Milagre da vida moderna
Escritor: Del Santos
Um pombo pousou na janela. O velho, do leito onde estava, fez um chiado com a boca e balançou a mão a fim de espantá-lo. O pássaro calmo permaneceu.
O silêncio no corredor indicava que nenhuma enfermeira estava por perto. O homem lentamente ergueu-se num grande esforço e sentou à beirada da cama, resmungando – Não posso ter contato com impurezas e deixam essa porcaria aberta!
Num movimento desgastante levantou segurando no suporte com rodinhas em que seus tubos estavam conectados. Caminhou tremulo em direção a janela trazendo consigo o aparelho. Na medida em que se aproximava, seus olhos ardiam, adaptando-se a luz natural que há tanto não via. Chegou à janela. A ave não alçou vôo, continuou lá. Ele pôs as duas mãos no batente, olhando sério para o bicho – Porque não vai? Trouxe alguma mensagem para mim? - sorriu e olhou para além do prédio.
Do lado de fora, viu um mundo acelerado, com movimentos viciados de pessoas, a maioria falando em seus celulares, caminhando com pastas e levando seus laptops. Todas tão cheias de si. Os carros davam ar de um mundo mecânico. Olhou no horizonte e viu dezenas de arranha-céu, mais ao alto observou o passeio de máquinas aéreas como se fossem mosquitos gigantes. Todas aquelas coisas, prodigiosos feitos humanos. Mas ele era um sujeito intruso em meio a tudo aquilo. Um saudosista.
Começou a pensar no quanto sentia falta dos velhos tempos em que o céu da cidade tinha mais estrelas, hoje ofuscadas pelo neon e nuvens negras de poluição. Lembrou-se das caminhadas a pé, sem pressa de chegar. Recordou de como costumava conversar com as pessoas olhando nos olhos, de ouvir e ser ouvido. – Comunicação instantânea é uma cilada!- as conversas realizadas via e-mail, sms e todos os outros tipos de avanços o haviam separado das pessoas, do toque de seus filhos e netos – Todos perderam a sensibilidade.
Sentiu-se só, acuado por um mundo repleto de milagres engenhosos. - Não há cura para a inteligência humana.
Olhou com desprezo para o aparelho que monitorava seus batimentos, para os cilindros que lhe encaminhavam o ar – maldito mundo artificial. – Voltou para o leito, mas antes foi até a tomada, desligou o aparelho. Deitou-se.
Quando as enfermeiras chegaram já era tarde. O velho estava com um sincero sorriso enfeitando sua face. Seus olhos estavam na direção da janela, mirando o pássaro que finalmente voou. Num último suspiro ele agradeceu pelo e-mail divino que recebera. Uma mensagem à moda antiga, o bom e velho pombo-correio, que ele soubera interpretar. Seu sorriso permanecia, pois, no fim das contas não se entregou às parafernálias. O verdadeiro milagre da vida moderna. Poder escolher entre a vida e a própria morte.
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Otima reflexão sobre nosso atual mundo mecanico. É fato que estamos cada dia mais afundados e m engrenagens e bits. Otimo texto, muito bem conduzido e final intuitivo. Parabens!
ÓTIMO TEXTO! Realmente muito bom, parabéns! “Não há cura para a inteligência humana”… essa foi perfeita! Lembro-me que sou um daqueles de quem diz Douglas Adams que acham que o maior erro de nossa espécie não foi nem ter descido das árvores, mas ter primeiramente subido nelas. A vida era tão mais simples…
Li todos seus textos aqui agora.
Os temas que aborda de modo geral são bem interessantes e reflexivos. Senti falta disso nuns outros textos que li aqui. E uma coisa que gosto especialmente.
São textos simples mas com algo a mais.