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May
21
2011

Meio ambiente

Escritor: Diego Figueira

Rua Barão de Itapetininga. Um conglomerado de pessoas tentando te pegar para responder pesquisas, fazer cartões de crédito, fazer cartões de desconto no teatro, doar dinheiro para uma boa causa, comprar revistas velhas e colocar seu nome numa lista para receber orações. Empreguinho filha da puta.

Pare em qualquer um e está fodido. Ou perde dinheiro, ou tempo ou ambos. Os bonzinhos são os que mais se fodem. Tímidos, bonzinhos e inseguros que não querem se passar por grosseiros. Alvo perfeito. Eu era um deles.

Mas com o tempo você adquiri certa técnica. De manhã, cara de atrasado. No fim da tarde, cara de estressado, olhando para baixo. Não como um depressivo. Passos largos, olhos semicerrados, tipo pensando em matar o chefe.

Outra dica é você grudar nas costas de quem estiver andando à sua frente. Vão abordar essa pessoa e te deixar livre. Quase infalível.

O foda é que agora eles atacam em grupo.

Ao longo do Viaduto do Chá fica um corredor da morte composto de infelizes com coletes onde se lê “Greenpeace” ou “Save the Children”. Tática de guerra.

Dez e cinco da manhã e lá vou eu em um dia como outro qualquer. Antes mesmo de entrar na Barão avisto três mulheres de camisetas e bonés brancos. Calças jeans azul, pranchetas, papel, caneta. Uma vem em minha direção:

- Responde uma pesquisa?

- Desculpa, atrasado.

- Responde uma pesquisa? – ouço-a perguntar para o próximo.

Entro na rua. Passo por três homens-placa, dois deles com uma pequena multidão ao redor lendo seus anúncios de empregos e tomando notas. Por pouco não piso na perna de um cara dormindo no meio da rua, embrulhado com caixas de papelão, apesar do calor.

Avisto três ou quatro “Save the Children”, calculo o melhor caminho, colo nas costas de um cidadão e me livro de todos.

Aí vem o simpático e velho mendigo com vestimentas feitas de sacos de lixo preto. A barba e o cabelo de sempre. Tem uns doze anos que conheço esse cara de vista. Algumas vezes ele amarra vários pedaços de papelão uns aos outros e usa-os como roupa no lugar dos sacos. O critério que ele usa para escolher a roupa do dia eu desconheço.

Um cara distribui revistas como se fossem panfletos. As pessoas ignoram. Quando passo, ele diz: “Uma revista, jovem. Pode pegar”. Já conheço a jogada, aceito uma só pra sacanear. Finjo não reparar no contato visual que ele tenta, mantenho o passo acelerado, ele faz um esforço para me alcançar:

- Poderia estar ajudando com uma moeda de qualquer valor?

- Oi?

- Poderia estar nos ajudando com uma moeda de qualquer valor?

- Não tenho, desculpa.

- Ah, então, por favor… – estende a mão para pegar a revista de volta. Era uma revista encalhada de carro ou qualquer merda do tipo. Mantenho o passo rápido, o olhar distante e devolvo a revista sem dar uma palavra. Fiz o otário correr por quase meio quarteirão.

Ali está o jovem mendigo na parede de uma das entradas da estação de metrô. Sentado ao lado de suas tralhas com a mesma expressão de ontem e anteontem, como se a vida fosse bela e ele fosse Jesus Cristo. A barba e o cabelo de sempre.

Uma mulher segurando o que parecia ser um cartão de crédito enorme feito de cartolina plastificada. Calças azuis, camiseta laranja e branca:

- Deseja fazer o “CrediFácil” hoje? Sem anuidade, taxa de manuten(…)

- Obrigado.

Lá está o pastor barbudo andando pra lá e pra cá, berrando e dando tapas na velha bíblia.

Aguardo o sinal de pedestres ficar verde. Fica. Tão logo piso na outra calçada vem um “Greenpeace”. Parado cinco passos à minha frente ele pergunta em voz alta:

- Você se preocupa com o meio ambiente?

- (…) Mais ou menos… – respondo logo ao seu lado.

- Mais ou menos?! Tem que se preocupar! – diz ele ficando para trás.

“Mais ou menos”. Que merda de resposta foi essa? Fui pego de surpresa. Deveria ter respondido que sim apenas balançando a cabeça e continuado a andar. Ou apenas olhado para a cara do infeliz sem responder porra nenhuma. O cara não tem intimidade o suficiente para me perguntar se me preocupo com o meio ambiente. É o mesmo que eu chegar pra qualquer pessoa na rua e falar: “Você tem medo de pegar AIDS?”.

Mas tudo que consegui pensar para responder naquele breve instante foi: “Mais ou menos”.

Tudo bem. A vida é assim. Não se pode ganhar sempre.

 


Categorias: Agenda,Contos |

2 Comments»

  • Franz Lima says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Conto legal, Diego. Gostei desta abordagem sobre estes indivíduos que nos abordam diariamente. Alguns motivados pela obrigação de seus empregos, outros pela miséria e alguns por sua crença em alguma coisa.
    A verdade é que paramos por pura educação. A vontade real é de seguir e nem dar atenção ou, em outros casos, saldar o indivíduo com um sonoro “f0d@-se, o problema é seu!”.
    Retratou bem o sentimento que engloba a maioria.

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Publicado por Diego Figueira

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