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May
21
2011

Vai com deus

Escritor: Diego Figueira

Despertador do celular.

Baixo.

Crescente.

Alto.

Irritante.

A mão já vai automática para dentro da gaveta parcialmente aberta à esquerda. Busca-o cegamente em meio a meias e cuecas cuidadosamente dobradas, agarra-o e aperta o botão. Pequeno alívio. Pensamento confuso.

Cena idêntica aconteceu ontem e anteontem.

Sofrimento.

Inconformismo.

Em cinco minutos o barulho recomeça.

As alternativas: Lutar para continuar no torturante mundo que despertou ou simplesmente relaxar e voltar pra onde estava. Tentador.

Escolha fácil, não fosse pela leve consciência de que em quatro minutos o barulho recomeça. Busca os óculos na mesma gaveta tentando não tocar as lentes. Nem sempre consegue.

Barulho de telefone.

Alto.

Irritante.

Agora precisa concentrar todas suas forças se não quiser ouvir o toque mais uma ou duas vezes. Levanta-se da cama da forma como os ortopedistas não recomendam. Segundo toque.

- Alô.

- Oi, já tá acordado?

- Aham.

- Tá bom, tchau, tchau.

- Tchau.

Mesma cena aconteceu ontem e anteontem.

Seu pai ligava todos os dias no mesmo horário para certificar-se de que já havia acordado. Era uma geração fodida. Décadas atrás estaria casado, criando um pequeno pentelho e seria responsável, ou ao menos aparentaria. Cabelo curto, um bigode talvez, roupas decentes. Mas hoje era apenas um adolescente. Eterno adolescente. Uma geração fodida num país fodido.

Na verdade o horário do telefone podia variar de um a três ou quatro minutos. O que dava mais ou menos tempo para lamentar-se na cama em seu estado semi zumbi e pensar em suas alternativas.

Calça jeans, mesmo no calor. Qual seria o problema das bermudas? Parecer mais adulto. Imagem é com o que todos se importam.

Imagem.

Camiseta velha, desbotada. Disso não podiam reclamar. Ou ao menos ainda não haviam tomado coragem para isso.

Tinha um cara de outro setor que costumava ir todos os dias de bermuda. Até que um dia o viu de calça. E em todos os outros dias também. Como o teriam abordado? O serviço público é estranho, engraçado.

Meia velha na gaveta. Cuidadosamente dobrada.

Sempre busca a pior roupa disponível. A mais velha. Até o momento que sua mãe julgava-as inaceitáveis e as escondia. Não doava. Escondia. Talvez quem recebesse aquilo como doação se sentisse ofendido. Sabia que muita gente se livrava de roupas em perfeito estado.

“Enjoei”.

“Ai, preciso dar uma renovada no meu guarda roupas”.

Qual frase era mais gay que essa?

Usava as mesmas roupas que a seis anos atrás. Já tinha enjoado, mas usava. Ideologia ou coisa de adolescente? Um dia passaria, talvez.

Além disso, uma roupa preta com estampa colorida vai mudando. Se você enjoa dela, use por mais quatro anos e ela vira cinza com estampa indefinida, quase sumindo. Imaginava que depois de mais três anos ela ficaria larga, esquisita e com pequenos furos espalhados. Aí poderia usá-las como pijama. Pijama novinho, que demoraria mais uns quatro anos para enjoar. Depois os rasgos aumentariam, viraria uma espécie de trapo. Pano de chão então seria um bom destino. Até sumir. Do pó viestes, ao pó retornarás.

Mas antes delas virarem pijama sua mãe as escondia e ele não tinha mais ânimo de brigar para consegui-las de volta. Ainda tinha muita roupa velha para continuar seu silencioso protesto. Talvez tenha exagerado na aquisição de camisetas em algum ponto de sua adolescência. Real adolescência. Tinha o guarda roupas eterno.

O tênis fica num canto da sala, ao lado do sofá menor.

Música. CD no aparelho de DVD.

O Som da TV não era lá essas coisas, mas era melhor que o das caixinhas do computador, além do mais, já estava acostumado.

Maçã. Sem casca.

Sofá.

Cabelo, desodorante, remédios, água, banheiro, dentes.

O mesmo de ontem e anteontem.

Mochila.

- Tchau!

- Tchau, vai com deus.

Chave. Porta.

- São Miguel Arcanjo com suas asas protegei. São Miguel Arcanjo com suas asas defendei. São Miguel Arcanjo(…)

Via pela fresta da porta que já ia fechando sua mãe recitando o mesmo de sempre. Fazia-o com uma das mãos para cima, como aquela saudação nazista, mas com o braço parado num ângulo um pouco diferente e a mão aberta semi relaxada.

Botão de descer do elevador.

O elevador mais lento do mundo.

Por que raios um deles estava sempre parado? Tudo seria mais dinâmico se eles funcionassem em perfeita sincronia. Um subindo, o outro descendo. E você saberia que o que está descendo vai parar, abrir, fechar e você seguirá sua vida.

Morava no 4º andar, mas tinha altura de 6º. Dois andares de sobreloja.

Lembrava vagamente de fazer algo na companhia de sua mãe em uma das sobrelojas quando era pequeno. Cortar o cabelo talvez. Ou seria uma memória falsa? Acontece muito disso e as pessoas não se dão conta. São muito seguras de si.

Hoje em dia pareciam ser dois andares inúteis. Talvez servissem de depósito para equipamentos de limpeza e manutenção. Talvez. Nunca viria a saber.

Quando namorava pensava ser um bom lugar para se divertir com as garotas. Imaginava a cena com detalhes. Imaginava então um porteiro, faxineiro ou rapaz de manutenção aparecendo para verificar. Constrangimento.

Nunca pôs o plano em ação, nenhuma de suas ex namoradas tinha o espírito aventureiro que a maioria dos casais de filmes ou de amigos e conhecidos pareciam ter.

Um dos elevadores sempre estava no 9º andar. Parado. Estranhamente parado.

O outro estava no Térreo. Depois de séculos parado lá, começava a subir. Mas pararia no 4º andar? Ou subiria até o 19º, permaneceria lá por 1 minuto e só então começaria a descer, parando antes em meia dúzia de andares acima do seu? Nunca dava pra prever.

Por que não funcionavam em perfeita sincronia? Por que caralho a porra fica lá parada indefinidamente no 9º andar pra depois que você não precisa mais dele, descer? Ou descer só depois que o outro o ultrapassa. Qual o sentido disso?

Ao menos o botão tinha uma luzinha verde que acendia depois de apertado. Isso poupa repetidas apertadas e aquele sentimento de “será que apertei o botão forte o bastante?”. Algumas pessoas parecem não se livrar desse sentimento mesmo com a luzinha. Sua mãe era uma delas. Mas ele não sofria desse mal. Outras apertavam o botão de subir e o de descer simultaneamente. Mas ele também não sofria desse mal. Outras apertavam o botão de descer quando queriam subir. Isso ocorria com maior frequencia no Térreo. Ele não sofria desse mal. As pessoas são engraçadas.

Já no Térreo depara-se com a dupla de porteiros.

- Bom dia.

- Bom dia.

- Bom dia.

Timidamente, nada animador. Na maioria das vezes era mais algo como:

- Opa.

- Opa.

Ou apenas um cumprimento inclinando a cabeça para baixo se algum dos porteiros o olhasse. Caso estivessem ocupados ou distraídos preferia não interromper. Pra que serve um “bom dia” afinal?

Quando era menor sua timidez conseguia ser ainda maior. Não dava “oi”, “bom dia” nem “obrigado”. E todos com certeza o achavam metido. Quanta injustiça o mundo comete as vezes. Se conseguissem enxergar as coisas como eram de dentro de sua cabeça entenderiam. Hoje não sofria tanto desse mal.

 

 


Categorias: Agenda,Contos |

2 Comments»

  • Thaina Gomes says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Adorei esse texto, me identifiquei com o início porque aqui em casa é assim o cel tocando de cinco em cinco minutos, mas eu nunca acordo na hora certa passo uma hora brigando com o despertador.
    Outra parte que adorei foi a da camise preta com estampa colorida eu ri aqui muito.
    Divertido demais o texto!

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Publicado por Diego Figueira

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