Sinistra
Escritor: Del Santos
Foi de um lado ao outro sem avaliar o movimento. Nem sequer importou com o trânsito dos carros.
***
Atravessou a rua de mão única com uma única mão. A outra acabara de ser decepada por uma máquina de cortar madeira. Em parte por culpa de uma bela moça que passava por ali. Desviou sua atenção e a lâmina do equipamento também.
O coitado perdeu a multifuncional, aquela mão de cumprimentar, de coçar a cabeça e outras partes, a mão de bater e de se defender, de apontar para as estrelas ou para acusar algo ou alguém. A mão de socorrer e ser socorrido, o membro com o qual aprendera a assinar seu nome unicamente para sua carteira de trabalho, para confirmar a cidadania. A mão de se apoiar ao cair, a que se machuca com mais frequência, e justamente por isso naquele dia ela estava de folga. O serviço ficou com a esquerda, a sinistra. Esta, por sua vez, fez jus ao nome e como que por vingança por anos de coadjuvância, fez “corpo mole”. Deu no que deu. Da companheira destra só restou o toco.
***
Saiu aos berros, direto para o hospital que por sorte ficava em frente àquela construção. Por sorte?
Entrou.
-SOCORRO! PERDI A MÃO, PERDI A MÃO!
Como se não fosse óbvio, ainda assim a recepcionista fez a pergunta: -O que está acontecendo senhor?
-PORRA! PERDI A MÃO, NÃO VÊ?!
Ela estava sentada em frente ao computador, mais interessada no MSN. Ainda assim resolveu atender o recém-aleijado maneta. – Calma senhor, primeiro preciso saber se o senhor tem plano de saúde.
- O QUE? ME ATENDA PRIMEIRO, DEPOIS VEJA ISSO AÍ!
- Mas senhor, isso faz parte dos nossos procedimentos de recebimento de pacientes. O senhor tem convênio?
- MEU DEUS!… NÃO! EU FAÇO ISSO OUTRA HORA! MAS AGORA ME AJUDA!
O sangue escorrendo.
***
- Pois bem senhor, se o senhor não é possuidor de nenhum tipo de vínculo por meio do plano de saúde ou por convênio…
Ele urrando de dor e o sangue jorrando, e ela: “senhor”.
- Senhor, vou lhe apresentar esse termo por atendimento de urgência.
E o sangue vazando, e o homem gemendo, e a mulher: “senhor”…
Vendo ele que não tinha outra saída: – CERTO! EU ACEITO TUDO O QUE TÁ ESCRITO AÍ! POSSO SER ATENDIDO AGORA?
-Ainda não senhor, primeiro o senhor vai ter que assinar aqui!
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Nossa, nem a piadinha no final diminuiu a angústia da leitura! O tema, ou melhor, como foi desenvolvido (esse absurdo nas palavaras da enfermeira e da situação, a impotência da personagem que não consegue simplesmente ser atendida no hspital e o desespero da mesma) lembrou-me alguns textos de Kafka – um dos meus grandes ídolos, junto com Poe.
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Enfim, gostei do texto. Tiraria o cômico do final e a caixa alta (substituiria por rápidas descrições dos gritos desesperados), mas ainda assim adorei.Parabéns.