Estupre sua mãe
Escritor: Diego Figueira

Vinte e duas horas e quarenta e três minutos.
- Você viu no Datena?
- O quê?
- Aquele cara que abusou da filha.
- Ah.
- Viu?
- Li algo por cima na internet.
- E então?
- Então o quê?
- Que me diz?
- Que me diz o quê?
- O cara que abusou da filha. Também acha que ele merece uma vida digna na prisão, que alimentem o filho da puta com nosso dinheiro suado? O meu dinheiro, o seu dinheiro, o do cara que não consegue chegar em casa a tempo de dar um beijo de boa noite no filho com ele ainda acordado?
- Ah, você ainda tá nisso.
- É, eu ainda tô nisso, não era disso que agente tava falando?
- Ok, podemos continuar nesse assunto se é o que você deseja.
- E então?
- O quê?
- Você ta chapado ou o quê? Perguntei se você acha que o filho da puta merece(…)
- Ele não teve escolha.
- Ahn?
- O cara que abusou da filha.
- Eu sei, o cara que abusou da filha. O quê você disse de não ter escolha?
- O cara era um xarope, estou certo de que foderam com a cabeça dele quando ele era pequeno ou qualquer merda assim.
- E isso pra você isso justifica?
- A questão não é justificar, o cara não quis isso. O cara é isso!
- Isso o quê?
- Jorjão, traz mais uma!
- O cara é isso o quê?
- O cara é louco, a merda já ta feita, de que vai adiantar torturar o cara, fazer ele comer merda e o caralho a quatro? A filha do cara não vai melhorar em nada com isso. Isso não é justiça, é vingança!
- Tá, mas o quê você disse que ele não teve escolha?
- Ninguém opta por abusar da filha. O cara era xarope, você nunca vai entender porque sempre levou uma vida normal, sempre foi mimado por seus pais, teve tudo que queria.
- Ok. Você ta me dizendo que o pai abusava dele quando pequeno e por isso ele teve que fazer o mesmo com a filha?
- Eu não sei se o pai abusava dele, pode ser! Apenas sei que alguém fodeu com a cabeça dele, provavelmente quando ainda era pequeno.
- E fica por isso mesmo então?
- Você quer o quê? Ok, você quer torturar o cara, você tá com raiva, você e todas as senhoras que assistem o Datena. Querem cortar o saco do cara fora.
- Você disse que o cara não teve escolha!
- De certa forma ninguém tem escolha.
- O cara não tinha a escolha de engolir o rancor que tinha do pai, procurar um psicólogo, tomar remédios, qualquer merda? Ele tinha que abusar da filha? Única opção?
- Você acha que você tem alguma escolha?
- Do que você ta falando? Não vai dizer que tú acredita em destino, signo, essas merda? Vá se foder.
- Não esse tipo de destino que você está acostumado a ouvir.
- Ah, claro. Qual então?
- Estupre a sua mãe.
- Quê?
- Estupre a sua mãe.
- Que estupre a mãe, que porra é essa?
- Você não está me dizendo que tem escolhas? Me prove, estupre a sua mãe!
- Vá se foder, quem é que vai estuprar a mãe?
- Exatamente! Ninguém com uma criação normal vai fazer isso. Ninguém escolhe, é uma coisa biológica!
- Pff…
- Na verdade ninguém escolhe nada, é tudo física, ação e reação. Tú só tá aqui bebendo e falando comigo por causa de uma serie de eventos que de certa forma te “obrigaram” a estar aqui.
- Cala a boca, isso eu posso te provar. Quer que eu saia agora e vá pra casa? Eu tenho a escolha!
- Não é assim que funciona. Se acontecer de você se levantar e ir pra casa é porque a discussão chegou a esse ponto em que você se sentiu desafiado. E só vai levantar e ir embora por isso. Pra tentar me provar uma coisa, mas não vai conseguir provar nada, só vai confirmar o que eu to tentando te falar o tempo todo. Ninguém escolhe. O livre arbítrio é uma ilusão.
- O livre arbítrio é uma ilusão…
- O livre arbítrio é uma ilusão!
- E se eu te der um soco?
- Só vai tar dando porque estamos falando sobre isso. Mas eu sei que você não vai dar.
- Ah não?
- Você pode até me dar um soco no braço, qualquer merda assim. Não daria um soco na cara pra me nocautear. Pra você ver como o ser humano é previsível. AI CARALHO, SAI FORA!
- Talvez eu esteja te entendendo um pouco. Mas acho meio furado.
- Me mostre um cara que foi abusado quando pequeno que te mostro um cara com tendência a abusar de crianças maior do que a media da população.
- Talvez faça sentido.
- Me mostre um padre que te mostro um pedófilo.
- Haha.
- Zoeira. Mas a ideia é essa.
- Ok. Mas e daí?
- O quê?
- E pra que serve tudo isso? Digo, de que serve saber tudo isso?
- De nada.
- Legal.
- Tem uma comunidade no orkut que os caras falam sobre isso, depois te passo o link se você quizer. É uma teoria antiga, não lembro o nome do cara agora. Um filósofo.
- Manda, vo ler essa merda toda com calma e te provar que você ta falando merda.
- Achei que você tinha dito que estava começando a entender.
- Me manda lá, depois te falo, não aguento mais essa merda.
- Beleza.
- Aproveita e manda aquelas fotos da Patrícia que tu ta embaçando pra passar já tem mais de três semanas. Sabe do que eu tô falando, né?
- Haha, vá se foder.
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Diego, a história ficou muito corrida, apesar de ser uma discussão entre amigos. O tema é interessante e a discussão sobre a motivação de assassinos e estupradores pode render muito. Provas disso são os inúmeros programas sobre “serial killers” dos canais pagos.
Gostei da sitação sobre o programa do Datena, um dos piores do universo rsrsrsrs.
Fica a crítica lançada…
Sucesso, amigo.
datena é embaçado, direto eu chego em casa e ta minha mae vendo akilo :/
valeu pela crítica, Franz.
sucesso p/ vc tb
PQP… “sitação”, doeu. Corrigindo… CITAÇÃO.
Kra… tem uma argumentação, mas o texto é meio sem sentido. Quer dizer, diz algo, mas não é literatura.
-
Outra coisa.
a gente = nós
agente = policial/vigilância sanitária/promoter/etc.
-
abraz
meio sem sentido? não é literatura?
-
a gente* ops..
-
vlw, abç
Quando digo meio sem sentido fala na parte de construção artística. Obviamente o texto é linear e fecha um entendimento comum.
-
O problema é que o que vejo aqui é uma transcrição de uma conversa comum de bar. A organização do diálogo se da para o exemplo de efeito, que no caso é: Vc estruparia sua mãe?
-
Sim, entendido, mas e dai. Vejo exemplo de retórica e filosofia, mas isso não é literatura, não é arte, é argumentação, pura e simples.
-
Eu li isso e disse: Ah… ta bom.
-
Capiche?
entendo e respeito a opiniao. acredito q falte estéstica, sensibilidade e muitas outras coisas. mas é q a afirmação: “isso não é arte” me soa como o admirador de musica classica, mpb, etc, q vira pro cara q curte death/black metal e fala “isso nao é musica, é barulho”..
-
estupraria*, né? ^^
-
abç
Sim sim, falha nossa, devolvida na mesma moeda, han?
-
Cara… Quando digo “não é arte” não é nesse sentido tão negativo.
-
Não estou fechando meus olhos para o que tu escreveste, ou optando por algum outro tipo mais expressivo de texto.
-
Para falar verdade cara, pouquissimos aqui no one realmente me agradam com seus escritos. Mas realmente existem muitas formas de arte aqui.
-
Por toda a conceituação que aprendi na faculdade, e sigo aprendendo, que digo que isso é um texto, não arte.
-
Ou eu te digo isso, como amigo, numa boa, ou rasgo meu diploma. Prefiro a primeira opção.
-
Mas se o toque não ta valendo amigo, se tu achas que está correto na afirmação e na estrutura, bola pra frente.
ehuahua, foi boa falaê
-
ok, foi mal pela chatice, nao foi nem pra defender meu texto(acho q um dos dez mandamentos do ONE até “proíbe” isso ^^), eu levei mesmo pro lado pessoal pq nao gostei da forma q vc colocou o 1º comentário, mas creio q já nos entendemos e está td bem ^^.
-
vlw por ler, pelos comentários, opiniões e críticas. desculpa qq coisa. inté
De boa
o Luiz Fernando Veríssimo, que é a meu ver um dos melhores escritores nacionais, tem uns tantos textos nesse estilo, só diálogo, argumento, indignação, talvez algum humor negro.
É estilo.
Eu gostei, faz pensar, faz indagar, se indignar. Acredito que eram essas as intenções, não?
Parabéns cara, gostei
Samila, sou fã do Veríssimo, e não vou nem explanar minha posição sobre isso pra não causar discusão, mas discordo totalmente.
valeu, Samila, bom q gostou!
-
acho q eu nao tinha mtas intenções na hr q escreví, só deixei fluir ^^ mas é mt bom saber q está fazendo td isso.
obrigado!
Achei legal a discussão sobre livre-arbítrio que se desenrola a partir de uma conversa de bar. xD
Já tive essa conversa com colegas, em geral sou da linha que não existe escolha.
-
Acho que o maior problema do texto é que os diálogos se tornam meio perdidos ao longo da história, por não identificar quem está falando.
pois é, “determinismo”…é uma teoria sinistra.
-
mantive a linha “A,B,A,B(…)” até o fim, mas sei q fica confuso mesmo mts vezes, principalmente em sequencias de frases curtas :/
-
valeu
Sim. Por outro lado, o determinismo quântico não faria diferença aparente na vida em geral. O.o Mas quando você pensa em mecânica básica e movimento de partículas, o negócio torce o cérebro. Os fisícos teóricos devem ficar piradinhos.
-
Em geral, acredito que determinismo social é o que mais influência “as escolhas” que as pessoas farão ao longo da vida.
(ixe, melhor nem começar se não o assunto vai embora)
haha, é. melhor nao hieuhei
-
os físicos teoricos já sao pirados normalmente. mas eu quase tive um ataque de pânico qd li sobre à teoria pela 1a vez(no “o mundo de sofia” xD).
-
estranhamente sao poucas as pessoas q parecem realmente entende-la(ao menos no meio em q vivo). pessoas inteligentes, mas nao tem jeito, a maioria associa à algo místico. parece um bloqueio mental, é como tentar me fazer entender poesia xD
ou as escolhas que elas não farão ao longo da vida, né? Como eu sou muito religiosa, acredito em Carma -n
Enfim, pqp, você são muito nerds… adoro isso, continuem XD
kkkkkk
gostei pra caramba
parabens cara!!!!
vlw
Guns, pela quantidade de comentário, acho que este comentária será publicado. Agora, fico na dúvida: qual será a imagem que você colocará para ilustrar? rsrsrsrs
Meu Deus… nunca errei tanto em um único comment. “quantidade de comentário(s)” e “comentária????” estão doendo até agora.
Acho que dois caras num boteco? =o
O título já choca por si só.
é bem “wtf esse cara tá falando. vou lá ler.”
Com certeza, o título chama atenção até demais XD
haha, sim, um boteco, dois caras num boteco, uma cerveja, qq coisa nesse estilo ficaria bacana. ^^
Ta aí a imagem Franz. ;D
Mandou bem, meu brother. Mandou bem…
haha, boua! (Y) xD
Eu particularmente não sou fã de filosofia de boteco, muito menos de diálogo puro, sem narrativa qualquer. PORÉM, me diverti muuuuito com o texto, principalmente com o choque do rapaz ao ser intimado a “deflorar a genitora”! hahahahahaa. Parabéns!
“deflorar a genitora” ^^ haha
vlw, Antonio!
-
Legal.
O tema pode render muito, mas achei meio corrido demais o texto, poderia ser melhor trabalhado.
No mais, parabéns.
escreví td de uma vez, no ritmo do pensamento, deve ser um dos motivos de ter ficado corrido..
-
rende, dei uma cortada ali meio q do nd p/ nao ficar mt maçante, no momento q cansou tb de escrever ^^ quem sabe role uma sequencia…ou nao *-)…
-
vlw
Adoro diálogos que modernizam os antigos diálogos renascentistas. Este aqui é um exemplo bacana, pegar um tema e botá-lo para ser discutido entre dois personagens até chegarem à uma conclusão. Uma conclusão em acorde com o mundo atual, uma conclusão bem escéptica. O descaso e a informalidade dos dois é uma bela ambientação, é um papo de bar, numa típica sexta à noite depois do trabalho.
Agora me diz: quantos anos tem essa tal Patrícia, hein? xD
é de maior, é de maior! ^^
-
vlw, hreter, bom q gostou
Engraçado como tem tanto texto bom por aqui que não recebe a metade dos comentários que esse.
Parei de ler na metade. Quando alguém disse que isso não é literatura, disse bem. Comecei achando que você faria uma crítica sobre uma situação social, mas não… O cenário deveria ser revertido para parâmetros filosóficos – e mesmo quânticos – e depois perderia toda a razão. Essa analogia torna tudo tão banal e sem sentido. Para não dizer que o texto não possui algo de positivo, o título é ótimo.
:’(
-
bom, o título já é alguma coisa… ^^ vlw.
Concordo quando diz que há textos incríveis a se ler que, infelizmente, não recebem a atenção devida. AMIGOS, vamos tentar ler e comentar – criticamente ou não – os contos, poemas e outras histórias que, tão cordialmente, nossos escritores do ONE cedem.
Bom…
Não acho que sou um bom crítico, mas – tentando seguir os 10 mandamentos do ONE – aqui vai a minha opinião:
Embora você exagere um pouco, deu pra ver que você manja essa coisa dos ecos nos diálogos. De um camarada repetir/não entender o que o outro está falando. Isso torna o texto mais real. Entretanto faltou um pouco mais de descrição do ambiente.
E o título… Sinceramente, o título não é bom. Não vou entrar em detalhes, porque assim eu ficarei escrevendo, escrevendo, escrevendo, aqui até amanhã.
E é isso. Boa sorte aí, amigo.
Até.
vlw pela opiniao, Marcus. obrigado, boa sorte p/ vc tb! abç.
Achei meio fraco. ):
Para falar a verdade, achei mais chato do que fraco. Talvez um ensaio filosófico fosse mais a sua praia, ainda sim, não é nada muito novo, desenvolvido ou aporistico. Não sei bem. Não agradou.
po, ensaio filosófico é embaçado :/ mas vlw, haha
Não achei chato, muito menos fraco.
Acho que tem uma crítica muito grande, apesar de clichê, sobre a alienação e a realidade. Notei uma presença muito forte do naturalismo, do conformismo e da apatia típica de nós, da classe média – supondo que boa parte daqui faz parte dela.
-
Quanto ao título, bom… foi polêmico. Quase tanto quanto o programa do Datena, por isso ele se torna tão interessante, tão próximo,tão real. Sabe, embora tenha lido muitas críticas aqui, gosto de tecer minha opinião própria. E achei muito bom o conto.
-
Parabéns.
sempre q me meto a fazer algo é a mesma coisa: [q merda! mt bom! isso nao é música! q letra escrota! genial! faça mais! se mate!(...)] haha, acho q gosto disso ^^
. abç!
-
valeu, Thiago, bom q gostou!
Não entendi bem onde você quis chegar com o conto, e não entendi a piada final. Abrçs!
acho q a lugar nenhum. foi uma piada interna, haha. abç!
Bem psicodelico. Gostei pra cacete. Um critica a sociedade hipócrita do Século XXI?
hmm,pode ser…
-
valeu!!
Dinâmico, direto e reflexivo.
Bela critica da hipocrisia na qual temos vivido nos últimos anos, e porque não dizer, em toda história da humanidade
vlw, Tammy!
Eu particularmente não gosto de textos assim, mas mesmo assim parabéns!
assim como, só diálogo? vlw!