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May
02
2011

Paradoxo

Escritor: Gustavo Martins

—Eu gostava daquela cidade. – a jovem disse, distraída – Ela era realmente bonita na primavera.

O homem ao seu lado a fitava piedoso. Recolhera aquela garota das ruínas de uma cidade há poucos dias e pela primeira vez ela parecia disposta a falar do ocorrido.

—Nos dias muito quentes as pessoas iam à praça central e ficavam conversando por horas sem parar. Bem, ao menos os adultos eram assim. As crianças só pensavam em brincar, não importava o clima. – ela então silenciou-se por  um instante e olhou para seus pés feridos pela longa caminhada que tivera de fazer para chegar na casa onde se encontrava – Sempre quis poder fazer aquilo também. Quero dizer, sair por aí correndo e brincando sem ter com o que me preocupar. Deve ser bem divertido, não acha?

—Tem razão, esse é o tipo de coisa divertida que apenas se pode fazer quando se é uma criança. No meu tempo de garoto tínhamos o costume de nos reunir para tentar apanhar insetos.

—Devia ser maravilhoso. Gostaria de ter podido fazer esse tipo de coisa.

Os olhos da jovem pareciam distantes, imaginativos. O homem se perguntava se não estaria ela, naquele momento, tentando visualizar essas imagens. Dias quentes de verão nos quais meninos corriam com redes atrás de estranhas criaturas aladas. A maioria das meninas considerava aquilo uma brincadeira tola, mas a jovem que estava a seu lado parecia ver nela algo de mágico. Já tinha certa noção de qual era sua história, mas queria ouvi-la dizer por si mesma.

—O que você era naquele lugar? – ele perguntou.

A garota abaixou a cabeça, melancólica. Aquela parecia uma pergunta difícil de responder para ela e por isso o homem decidiu não insistir.

—Sempre que a primavera começava, eles me deixavam ir à festa promovida pelo líder da cidade. Eles me davam roupas novas e me levavam até lá com toda a pompa. Era engraçado que quando eu chegava lá todos começavam a se curvar. Era como se eu fosse algum tipo de princesa. Mas princesas não ficam presas em quartos, não é? – ela perguntou, olhando tristemente para o homem.

—Não, hoje em dia não. Há dois séculos esse tipo de coisa era comum, mas é o tipo de coisa que se abandona com o tempo.

—Foi o que pensei.

Uma rajada leve de vento fez trepidar a chamas da lareira e logo a chaleira apitava na cozinha. O homem levantou-se lentamente e desapareceu por trás da porta de madeira. A garota então percebeu o quão grande e vazia era a sala onde estavam. Apenas alguns poucos móveis a decoravam e a única lâmpada brilhava no teto dava ao todo um aspecto triste. Ela tentou imaginar que tipo de homem era aquele com quem conversava, mas não chegou a conclusão alguma. Era difícil para ela, que poucas vezes via alguém que não fosse ligado ao comando daquela cidade, decifrar alguém era uma tarefa ingrata.

O tempo começava a esfriar e seu vestido de tecido fino mais a enfeitava que aquecia. Colocou os pés sobre o sofá e abraçou os joelhos, tentando manter o calor dentro de si. Por diversas razões já estivera nessa posição várias vezes. Em sua memória correram imagens das longas noites escuras as quais passou sozinha em seu quarto. Tão dolorosas eram as lembranças que se permitiu chorar tão desesperadamente quanto permitiam seus pulmões. O cansaço da longa viagem somado ao choro havia tomado de seu corpo mais energia do que alguém poderia possuir. A jovem então caiu em sono profundo.

Em seu sonho viu-se caminhando livremente por aquela cidade. Todos ao seu redor alegremente faziam suas atividades diárias. Sentiu uma alegria terna tomá-la e desejou fazer parte daquilo. Um brinquedo de criança veio voando em sua direção, caindo a seus pés com leveza. Seus donos, um grupo de meninos, pediram-na que jogassem o objeto para eles. A jovem abaixou-se para fazer como lhe fora pedido, mas não conseguiu completar a tarefa. Quando deu por si estava presa outra vez no escuro cômodo onde por anos residiu. Viu aqueles a que amava se distanciarem, continuando suas v idas sem sequer lembrá-la. Tentou agarrar suas imagens, mas era impossível. Ao seu redor a escura sombra a fechava em seu cerco. Por mais que resistisse, os tentáculos pérfidos dos imundos seres que habitavam aquele mundo eram mais fortes. Desejavam sua clausura e nada os podia impedir. Após uma longa luta tombou, exausta e sem esperanças, num poço profundo. Fechou os olhos, abandonando-se no desespero que a tomara. Tudo se perdera, sabia disso.

Quando decidiu novamente ver o que acontecia ao seu redor, qual não foi sua surpresa ao deparar-se com aquela mesma cidade, agora ardendo em chamas e perecendo enegrecida sob o ataque furiosa de bestas colossais, aberrações indescritíveis cuja própria existência negava todas as leis físicas conhecidas. A jovem fitava desesperada as criaturas, pois no fundo de tais monstros via algo que a aterrorizava ainda mais: sua própria mente deformada.

Despertou suada, confusa, assustada. Estava numa, provavelmente a do homem que a recolhera, coberta em seus lençóis e recostada em seu travesseiro. Levantou-se devagar e foi para a janela. Do lado de fora, no pátio da construção, viu o homem a conversar com uma criança. Ela aparentava ter menos de doze anos e usava roupas estranhas que somadas aos cabelos que lhe caíam por sobre os tornozelos a davam um ar exótico. Ambos pareciam sérios e a menina apontava de tempos em tempos para algum lugar que não era possível perceber de tão longe.

A jovem desceu até eles o mais rápido que pôde, mas quando chegou a menina já partira.

—Quem era a garota com quem estava conversando? – a moça perguntou.

—Uma amiga. Ela teve um problema e pediu minha ajuda.

O homem foi em direção a casa, seguido de perto pela jovem. A explicação fora boa, mas ainda sentia que algo de errado se escondia atrás daquela visita. Pelo resto do dia tentou descobrir do que se tratava, mas não obteve sucesso. Quando a noite chegou os dois jantaram juntos e enquanto o homem tratava dos pratos, a garota foi para o lado de fora.

Era noite clara de primavera e as estrelas brilhavam vivazes. Deitada na grama, a jovem observou para a escuridão infinita por horas. Jamais vira o firmamento tão iluminado, pois em sua cidade as luzes da terra ofuscavam as do céu e olhá-las por uma janela não era a mesma coisa que fazê-lo em um lugar tão belo quanto aquele. Desde pequena preferia as pequenas cidades às metrópoles agitadas e a pequena vila onde se encontrava era o pináculo da paz interiorana. Sentia-se tão feliz que temia que algo que viesse a ocorrer pude-se destruir essa felicidade. Não fazia idéia de quão corretos estavam seus temores.

Na sua quarta noite de sua estadia naquela casa o tempo havia esfriado mais que o normal. O vento forte penetrava por entre as frestas com um silvo agudo. O clima depressivo fez todos ficarem dentro de suas casas, protegendo-se do frio. O homem já fora dormir e a jovem lia deitada no sofá. Subitamente ouviu-se um farfalhar de folhas do lado de fora, como se alguém tentasse se mover furtivamente. A garota sentiu seu coração disparar, pois sabia que o que quer que fosse aquilo, não era bom. Caminhou lentamente em direção à janela, tentando desde o início enxergar o que quer que estivesse lá. Tudo que via, porém eram as sombras imóveis das árvores. Não havia vida alguma do lado de fora, nenhum movimento, nem mesmo o vento parecia soprar aquela noite. Apenas a escuridão e o som baixo das folhas sendo empurradas por algo.

Aproximando a face do vidro da janela, a garota tentou ver o que causava aquele barulho. Porém, nada viu. Olhou para o pequeno parque à distância, onde apenas o balanço se movia de trás para frente e então retornava. Era como um pêndulo a eternamente contar os segundos restantes para o a meia-noite. Foi então que o viu.

Correndo velozmente por entre objeto, uma sombra desumana se aproximava da casa. Nela apenas se podiam discernir os olhos. Centenas de pontos brilhantes, vermelhos, demoníacos. Pareciam estrelas sangrentas numa noite sem lua. A jovem sentiu faltar-lhe o ar. Deu um passo atrás, afastando-se da janela e daquela imagem aterradora. Tentou correr, mas tudo que suas pernas agüentavam eram lentos movimentos descompassados. Tinha de conseguir subir até o quarto onde estava o homem, pois apenas a ele poderia recorrer naquele momento. Em seu lento caminhar subiu as escadas e parou no limiar da porta do quarto do homem quando ouviu algo arranhar a parede externa da construção. Podia ouvir uma respiração lenta, pesada, algo que em muito lembrava o rugido de um animal. Bateu à porta, mas não obteve uma resposta. Bateu com mais força, mas nada. Tentou outra vez usando de toda a força de que dispunha em seu corpo, porém ninguém respondeu. O arranhar cessou, dando lugar a violentas batidas na porta da casa. A garota desesperada investiu contra a porta do quarto do homem com toda a energia que lhe restava. Tentou outra vez. E outra vez. E outra vez. E continuou até as dobradiças cederem e a porta de madeira cair com um estrondo alto. E olhando para dentro a garota não viu ninguém. Subitamente ela sentiu um arrepio gelado correr-lhe a espinha. Pulou para dentro do cômodo e, olhando para o lugar onde estava, viu “aquilo” destroçar o chão sobre o qual pisava.

A criatura era de uma monstruosidade indescritível. Todo seu corpo era formado por uma massa negra homogênea na qual se viam centenas, talvez milhares, de pontos vermelhos brilhantes. Seus braços, mais longos que todo o resto do corpo, terminavam em aberturas que pareciam ser bocas. De suas costas brotavam apêndices disformes cujas pontas guardavam algo que para qualquer um eram rostos humanos, pois de fato, era o que eram. Centenas de rostos humanos diferentes entre si.

A garota tentou correr, porém já não tinha mais para onde fugir. Estava no segundo andar, se pulasse pela janela dificilmente poderia continuar se movendo e dentro daquele quarto não havia um lugar onde se esconder ou para onde fugir. Estava encurralada. A criatura ergueu-se sobre as pernas elevando-se até o teto e, com um som aterrador, abriu seu tronco, revelando dentro dele uma região negra. Não se tratava de um negro como a noite ou como o breu, era mais escuro que ambos. Era como se aquele objeto absorvesse toda luminosidade atirada contra ele. Um disco sombrio do qual nada podia escapar.

De dentro do disco brotaram longos tentáculos negros cujas pontas abriam-se como bocas de répteis ansiosos para devorar algo. Quando eles se precipitaram sobre o corpo frágil da garota ela nada pôde fazer. Num instante estava coberta por aquelas coisas a mordê-la vorazmente. E naquele momento ela temeu. Temeu morrer naquele lugar, temeu nunca mais poder ver as estrelas a brilhar no céu noturno. Temeu nunca mais sentir a brisa do vento sobre si. Temeu nunca mais ver aquele homem que lhe mostrara que nem tudo era dor.

A garota não sentiu dor alguma quando seu braço foi arrancado pela criatura e sequer notou quando teve o abdômen perfurado pelos tentáculos. Por alguma razão nada daquilo lhe parecia real.  Foi então que percebeu algo que a fez se perder. Aquela criatura, aquela disforme manifestação das sombras, era o mesmo que aqueles monstros que vira na cidade. Tratava-se da mesma espécie de criatura que ela usara para destruir aquele maldito lugar e aquelas malditas pessoas. Lembrou-se então de como fora tirada dos pais quando descobriram que ela atraía tais criaturas. Decidiram usá-la como arma independentemente de sua vontade. Lembrou-se dos dias frios sob a chuva e o granizo, nos quais tinha de matar pessoas que não conhecia. Aqueles dias em que seu corpo era ferramenta de homens imundos. Achavam que podiam usá-la como quisessem. Acreditavam que enquanto mantivessem-na trancada ela não poderia chamar pela ajuda das aberrações que a obedeciam. Mas estavam errados, pois aqueles seres das não eram seus vassalos, eles eram parte dela. Eram filhos de seu sangue e de sua carne. Personificações de sua mente e de seus sentimentos. O quão não gritaram aqueles homens ao descobrirem isso no dia em que foram esmagados pelas bestas saídas de seu corpo.

Agora um filho pródigo retornava tentando devorá-la, tentando tornar-se supremo. Pobre tolo.

Com o braço que lhe restava a garota facilmente decepou o tentáculo que lhe perfurara o abdome, fazendo a criatura soltar um urro de dor. Era um grito desesperado, grave, amedrontador, mas para aquela garota era uma sinfonia agridoce, o coro de um filho de seu ventre. Livrou-se de todas as bocas que lhe mordiam e mesmo brutalmente mutilada caminhou em direção à besta agonizante. Rasgou-lhe o disco negro, decepando as extensões que dele saíam. A besta então caiu de joelhos perante sua criadora. Seus milhares de olhos estavam opacos, sinal da eminência de sua morte. A jovem acariciou a cabeça da besta. Um gesto final de compaixão de uma mãe para com seu filho rebelde. Então, com um esforço ínfimo, rasgou a aberração da cabeça ao abdômen, fazendo-a desfazer-se numa poça d’um líquido negro e viscoso.

E com um sorriso frígido na face, a garota entregou-se à inconsciência.

 

Em seu profundo sono viu-se correndo por vastos campos verdes. Buscava algo que não sabia o que era. Quanto mais avançava mais se sentia perdida e mais o desespero crescia em seu peito. Quando por sobre o tapete verde caiu a noite escura tudo se desfez em mágoa. Olhou para suas mãos manchadas pelo sangue de tantos e viu delas surgirem terrores indescritíveis. Viu-se então sentada num trono de carne perante o qual se prostravam todas bestas de planos anormais.

Quando despertou estava novamente sobre a cama do homem. Bandagens cobriam-lhe grande parte do corpo e, apesar de lembrar-se de tê-lo visto sendo arrancado, seu braço estava no lugar, assim como a porta do quarto. Tentou erguer-se, mas os ferimentos não lhe permitiram fazê-lo. O homem então entrou carregando uma pequena bandeja com o que parecia ser um desjejum. Colocou o tabuleiro sobre o criado-mudo e sentou-se ao lado da garota.

—Desculpe ter permitido isso.  – sussurrou ele – Queria ter estado com você, mas era algo que tinha de fazer sozinha. Entendo como foi difícil e por isso me desculpo.

A garota permaneceu em silêncio. Seus olhos estavam carregados de melancolia por agora saber o que tinha feito. O homem tocou-lhe a mão e ela o olhou, duvidosa.

—Consegui que uma amiga consertasse seu corpo, porém apenas você poderá consertar sua mente. – levantou-se e estendeu a mão para a jovem ferida – Você recebeu uma segunda chance, cabe a você decidir o que fazer com ela.

E segurando na mão daquele que lhe recolhera a jovem ergueu-se, orgulhosa. Não importava quem ou que tivesse de enfrentar daí em diante, não iria se esconder ou recuar. Não mais temeria aquilo que havia dentro de si e não mais permitiria que a usassem, pois sob uma lua de primavera uma Rosa Mosqueta floresceu.

 


Categorias: Agenda,Contos |

2 Comments»

  • princessmiwi says:

    Nossa, gostei bastante!

    Poderia melhorar com alguma revisão, vi pelo menos uma palavra “comida”, mas a idéia é interessante 🙂

    Parece início de uma história maior :p

  • Antonio de Souza says:

    Gostei, também! Só faltou alguma revisão, como disse a princess.

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