Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida: Livro 1
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
29 Dicas para se manter criativo:
Vaucarn
A Lenda de Fausto
Chat dos Nerds Escritores
Quer publicar?
Download do livro O Draconiano – Livro 1
May
10
2011

Guerra e Sede – Crônicas dos Bardos – Prólogo

Escritor: Hamilton Saraiva

Prólogo

- Sangrou o rio. – Falou Gisborne. A calça estava suja de argila até a altura dos joelhos, e a blusa surrada denunciava que havia caído em algum buraco lamacento não muito longe dali. Ele coxeava manco, e tinha faixas brancas atadas ao calcanhar direito.

- Foi a chuva de ontem. Nunca vi vendaval tão forte. – Respondera um sujeito idoso, um pouco abastado e que tinha os dentes amarelos. Era o velho Wallet, o encarregado das lavouras, que estava agora inspecionando a colheita do fim de mês. Tinha o chapéu todo molhado, e o gibão de couro estava inutilizado na cintura, surrupiado por limo e água barrenta.

- Caí num fosso. – Denunciou o franzino verdureiro, alisando a superfície encardida da perna dormente. Suas ferinas sangravam um pouco e exalavam pus, mas estavam veladas por panos macios. – Machuquei meu pé também.

- Lateja? – Indagara o velho Wallet, escarrando no chão um conteúdo grosso e gosmento. A barba e bigodes brancos e espessos davam um ar respeitável ao aldeão.

- Um pouco, mas dá pra aguentar. – Confessara o magricela, tentando parecer mais resistente do que era. – O monastério é logo ali na colina. – Falou, apontando o indicador ossudo na direção de um pequeno monte verde e sem árvores que aflorava um pouco ao norte.

O lavrador confirmara com a cabeça. Sacara dos bolsos uma planta marrom, que dizia ser erva importada do sul. Mascava-a sempre que podia, “pois dava consistência à boca”, afirmava com convicção. Naquela manhã teria de abandonar os afazeres para tratar da perna de Gisborne, e isso o custaria caro.

Os dois, velho e verdureiro, passaram a caminhar rumando à pequena colina que se encontrava ali perto. Não foi com satisfação que o lavrador abandonou seus campos de centeio. O mês havia sido duro com a terra, e as chuvas iam tornando-se cada vez mais frequentes. Frequentes e intensas. Além disso, seu irmão mais novo havia partido para a capital, pois iria assumir a batina sagrada, e não mais poderia empunhar enxada no campo.

Era sofrida a vida do velho Wallet. Sua mulher trabalhava como cozinheira na taverna, e o único varão que tivera fora natimorto. Tinha de se confiar em Gisborne, naquele saco de ossos remendados com pouca carne, mas que de certa forma era sua única salvação. O verdureiro o tinha na mais alta estima, e isso era algo bom para se lembrar durante o sol de cada manhã.

Patrão e empregado se arrastavam pelos prados verdes ensopados de água, e evitavam as poças de lama que haviam se formado na noite anterior. Estavam já muito perto do monastério. O velho Wallet temia apenas a dolorosa subida, que para ele era uma vertiginosa escalada, mas para seu servidor não passava de um exercício diário, simples de ser realizado, mesmo com a perna machucada. Estranhou quando viu Gisborne parar de repente em frente à estrada lamacenta, como se tomado por um medo repentino.

- É a perna? – Indagou, afagando com os dedos a barba branca como a espuma da cevada. Não precisou de resposta, pois seus antigos olhos divisaram ao longe um grupo de cavaleiros trotando veloz pela trilha de argila. Parara de mascar sua erva para apreciar a passagem de tão formidável companhia.

Havia muitos homens, e vestiam armaduras completas, da viseira às botas, carregando escudos largos e achas d’armas nas costas. À frente o porta bandeiras erigia o estandarte do alce prateado entalhado na seda verde-musgo, e era escoltado por dois batedores vigilantes, que asseavam o caminho nas laterais. Aquele era realmente um grupo forte e numeroso.

Gisborne contemplava admirado. Nunca vira soldados da cavalaria na vida, pois não havia guerras no reino desde a morte de sua parteira, mas mesmo assim imaginava como seria a vida de um oficial do exército, com as expedições, batalhas, cercos e tudo mais. Wallet jazia ao lado, pensativo, cauteloso como sempre. Podia sentir nos seus ossos doídos que algo ruim estava para acontecer. Que queriam aqueles soldados todos em terras tão simples? Não sabia dizer, mas seu debilitado faro indicava perigo. Perigo e morte.

Verdureiro e lavrador observaram parados a companhia descrever uma curva angulosa pela colina verde e sem árvores. Subiram todos, em fileira indiana, sempre respeitando a ordem imposta por um cavaleiro que trajava muitas placas de ferro sobre o peito, e trazia um escudo esférico, liso e nu, de metal polido guarnecido nas costas.

- Apresse-se Gisborne, ou os perderemos de vista! – Chiou o velho Wallet, precipitando-se a correr um pouco. Já nem mais lembrava-se das dores de joelho que sempre o afligiram. Era só aquela companhia de cavaleiros que detinha sua atenção. O magricela fez um derradeiro esforço para acompanhar o ritmo do patrão, pois também era movido pela curiosidade.

Os dois corriam, aos troncos e barrancos, movendo-se para o cume da pequena colina escarpada recoberta por gramíneas rasas. Puderam ver o monastério, uma rudimentar habitação de pedra erguida sobre uma paliçada de argamassa, e apoiada por toras espessas de madeira nas laterais simplórias. Viram também outros fazendeiros que aravam e semeavam a terra fofa, e também os mercadores que carregavam caixas de lenha de um lado para o outro. Viram todos se reunindo, os que estavam ao redor e os que trabalhavam longe, formando juntos um aglomerado de gente simples, curiosa, absorta, e que circundava aqueles estranhos soldados vestidos com ferro. Lá estavam Bill da taverna, Tom Caolho e Malde Raízes, como muitos outros conhecidos de Wallet.

- Veja Gisborne, os cavaleiros já chegaram! – Indicara o velho, quando notara que a companhia havia atingido o ponto mais alto da colina, onde estavam erguido o monastério, a estalagem, um ou dois casebres e o mercado de verduras.

O magricelas lutava para tentar enxergar algo. O povo se aglomerava em torno dos cavalos, curiosos como crianças ao abrirem os olhos pela manhã, e um baixinho como Gisborne nunca iria puder ver pelos ombros largos daqueles homens fortes do campo. Seu patrão, mais esperto, achara um ponto de apoio em cima de uns tablados velhos de madeira, de onde podia observar tudo o que se passava com facilidade.

Um sujeito grande e forte, que vestia muitas placas de prata e bronze, liderava todos os soldados ali. Montava um garanhão malhada, negro como a noite e grande como um corpulento touro, e envergava uma espada longa e metálica, que era empunhada com ambas as mãos. Foi este mesmo sujeito que desmontou subitamente, com as pesadas botas de ferro chocando-se com a lama fofa em estrondo. Caminhou um pouco pelo solo encharcado, analisando com seus olhos frios e imutáveis o povo que agora o estava encarando. Murmurou algo ao capitão e bateu no peito três vezes.

Seu porta-bandeiras então ergueu no céu o estandarte do alce, e todos puderam ver os cornos de seda verde-musgo que representavam uma das grandes casas nobres do sul. Um arauto fez as honras conforme a norma, mas o velho Wallet pouco ou nada ouviu daquilo. Suas orelhas velhas, molengas e enrugadas, entupidas de cera, não faziam justiça à sua audição. O que ele ouviu, porém, fora a voz grossa e retumbante do fidalgo conclamando a vinda do clérigo.

- Chamem o sacerdote! – Ordenou incontestável, brandindo o punho cerrado como se fosse uma pesada maça. Dois criados, que esperavam no canto da porta, prontamente rebaixaram os olhares e, sorrateiros, entraram pela portinhola de madeira que separava o monastério das adjacências.

Isso é jeito de falar com os serventes? Questionou-se Wallet, com um olhar pesaroso. Franziu as sobrancelhas quando viu que todos se perguntavam a mesma coisa. Não pensou em resposta, porém, e apenas esperou meditativo. Não sabia o motivo, nem o porquê, nem a razão daqueles sujeitos espadaúdos estarem ali, mas não gostava nem um pouco. Que querem eles com o pobre Benedito? Indagou-se novamente, como sempre sem ser respondido.

Viu o sujeito caminhar de um lado para o outro, ziguezagueando nervoso. Voltara a cair uma chuva fraca e fria, fina como a noite que havia morrido, mas nem sequer um camponês arregrara o pé daquele monte escarpado, verde e sem árvores. Todos queriam ver o que aqueles cavaleiros estavam fazendo ali. Ele mesmo não poderia perder o desenrolar da história, o desfecho daquela visita inusitada. Ledo engano.

O sacerdote Benedito era velho. Mais velho do que qualquer homem que Gisborne já conhecera. Seu avô mamava no berço quando o idoso devoto já aparava as madeixas brancas que fugiam-lhe a cabeça calva. Tinha visto mais de cem invernos, e alguns alegavam que o sujeito conhecera todas as grandes cidades do reino. Já fora homem importante, com vilas, criados e todo o resto, mas no fim de sua vida, desejara recolher-se para o campo, e acolhera sorridente seu novo lar no simples monastério de Pradolírios.

Era este Benedito que agora arrastava-se pesaroso, fraco e caduco, sob a cortina de muitos olhares, ao encontro daquela comitiva tão atípica. Não era nada cortês aquele nobre. Pensou o velho Wallet, contrariado. Era errado acordar um homem de idade no despertar da aurora, principalmente um fiel servo do Senhor e da Senhora.

Foi andando Benedito, e via-se claramente que suas pernas tortas arqueavam com o peso das costas esguias. O homem era fraco, mais magro que Gisborne, se isso fosse possível, e ostentava uma comprida barba branca, que cobria suas costelas finas e seu peito esquelético por inteiro e denunciava os longos anos de sabedoria dedicados ao estudo.

- Por acaso não pode esperar até o entardecer para receber a benção do Senhor e da Senhora, como todos os outros? Ou será que seu sangue nobre lhe dá ímpeto, poder e autoridade para fazer o contrário? – Perguntou o sacerdote, supreendentemente desafiador. Dirigiu seus pequenos e enrugados, porém firmes, olhos em direção à carranca zombeteira daquele nobre galante, que jazia ao lado de seu garanhão musculoso e castrado.

Wallet concordava positivamente com a cabeça. Não se acorda nem camareiro durante um bom sono, afirmava com convicção. Já Gisborne, lutava para subir em um pequeno apoio pedregoso que descobrira não muito distante do mercado. Esgueirara-se por entre a massa de gente até encontrar aquele recinto elevado, onde um anão transformava-se em gigante. Era um pouco próximo dos cavaleiros, mas valeria a pena arriscar.

A curiosidade do magricela sempre fora uma de suas mais fortes características. Toda tarde de colheita enchia a paciência do velho Wallet com perguntas inúteis sobre viagens, torneios, septos e eventos importantes da história, ao qual seu patrão respondia da melhor forma possível. Era um franzino verdureiro do campo, mas pelo menos conhecia um pouco de sua própria história e aspirava ser alguém na vida.

Gisborne moscou-se sorrateiro por entre a pequena multidão que lotava o montículo verde e sem árvores. Chegou bem perto de um lanceiro que estava distraído, e achou um local perfeito para assistir às cenas que iriam se desenrolar. Viu surpreso quando o nobre tomou bruscamente o estandarte verde da mão de seu porta-bandeira e fincou-o no chão.

- Vê isto, velho senil?! – Gritou ele, apontando o punho cerrado protegido pela manopla prateada em direção aos cornos de sua flâmula. – Dobre os joelhos e a língua quando for se dirigir a um Eamon.

Disparate. Nada mais que um ultraje! Fungou o velho Wallet, de certa forma, inocentemente. Viu seu primo em terceiro grau, Furúnculo, e o cunhado de sua falecida irmã, Bill da taverna, erguerem as mangas à procura de paus e foices. Eu sabia. Nunca haviam falhado as premonições dos seus ossos velhos. O que poderia acontecer com aquela gente? Paus de madeira não são úteis contra achas de ferro.

- Sacerdote, serei bem claro e perguntarei não mais de uma vez. – Disparou aquele nobre ousado, enquanto puxava o cabo da espada em tom solenemente ameaçador. – Onde está o ouro?

Ouro? Era aquele homem cego ou louco? O metal dourado não passava pelas paredes rachadas de simples monastérios, naqueles dias fúnebres. Houve época em que as oferendas eram enviadas de todas as partes do reino, para qualquer morada que alegasse reverenciar os meios do Senhor e da Senhora. Estes dias haviam há muito desaparecido, e nos tempos mudados o máximo que alguém se atrevia a doar eram duas sacolas esfarrapadas de couro velho que continham pedra, ferro, e umas raras moedas de cobre amassado.

Gisborne arregalara bem as orelhas pontiagudas, assim como todos os outros. Não havia ouro no campo, só verduras, raízes, e mais verduras. Talvez os cavaleiros tivessem se enganado, para o bem da verdade, mas não era o que descrevia a expressão odiosa e carrancuda daquele nobre prepotente.

- Ah, poderoso fidalgo, os cobradores de imposto de vossa graça já vieram este ano. – Respondeu o clérigo, sempre cortês. – E confesso; levaram quase tudo o que tínhamos.

- Não falamos por vossa graça. – Decretou o nobre, com a voz profunda e grave. Seu capitão avançou, esporeando o cavalo, e se pôs ao seu lado. Desembainhou aço firme, reluzente, e apontou-o para a face enrugada e pálida daquele senhor idoso, que revelou-se surpreso, mas não amedrontado.

- Não temo seu aço, meu jovem. – Respondeu incólume. Era resistente para um velhinho de cem estações. Os homens diziam que já tinha visto demasiados invernos, mas é a fruta madura que adocica o bom sumo de verão. Ele mesmo não conservava boa aparência, com manchas na pele e sulcos largos na testa, mas era em sua esplendorosa oratória que se destacava o sacerdote Benedito.

Wallet lutava consigo mesmo. Sua vontade era de puxar qualquer pau que estivesse próximo e avançar para defender seu velho amigo. Se ao menos restasse alguma força naqueles seus ossos velhos. Dizia que tinha de fazer algo, mas seu impulso morreu quando ouviu, com suas debilitadas orelhas, algo que o deixou estupefato.

- Não é você que corre perigo, velho tratante. – Falara o nobre, no topo de sua arrogância. Pusera a mão no cabo da espada e a apontara em direção aos camponeses, velhos, meninos e meninas que os observavam atentos. – Tenho aqui comigo trinta espadas… – Ameaçou como quem finge dar a primeira investida. Seus cavaleiros, que antes permaneciam impassíveis, desembainharam as armas, esporearam as montarias e fecharam um cerco.

Wallet fora empurrado grosseiramente por um brutamontes blindado. Quase rachara a bacia quando caíra no chão, mas fora ajudado por dois meninos que viram sua queda. Gisborne tivera menos sorte. Um dos lanceiros percebeu sua presença sorrateira, agarrou-o pelo fino pescoço e o socou violentamente três vezes, até ver sangue rubro escapulir por suas narinas alongadas e desproporcionais.

São os homens que conheço. As pessoas com quem vivi minha vida. Pensava o velho Wallet, e a erva importada do sul já não tinha mais gosto em sua boca. Poderia lutar, assim como Bill da Taverna, Furúnculo e Will Toureiro, mas sabia que contra aqueles cavaleiros de nada valeriam. Podia sentir a raiva percorrendo suas veias murchas e frágeis. Desejou ser jovem novamente, e lembrou-se de sua mulher. Agradeceu ao Senhor e à Senhora por ela ter viajado para a casa das irmãs apenas uma semana atrás. Que os deuses sejam bons…

- Podemos resolver isso de outra forma, nobre. – Falou Benedito, com o olhar pesaroso que abaixou-se até se encontrar com o chão. – Não há ouro, mas talvez se o senhor seu pai aceitar algum outro tipo de pagamento…

Não Benedito. Não se dobre. Pedia Wallet, indeciso, relutante, mas corajoso, e pedia mesmo que isso lhe custasse a vida. Nunca fora homem audacioso, esse era o papel de seu irmão. Quando jovem, não queria ser marinheiro, nem soldado, nem um explorador. Queria ser lavrador, arar a terra, plantar sementes, e quem sabe visitar a capital do rei uma vez a cada ano só para admirar suas belas muralhas. Naquele dia uma súbita coragem brotara no seu coração, algo inesperado, e de certa forma, indesejado.

- Não há ouro? – Indagou-se o nobre, com um gracejo. – Homens, ele diz que não há ouro! – Urrou alto, e seus soldados gargalharam muitas vezes antes de se calarem.

Herege. Não se rouba monastérios nessa terra santa. Protestou Wallet, mas então seus olhos foram à procura de Gisborne. Onde estaria o garoto? Não via o magricela em lugar nenhum, e temia que algo ruim tivesse acontecido a ele. Por outro lado, nutria esperanças de que o jovem havia fugido enquanto era tempo, antes que todos fossem feitos cativos.

Gisborne, porém, estava estatelado no chão, com a boca sangrando e os dentes doendo. Era a primeira vez que desejava mascar a velha erva do patrão, para atestar a veracidade de seus efeitos. As mãos estavam trêmulas, nervosas da porrada que acabara de sofrer. Os olhos, também dormentes, não distinguiam nada, de modo que tudo o que viam eram imagens disformes que se moviam como sombras num fundo branco. Sua cabeça doía, rodopiava, e o que escutava eram batidas, baques surdos que iam crescendo cada vez mais, em ascendente intensidade.

De repente, sentiu-se como se algo o estivesse puxando. Abriu as pálpebras fracas, e viu um rosto austero, frio, marcado pela guerra, que estava protegido por uma viseira semiaberta, complementando uma armadura ornamentada com placas de ferro e bronze. Era o nobre, que havia montado novamente seu alazão negro, grande como uma besta do inferno, e agora o agarrava pelo pescoço dolorido e dormente.

- Eis aqui um plebeu. – Disse o sujeito, erguendo o pobre Gisborne com apenas uma das mãos. – Se não há ouro, estamos aqui perdendo tempo, meu senhor sacerdote. – Falou indo ao encontro do velho Benedito, com as rédeas de sua montaria atadas à mão direita, e carregando o leve verdureiro com a sua canhota.

Gisborne recobrou os sentidos lentamente. Olhou ao redor e viu o clérigo, envergado pelo peso da vergonha. Viu todos os que conhecia, e eles eram prisioneiros daqueles cavaleiros cruéis, bárbaros e desumanos, que um dia, inocentemente, aspirara ser. Passou a procurar pela mãe, mas não a encontrou em lugar nenhum. Tentou achar também seu patrão Wallet, mas os olhos ainda doíam muito, e ele não conseguia distinguir claramente os rostos na multidão.

Outra vez fora erguido, sendo que nessa hora pudera ver nitidamente a face rude de seu algoz inquisidor. O nobre levantara a viseira completamente, e o encarara diretamente nos olhos. Pôs devagar a face no ouvido pontiagudo de Gisborne e cochichara baixinho. – Vá, fuja. -Escarniou. – Diga a todos que o alce esteve aqui. Espalhe esta notícia onde estiver, e será esse o pagamento por sua vida.

Dito isso deu uma estocada com o lado da espada na barriga do magricelas, que quebrou duas costelas e o fez estremecer. Os homens riram alto vendo o franzino sujeito gemer no chão, contorcendo-se de dor enquanto tentava se arrastar para longe. Uma saraivada de xingamentos e zombarias se sucederam às gargalhadas.

- Matem todos! – Declarou o fidalgo, com o estandarte do alce erguido novamente em suas mãos. – Eles conspiram contra a coroa de Cedric e contra todo o reino. Matem todos! – Ordenou incólume.

Não há justiça. Foi o que falou o velho Wallet. Seu último pensamento, a reflexão derradeira antes do pesado suspiro, profundo como a noite. Não há justiça. Teve a cabeça decepada, mas antes vira Malde Raízes ser perfurada por uma lança e Furúnculo ter o membro cortado. Viu Bill ser esfaqueado na garganta e Tom Caolho ser estrangulado até ficar roxo. Viu tudo isso e estremeceu, com dor e aflição. Rogou ao Senhor e à Senhora, só para poder contemplar seu maior fruto de desespero. Antes de partir, assistira Gisborne se arrastando feito um cão sarnento, humilhado, esmolando mais algum tempo de vida e sendo escarniado por aqueles sujeitos munidos de incivilidade e o terror da morte. Não pudera ver direito, pois as lágrimas involuntárias que saltavam-lhe dos olhos o atrapalhavam muito. Eles tiraram Gisborne de mim. Haviam matado seu filho, o filho que nunca nascera de sua semente, mas que fora por ele acolhido. Ao menos, se o Senhor e a Senhora fossem bons, sua esposa ainda viveria longos anos de paz, longe das guerras e lutas, em uma casa bela no campo, assentada bem no meio de uma colina. Uma colina como aquela, verde, escarpada e sem árvores.

Ria muito o nobre. Viu o sangue escorrer pelas entranhas vivas daquele montículo. Houve poucos gritos, poucos suplícios, mas mesmo assim aquela matança o havia satisfeito. Fincara novamente seu estandarte na terra, bem no meio da colina, e exercitara o garanhão tomando o caminho de saída, rumo a estrada de argila que dirigia-se angulosa trilha a baixo.

Seus soldados o seguiram por uns instantes, obedecendo a uma formação singular e com as armas erguidas, prontas para qualquer investida. O capitão irrompeu diante de todos, inesperadamente, e fez parar o movimento de toda a companhia.

- Perdão meu senhor, mas os corpos deveriam ser enterrados. – Lembrou-lhe o homem, receoso e tardiamente respeitoso a seus deuses. Recebera apenas uma crua e retraída negativa com a cabeça. – E quanto ao monastério? – Indagou.

E o fidalgo atentou-se. Parecia que havia esquecido algo de suma importância, e um sorriso maldoso escapuliu-lhe pelo canto esquerdo da boca. – Queimem. – Ordenou, antes de virar o corcel e galopar para longe daquela carnificina, que chamuscava no horizonte, com a bandeira do alce bem alto no céu, verde, imponente, tingida de sangue e tremeluzindo ao vento.

 


Written by Hamilton Saraiva in: Agenda,Contos,Guerra e Sede,Hamilton Barbosa |

3 Comments»

  • Hamilton Saraiva says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Caramba, ficou extenso!

  • Bruno Vox says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Gostei bastante, sua narração é muito boa, a história me prendeu. Parabéns.

    Só precisa de uma revisão na ortografia, o que é normal, de resto está excelente.

    Já vi que tem continuação, vou ler depois, 2h da manhã agora, é melhor eu ir dormir :P

    • Hamilton Saraiva says:

      Thumb up 0 Thumb down 0

      Vlw pelos elogios cara. Já quando você diz que precisa de uma revisão na ortografia, poderia ser mais específico? :D

      Espero que você continue comentando e dando dicas.

RSS feed for comments on this post.


Leave a Reply

Powered by WordPress. © 2009-2011 J. G. Valério