondo que boa parte daqui faz parte dela.
    -
    Quanto ao título, bom… foi polêmico. Quase tanto quanto o programa do Datena, por isso ele se torna tão interessante, tão próximo,tão real. Sabe, embora tenha lido muitas críticas aqui, gosto de tecer minha opinião própria. E achei muito bom o conto.
    -
    Parabéns.

    • Thumb up 0 Thumb down 1

      sempre q me meto a fazer algo é a mesma coisa: [q merda! mt bom! isso nao é música! q letra escrota! genial! faça mais! se mate!(...)] haha, acho q gosto disso ^^
      -
      valeu, Thiago, bom q gostou! :D . abç!

  • nielperugini says:

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    Não entendi bem onde você quis chegar com o conto, e não entendi a piada final. Abrçs!

  • Cumna says:

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    Bem psicodelico. Gostei pra cacete. Um critica a sociedade hipócrita do Século XXI?

  • Tammy says:

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    Dinâmico, direto e reflexivo.
    Bela critica da hipocrisia na qual temos vivido nos últimos anos, e porque não dizer, em toda história da humanidade :)

  • Danielouc says:

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    Eu particularmente não gosto de textos assim, mas mesmo assim parabéns!

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