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May
21
2011

Um (quase) monólogo entre uma assombração e o reflexo assombrado

Escritor: Ramon Bacelar

- Olá, como tem passado?- Perguntou a assombração.
-Huumm…estou me sentindo tão só. Ninguém olha para mim.-Lamentou o espelho.
-E eu sou o quê?
-Você não conta. Além do mais…
-Além do mais o quê?
-Você não me assusta. –Falou em tom rígido.
-Huummmm…-murmurou a assombração-Você é tão…
-Tá com medo de olhar para mim?
-Não gosto de você.Você é tão…-Vacilou: as palavras agonizaram, atrofiaram e ressecaram na garganta como folhas de outono.
-Direto?
-Não sei.-Respondeu após uma longa pausa.
-Claro que sabe!-É só olhar bem fundo que encontrará as respostas.
-N…
-SIM!! -Sou mais parecido com você do que imagina Bunda mole!-Esbravejou o espelho em fúria incontida encerrando em si em si mesma a soma de todos os desencantos e frustrações.

-Pare com isso!-Respondeu com voz aquosa: a sonoridade das palavras afogando na saliva pegajosa como areia movediça-Você me deixa… confuso.-Abaixou a cabeça e aguardou a chegada da bruma melancólica.

-Você é confuso…e covarde!.- Com sangue quente, começou a transpira, pequenas partículas de suor começaram a formar em sua moldura vitoriana no mesmo instante que a superfície enferrujada começou a adquirir uma alvura opaca, quase enevoada.

-Vamos encerrar essa discussão.-Falou com voz embargada.
-Covarde.- Suava.
-Pare.- Começou a tremer.
-Covarde.-Suava, Suava…
-Chega!-Tremia, tremia…
-Covarde, covarde, covarde, covarde…
Tremia… Tremia…Tremia…
Suava… Suava…
Silêncio.

-Olhe para mim.-Falou o espelho com voz calma: a névoa da superfície derretendo lentamente, metamorfoseando-se em matéria liquida cristalina, deformando os reflexos de uma realidade já há muito caótica e distorcida.

Como que por um estranho feitiço hipnótico, a assombração ajoelhou-se e olhou fundo: viu–se deformada pelas ondulações liquidas que agora começavam a tomar formas de gotas e inquietar o assoalho com seu irritante gotejar de tortura chinesa.
-Sabe por que não gostas de mim?- Perguntou o espelho.
-Não.- Respondeu a assombração.
-Eu não MINTO!

Numa explosão de fúria e reconhecimento, a assombração estilhaçou a monstruosidade vitoriana em mil pedaços , abaixou a cabeça e se fundiu com o vapor do seu reflexo que emanava dos incontáveis estilhaços  transluzentes.

FIM


Written by Ramon Bacelar in: Agenda,Contos,Ramon Bacelar |

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