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May
10
2011

Velho

Escritor: Vinicius Machado

velho

Tenho que terminar essa planta. Tenho que mandar, gritar, amanhã. Para a obra seguir.  Sempre que dizem para mim: Não te preocupas, é o telhado…ninguém vê. Eu lembro da frase do meu professor de faculdade: Mas Deus vê. Só que ao contrário do meu professor, dizia em tom sisudo e rancoroso.

Medi aqui, apaga, risca. Para. Pensa. Saí! Preciso tomar um ar. Ar não, preciso tomar alguma coisa mais forte. Mas com quem? Todos meus amigos estão trabalhando, ou descansando para trabalharem.

Estou cansado.

Rotina desgraçada, marasmo vicioso. Preciso mudar. Preciso resgatar meu sonhos infantis. Sonhos que tento esquecer, para não lembrar do fracasso.

Quando jovem e cheio de esperanças tinha como meta trabalhar ilustrando. Não importava o que. Poderia ser religioso, pornô, desde que recebesse merecidamente. Desde que fizesse meus horários. Formei-me em arquitetura. Hoje dou aulas de urbanismo e trabalho em uma construtora. Hoje, os horários é que me fazem.

Cansei! Vou sair. Não importa se sozinho. Preciso de amigos? Faço novos.

Casaco. Carteira. Chaves. Ultima olhada no espelho e vou-me. Quarta-feira. Cidade de Porto Alegre vazia. Já estou bem longe de casa. Aqui posso esquecer de pessoas conhecidas.

Este! “Pub”. Já gostei do nome. O clima é agradável, tem música ao vivo. Um coitado que sonhou com sucesso, mas acabou por tocar musicas alheias. Pelo menos está mais perto de seu sonho que eu. E o pior de tudo: O desgraçado é bom.

Mesa ou balcão? Sentar à mesa de um bar sozinho é assinar sentença de sociopata. Não, balcão. Aqui, se tiver sorte, posso ao menos paquerar—Paquerar. Será que dizem isso ainda? Só há jovens aqui. Será que alguém aqui é, ou já foi meu aluno? Bem, se for, qual o problema? Professores bebem, fumam, fodem. Pelo menos os de cursinho pré vestibular. Fodem—fodem as suas alunas empolgadas, ansiosas para a prova. Já fui professor pré vestibular—não comi ninguém.

“ O que vai querer?” perguntou o barítono. “Gin com tônica” respondi meio envergonhado com o olhar que esse moleque está lançando sobre mim. Parece me repreender por ser…Deus…velho.

Ter 56 anos é ser velho para esses merdinhas. Ter doze anos de idade e não ter transado com sua prima, hoje em dia, é ser um pária. Trouxe meu Gin com tônica. Mas dessa vez evitou me olhar nos olhos. Sentiu pena?

Pausa. Sem música. Alguém fala com o músico aos risos. Ele me fita a conversa inteira tremulando a cabeça, parece estar concordando com tudo que ela diz. A garota que está a sussurrar-lhe no ouvido também me olha. Ele acena com a cabeça e começa uma versão acústica de Dancing with myself do Billy Idol. Mas sem antes dizer aos quatro ventos que a música era oferecida “ao homem mais experiente do bar” e deixar o dedo em riste, na minha direção.

Gozado em menos de uma hora de bar. Sem ter feito nada, além de viver, para merecer. Levanto meu copo na altura de meu ombro com um sorriso amarelo, sorvo um cole da bebida e volto a olhar para frente.

Peço a segunda dose. Ele já me trata indiferente. Ser velho é uma merda.

Estar nesse Pub e ver todas essa pessoas dançando, sexualizando-se. Sem ter ação. Tenho que ficar aqui. Tinha de ter feito tudo isso quando era mais novo. Eu fiz. Não com tanta intensidade, mas fiz. Casei. Tive filhos. Me divorciei, não conheço meus netos.

Meu filho mora no Canadá e nunca vem para o Brasil. Não liga, só manda e-mail. Mas o computador, aquele monstro, sempre tem alguma coisa para falhar. Já desisti dele e do computador.

Minha filha não fala comigo desde seus 25 anos. Seis anos desde que se formou farmacêutica.

“Eu fiz a merda desse curso, por que você mandou! Por que você queria!” Gritava e esbravejava com o diploma na mão quando indaguei, irritado admito, por que decidirá largar a carreira promissora para dedicar-se a escrever poemas, crônicas.

Hoje tem uma coluna no jornal Zero Hora e vende livros. Tanto que com sua segunda publicação comprou uma casa na zona sul de Porto Alegre. Eu me orgulho muito dela.

“hey!” grita o cantor e começa um improviso no violão, imitando o som de um bandolim. Com uma voz animada começa a cantar Vamos Celebrar do Oswaldo Montenegro. Desta vez não é dedicada a ninguém.

Peço a terceira dose e pago as três. Dou um gole que mata a metade da bebida.

Sinto uma mão pequena me puxar o braço. É da menina que oferecerá a música para mim a pouco. Animada. Gritando no ritmo: “Vamos celebrar! Celebrar!” Não entendi nada. “vem vem” gesticulava com a mão. “vamos dançar” Disse ao pé do meu ouvido enquanto segurava minhas mãos firmemente. Não pude negar. Não consegui nem falar. Dancei.

Ela dançava freneticamente. Tentava acompanhá-la, mas não tinha um padrão. Ela trouxe seus busto suado, sob uma blusa branca decotada, para perto de mim. Me fulminava. Chegou com a boca perto da minha, sorrio e virou-se. Esfregando suas nádegas redolentes em mim. Segurava o cabelo loiro enquanto rebolava. Continuava a me fulminar com os olhos verdes lindos. Virou-se bruscamente e sem rodeios me beijou. Senti sua língua lutar para encontrar a minha, que estava assustada e tímida, mas logo se resolveu.

Devolvi-lhe o beijo a altura.

“Vamos para um motel!” Disse no meu ouvido. Sempre no ouvido.

Segurou minha mão novamente. Fomos para seu carro, um UNO, novo. Ela dirigiu. Ainda animada. Socializava suas ideias para depois da sua formatura. Do estúdio que abriria com mais três amigos. Dizia com convicção de que tudo daria certo. Fiquei mudo, ouvindo com atenção. Atenção que só o tempo me ensinou a ter.

Chegamos ao motel Avalon. Subimos para o quarto. E começamos. Mostrei de que o “homem mais experiente do bar” é capaz. A possuí uma, duas três vezes. Então ela começou a fazer o trabalho sozinha. Sua libido era insaciável. Fomos dormir eram quatro horas da manhã.

Lembro que na manhã seguinte vi apenas o barulho do chuveiro ligado, e o vapor tomando o quarto. Acordei com o celular tocando ao meio dia. Ela não estava mais ali, tinha sumido junto com as brumas de vapor.

“Anselmo! Onde tu está cara?!” disse o mestre de obra “Tem que trazer a planta e ver esse telhado, esse maldito telhado!” Não aguentei em risos lembrando da noite anterior e disse: Não te preocupas, é o telhado…ninguém vê. Pedi demissão. Essa noite era um sinal, precisava ser ilustrador.



Written by Vinicius Machado in: Contos,Vinicius Machado | Tags: , , ,

34 Comments»

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    Ótimo texto, cara. Parabéns!

  • STW says:

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    Belo texto, Vinicius!

    Achei bem escrito, na medida. Acho, porém, que diminuindo ao mínimo o uso de palavrões acrescente à riqueza geral do trabalho.

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    Que cês acharam pessoal? =D

  • Samila says:

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    HUhauaha, eu gostei. Muito bom o drama do personagem com sua idade e seu percurso de vida, sua relação familiar, adorei muito tudo isso.
    Só fiquei sem entender direito esse final. O que a garota queria com ele, afinal? Se era só sexo, ela não teria pego um ‘novinho’. Pensei que ela fosse uma ‘cortesã’ o.o
    Mas enfim, gostei muito do final. Demissão = liberdade

  • Antonio de Souza says:

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    Ow, gostei bastante. Como já dito nos comentários, há alguns erros de gramática menores, mas nada tão gritante que atrapalhasse a leitura. A verdade é que o texto me agunstiou, vi-me diante de muitas referências próximas a mim. Nossa, tenho 23 e já me acho velho pra caramba! Sou frustrado, me formo em Direito no meio do ano e só fiz porque meu pai queria… meu desejo mesmo era ser o quÊ?… hpfmmm… ilustrador…

  • ViniciusMaboni says:

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    Otimo texto, parabens chará. Muito bom mesmo. Gosto de “lições auto-induzidas”.
    Textos em primeira pessoa também me atraem bastante. E este foi muito bem conduzido. parabens!

  • RodrigoBS says:

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    Ba cara. Adorei o texto. Primeiro, Porto Alegre. Não que tenha relação alguma, mas quando a gente gosta de algo não se explica direito…
    Depois, gostei muito do estilo direto e corrido. Achei a quantidade de palavrões boa, pois ninguém pensa maneirando o palavreado. Me identifico com a história, e não pouco. Mais alguns contos desses e eu largo minha faculdade… suhahusasa
    Parabéns.

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      hahahaha! Brigadão pela força!

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      Concordo. Pra quem conhece Porto Alegre, cara, ficou perfeito! Fantástico como a proximidade com as coias mais familiares a nós faça com que a identificação seja quase imediata. O Pub é da Padre Chagas??? Hehehe

      Gostei muito. O tom está ótimo. E pensamos assim mesmo, pulando de assunto em assunto… E muitas vezes nos odiando cada vez que pensamos… Cara, parabéns. Bela história.

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    Acho que coloquei um velho, muito velho, na imagem! :-o

  • Ângela says:

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    Adorei o texto muito bom!
    Parabés! =D

  • Franz Lima says:

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    O cara da imagem realmente está velho demais para o que foi descrito. Contudo, sinceramente, em nada atrapalha o conto. A história é bem interessante e, sem dúvidas, reflete um pouco do “conflito” de gerações… principalmente quando se trata de uma balada. A narrativa iniciou com uma certa dose de marasmo, mas o desenrolar ficou perfeito.
    Concordo com a necessidade de uma revisão ortográfica. Claro, isto não tirou o brilho do trabalho.
    Parabéns.

  • Omninerd says:

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    Realmente, a imagem nãd bate. Mas o texto está excelente. Eu ainda nem completei 18 anos e vi em algumas características do velho.

    Enfim, a história familiar, esse negócio do sonho, tudo tratado de uma forma mais informal. Gostei bastante. =)

  • Thaina Gomes says:

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    Eu ri nessa parte e concordei até.”Será que alguém aqui é, ou já foi meu aluno? Bem, se for, qual o problema? Professores bebem, fumam, fodem” Pai você me enche de orgulho, sabia? Muito bem! Gostei demais!

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    bom!
    ah, na minha opiniao está boa a quantidade de palavroes ^^

  • Patch. says:

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    O problema é que o cara tinha 56 anos. (época em que a maioria das pessoas têm esse tipo de percepção).

    O bom mesmo é ter essa sacada enquanto jovem!

    Enquanto a estrutura do texto, está muito bom mesmo. Bem autêntico.

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