Um Visitante Inesperado
Escritor: Christian
Estavam todos parados, olhares de medo, no convés do navio. Recuando meio que em arco. Todos recusando-se a aproximar-se da figura destacada que surgira há pouco tempo no bico da proa do navio.
Era uma criança. Tão baixa quanto a cintura de qualquer homem que estava por ali. Tinha o corpo marcado, raquítico. Debulhado sobre feridas impiedosas. Sua pele era branca como o cal, e seus olhos tão negros quanto o piche. No topo de sua cabeça, escorria rijo uma continuidade de cabelos emaranhados e duros. Entrelaçados como as cordas do navio. Uma camada de sujeira recobria-lhe todos os fios, dando além do aspecto sujo, uma nojeira irregular.
Uma das tranças da criança caía sobre o rosto, despejando um pequeno pedaço do fio para dentro do globo branco. Os homens sentiam agonia de ver a cena, e vários piscaram e cutucaram a vista por impulso.
A criança, que até tal momento estava estacada ali na ponta do navio, soou um ganido, logo após, assoprando forte com os lábios carnudos; mais brancos que sua pele pálida. O esbranquiçar de sua boca sobresaía sobre todo o branco restante do corpo.
Os homens pareceram um pouco menos perturbados ao ver o fio de cabelo saltar dos olhos da criança com o sopro que ela deu.
Mas ainda mantinham-se apreensivos, com a presença perturbadora da entidade.
Um homem deu o primeiro passo trêmulo. Logo, o segundo; e o terceiro; todo calculado.
– Aqui – o mandrião disse – pegue.
Estendeu a mão com migalhas de um pão já duro que amanhecera vários dias na cozinha do navio. O pão quase não se mantinha nas mãos do marujo, que, tremendo, deixava com que os restos da migalha se juntassem à poça de água preta incrustada no chão.
A criança estacada sem ensaiar um movimento sequer, permaneceu imóvel.
– É tudo o que temos – gaguejou o homem – Temos muito pouco; e o deste pouco é apenas o sobrado do dia de ontem – ensaiou mais uma explicação. – Estamos sem mais reservas. Por favor, pegue.
A criança continuou olhando. Não sabia-se, se, para o pão, para o homem, ou para qualquer outro lugar. Os olhos escuros permaneciam visualizando o espaço em volta, sem se mover. Como se fossem cegos.
Seu pescoço então mexeu-se, pendendo de súbito a cabeça para um lado, e fazendo um estalo ardío. Os homens, ali acumulados no convés, deram um salto largo para trás murmurando de susto. O mandrião mais a frente, recuou tropessante, e caiu no chão de madeira, derramando o pão inteiro. Estremeceu, querendo engatinhar para longe dali.
A criança albina ergueu a cabeça com o corpo estremecendo e convulsionando-se, até inclinar os olhos para o marujo. Passou o olhar como se analisasse cada homem dali. Parou.
Silêncio.
– Criança… – tentou novamente o homem.
Nada.
Os marinheiros não sabiam mais se deviam recuar ou avançar. Alguns já mormuravam para outros, balbuciando xingamentos. Outros, rezavam para todos os deuses, diante daquela figura impudica.
– Joguemos a criança no mar… – praguejou um dos homens ao fundo.
– Não. Prendamos ela no porão. – disse outro – Pode nos ser útil caso encontremos algum vendedor de escravos na próxima cidade. – riu.
Ouvindo o murmurar dos mandriões que se intensificavam com as novas idéias e, outros, desaprovamentos, o marujo mais a frente tomou de iniciativa. Agarrou o pão do chão, puxando junto ao miolo,um pedaço de sujeira misturada.
Levantou-se rapidamente tomado por coragem, a ingenuidade dos parceiros, e avançou até a criança, já esquecido do medo, ou tentando esquecer.
Agarrou sua mão quase num puxão e entregou-lhe o pedaço sujo de comida à força.
– Tome! – gritou, exasperando-se.
Um silêncio súbito logo após. Todos tomaram por decisão ficarem quietos, enquanto o homem digeria a idéia do que acabara de fazer. Ensaiou um pequeno passo pra trás, temendo e já prevendo ter feito a coisa errada.
A criança, mais uma vez, não se moveu.
– Por que diabos não estão fazendo seus serviços, bandos de cães preguiçosos – veio de súbito então uma voz altiva do fundo do convés. Aproximando-se da aglomeração e cortando a quantidade de mandriões parados por ali.
Do meio dos piratas, surgiu um homem alto, de ombros largos e cicatrizes recentes no rosto. Procurou o nada com o olhar, até encontrar o mandrião com a criança pálida mais a frente.
– Que demônio é esse? – espantou-se.
– Senhor… – o homem iniciou o diálogo, olhando para o capitão, mas ao fazê-lo foi rapidamente interrompido.
A criança largou as migalhas de pão ao vento e arqueou as sobrancelhas, arregalando os olhos, agora brancos.
Projetando os dentes serrilhados para fora da boca, agarrou o braço do homem e lhe penetrou forte os dentes em sua carne, jorrando um chafariz de sangue logo na primeira mordida.
– Aaaaaaarrrrrghh!!! –o homem esganiçou de dor. A criança preparava-se para a segunda fincada. Mas o capitão agiu rápido.
Acometido pela cena, levou a mão para trás das costas, sem cerimônias, e puxou em repelão uma pistola prateada, mirando-a contra o crânio da criança.
Ouviu-se o som do disparo, e a bala voou no espaço acertando a cabeça da entidade. A criança voou pra trás, cambaleante. Bateu com as pernas na manjada da proa e caiu nas águas. Morta.
Os homens gritaram de susto; como mulheres.
– O que o senhor fez?! – gritou o homem, balbuciando as palavras ainda em dor, e quase esquecendo-se da quantidade abundante de sangue escorrendo ao chão.
– Matei a vadia.
– O senhor matou uma entidade sagrada! Capitão, — gaguejou exasperante – aquilo era um deus… – concertou – uma deusa menor!
– Não. – impaciente – Aquilo agora é um morto – disse sem alterar a voz – E os mortos não são porra nenhuma. Vamos, voltem aos seus afazeres chacais! – gritou o capitão — E não me chamem de novo se tiverem uma dessas em seus cintos para resolver o problema. – disse mostrando a pistola.
O comandante girou nos calcanhares para retirar-se do recinto enquanto o restante ainda permaneciam incrédulos.
A tripulação, ainda espalhada, assimilando a ordem dos acontecimentos.
– Vocês ouviram – disse um dos marujos – Todos de volta ao trabalho!
Cada homem foi se retirando para os cantos destacados do navio, indo terminar afazeres interrompidos pela visita inesperada.
Todos, ainda abalados e incrédulos.
O comandante Imediato permanecia no mesmo lugar, com o braço ferido, esticado em direção ao chão, expelindo escarlate enquanto a outra mão tentava inutilmente paralisar a hemorragia do rasgo em sua pele. Dois homens aproximaram-se às pressas – um segurando seu ombro, e o outro carregando consigo um pedaço de pano que um dia já fora branco.
– Para estancar a ferida. – explicou. – Rápido, deixe-me ver seu braço.
Enrolaram-lhe a faixa em volta da fenda que estava aberta na carne do homem, e prenderam-na fortemente.
– Venha – disse um deles. – Somente isso não bastará para estancar o ferimento.
– Ele a matou. – balbuciou o Imediato. – Ele a matou. Deu um tiro contra a cabeça da entidade. Acertou um deus menor.
Os dois mandriões entreolharam-se, mirando logo em seguida o mar. O homem balbuciante fitava a imensidão azul com os olhos arregalados, em recíproco.
– O capitão Briggs atirou em uma entidade. – mordeu o lábio inferior e retorceu o corpo para trás. – Seremos amaldiçoados. Nós e esse maldito navio seremos injustamente amaldiçoados
Os tripulantes, em seus afazeres ao redor, tentavam fingir não terem ouvido àquelas palavras; enquanto os outros dois mais próximos, sem saber acreditar ou não, permaneciam calados.
– Que os deuses estejam conosco. – estufou o peito em dor – Que os deuses nos façam chegar logo à cidade mais próxima. – fechou os olhos.
Resignação. Todos em volta esqueciam do que viram. Esqueciam do que o Imediato havia dito, quando vira a aparição da entidade de súbito, na proa do navio, com os braços estendidos pedindo algo. Todos esqueciam, porque era o mais certo a se fazer – agora, só as ordens do capitão era o que importava, ou se não, haveria um outro corpo vítima de um projeto do comandante. E não seria de um visitante.
O navio começava a cambalear nas ondas da maré. Por sorte, já aproximava-se de um recife de uma cidade portuária. Altrim.
***
Pendendo de cabeça para baixo, o corpo da criança mergulhava pesado como ferro no fundo do oceano – deixando um rastro inter quebrado de sangue, que esvaía de um buraco de bala em sua cabeça.
Sangue.
Vermelho e salgado, como o gosto do mar sufocante ali a toda volta.
Sangue.
Vermelho escarlate. Brilhoso e dançante.
Como os enormes tentáculos que acolheram àquele corpo no fundo do mar – um urro borbulhante.
Nas profundezas da maré.
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Texto interessante. O final foi meio confuso… Pretende continuar? Achei bom usar palavras como “mandrião”, para nos ambientar no cenário, hahaha. Já “brilhoso” eu achei estranho… e “concertou” equivocado. Mas no fim das contas gostei do texto, e gostaria de ler o que mais há por vir, como uma explicação para a natureza dessa criança maldita! (a qual não me parece albina como é adjetivada no decorrer do texto.)
Obrigado pelo seu comentário, Antonio.
Pretendo continuar sim! O final foi meio vago propositalmente para que possa haver continuação.
Quanto aos termos que você citou e as palavras, estão anotadas… principalmente o “concertou”, que estranhamente passou despercebido na minha releitura.
Valeu!