Vicissitude alcoólica
Escritor: Rafhael Marsigli
Marcos Aurélio Júnior estava lá, sentado, silencioso e envergonhado. Era a primeira vez que ia para uma reunião apelidada pela sigla AA, ou alcoólicos anônimos. Nunca imaginou que em seus 27 anos de idade teria que recorrer a uma atitude tão drástica. Talvez o que lhe confortava é que não estava sozinho, havia mais quatro pessoas das mais variadas idades, que foram se apresentando um a um, como um clichê em reuniões do tipo, Eduardo (38 anos), Silvio (41 anos), Sérgio (43 anos, o mais velho de todos) e Costa (35 anos, este não se sentiu a vontade de dizer seu primeiro nome, preferindo apenas usar o nome da família, o que deixou Marcos intrigado, pois seria menos “sujo” usar seu nome verdadeiro), sem contar aquele que se auto-denominava orador, Silveira. Vendo o estado de Silveira nos dias atuais, ninguém poderia dizer que já foi um membro do AA, que já passou por dificuldades ou coisas do tipo, uma lição de superação, pelo menos em sua fisionomia.
Reuniões como essa são muito faladas na sociedade, o que causava um certo medo naqueles que iriam pela primeira vez, como era uma ação comunitária e livre de pagamentos obrigatórios ou taxas, o lugar não era aconchegante e nem receptivo, parecia uma sala de interrogatório. Na verdade, era um quarto, com algumas cadeiras de plástico brancas, um pouco sujas, a luz não tinha a intensidade necessária para o local, amarela, e dava a impressão que suplicava desesperadamente para ser trocada. As paredes estavam descascadas, com farelos em alguns cantos e havia apenas um móvel, uma escrivaninha velha com alguns panfletos xerocados e grampeados com um grampeador convencional, de uso caseiro.
– Ontem eu entrei em um estado crítico, acabei saindo mais cedo do trabalho, mas em vez de ir para casa, acabei passando em um bar de esquina para molhar um pouco a garganta, quando fui ver já tinha tomado mais do que o necessário. Não contente com isso, parei em outro bar no caminho de volta, quando cheguei em casa, nem sei como consegui estacionar o carro. Minha esposa começou a gritar comigo, muito alto, eu tentei não ficar bravo, mas ela não parava de gritar, acho que todos os vizinhos estavam ouvindo. Tentei me controlar, mas algo tinha que ser feito, foi quando uma fúria tomou conta de mim, mandei ela calar a boca e dei uns socos na cara dela, ela tentou se defender, mas esmurrei o braço dela também, e a barriga… Estava fora de mim, quando vi, ela estava encolhida no canto da cozinha, chorando. Minha filha de sete anos se trancou no quarto, e começou a chorar também. – Disse Costa, olhando para baixo, escondendo a fisionomia, e falando em um tom de voz até calmo demais – Sabe, sei que a culpa parcialmente é minha, masse minha esposa não estivesse gritado tanto comigo acho que algo assim não teria acontecido.
Marcos ficou pasmo, começou a se perguntar o que estava fazendo ali, pois sua história no alcoolismo nunca chegara neste ponto. Como mora sozinho, não tem horário para chegar em casa, então depois do trabalho sempre vai em algum pub com os amigos para beber e conversar, depois as coisas começaram a ficar mais avançadas, todo dia antes de dormir algumas doses de red label sempre eram bem vindas. Beber com os amigos não era nada demais, muito menos beber sozinho antes de dormir, era apenas para relaxar, esquecer o dia duro de trabalho e ter um bom sono. As coisas ficaram estranhas depois, quando o café da manhã fora trocado por uma dose, e quando o dinheiro estava curto, era vodca, não importa a marca, sempre levava um cantil para tomar uns goles no horário de almoço. Um dia, foi trabalhar extremamente bêbado, não produziu e ainda ganhou uma advertência, além dos comentários no escritório. Este dia foi o limite, sabia que precisava de tratamento.
Sua cabeça começou a latejar, mas antes que pudesse pensar em algo concreto, foi interrompido por um outro membro, desta vez, Sérgio levantou a mão para falar.
– Sou separado, também por causa da bebida, hoje moro em uma kit net, pago pensão e sou uma pessoa muito depressiva, pensei em me suicidar várias vezes mas nunca tive coragem. Eu perdi tudo o que tinha, não falta muito para ficar desempregado, com os cortes da empresa. Sou apenas um peso na vida das pessoas. Bebo desde os 27 anos, e nunca pensei que fosse chegar neste ponto e…
Neste momento, as palavras de Sérgio ia sumindo aos poucos, enquanto os pensamentos de Marcos gritavam dentro de sua cabeça, será que um dia ele ia chegar neste ponto? Ter um casamento arruinado ou pior, ser agressivo com a esposa? Uma coisa era certeza em sua convicção, a bebida não devia levar tanto crédito assim nas atitudes alheias, seria como dizer que a culpa do homicídio era a arma, talvez um pensamento hipócrita, mas era o que ele conseguia deduzir, se sentiu nauseado.
Em um movimento de extremo desespero, levantou da cadeira e saiu correndo em direção a porta, batendo-a com força, descendo as escadas de dois em dois degraus, pegou logo a chave de seu carro e tentou várias vezes acertar o botão para desligar o alarme, como se estivesse fugindo de um monstro. O carro saiu cantando pneu, e sumiu na segunda esquina, quase atropelando um ciclista.
– Ele vai voltar – Disse Silveira, voltando a atenção para o depoimento do próximo membro.
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Obrigado por aceitarem
Primeiramente, bem vindo ao One!
Segundamente(?)eu achei interessante esse teu texto. Ele tem um apelo social, por abordar esse tema. Funciona bem de forma institucional.
Todavia, de forma literária, ele deixou a desejar. Apesar de sua descrição ser boa, ficou muita coisa por descrever. Por ser um tema forte, sugiro você utilizar isso para agregar [b]emoção[/b] ao seu conto, pois de longe é o que mais falta nele. Imagina o drama de uma pessoa que chega a procurar o AA? O que aconteceu? o Quanto ele sofreu? o Quanto ele chorou? Esprexar isso faria com que o leitor se identificasse com o protagonista, prenderia a atenção do mesmo.
Cativaria.
Outra coisa é esse final. Finais abruptos funcionam em algumas histórias, mas nesta não funcionou. Deixou uma sensação de trabalho por fazer, entende?
bem, são essas minhas considerações.
Sucesso, e continue postando contos por aqui
sou novo aqui, mas por enquanto esse foi o texto que mais me agradou. gostei do tema, dos detalhes e do realismo. parabéns.
ah, favoritei seu blog aqui p/ dar uma olhada qd tiver mais tempo
Samila, obrigado pelo seu comentário, irei absorver suas dicas e melhorar, aliás este foi o segundo conto que escrevi, ainda estou “engatinhando” neste novo mundo. Como gosto de ler, talvez tenha ajudado um pouco. Em relação ao conteúdo, tentei ser breve para não ficar massante ao leitor, e a idéia é fazer um conto sobre como Marcos Aurélio chegou ao ponto de ir ao A.A, basicamente uma estória antes desta com o sentimento do personagem bem nítida e perturbadora.
Diego fico muito feliz pelo seu comentário, este blog armazena muitos contos e textos ótimos, tenho certeza de que você vai achar muita coisa boa por aqui! E obrigado por favoritar meu blog
Agradeço a todos pelos comentários! Abraços